quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Quase no Chui...destino dos sonhos: Lagoa do Peixe

Tachã
Assim que  o meu encanto pelas aves começou a aumentar, passei a pesquisar mais sobre elas e seus habitats. E assim fui aprendendo sobre as diversas espécies e em quais biomas eu as encontraria. 

Alguns santuários, cobiçados pelos birders de todo o planeta, passaram a encabeçar a minha lista dos sonhos. A Lagoa do Peixe em Tavares/RS foi um deles. Essa "necessidade" ficou preemente depois de eu conhecer o Batista durante o Avistar 2012.
É impossível falar da Lagoa do Peixe em Tavares sem associar o nome do Batista. Primeiro porque ele conhece bem todos os lugares e onde encontrar as aves que desejamos avistar e fotografar. Segundo porque ele, sua família e sua equipe são pessoas muito especiais. Super receptivos, atenciosos e pacientes.

Lagoa do Peixe

Batista
Mas vamos começar a descrever essa aventura desde o início.

Eu e minha amiga Carmen Bays Figueiredo adoramos viajar juntas. Essa foi nossa quarta aventura. Papo vai, papo vem, via skipe, lá pelo meio do mês de agosto decidimos ir para Tavares ainda esse ano. Infelizmente nosso grande companheiro de viagem, o professor-biológo-fotógrafo e amigo Carlos Eduardo Godoy não poderia nos acompanhar.

Feito isso passamos à materialização da nossa viagem.

Após escolhermos uma data possível para as duas, liguei para o Batista, consultei a disponibilidade e fiz a pré-reserva no Hotel Parque da Lagoa, inclusive dos passeios (ele só não poderia nos acompanhar no sábado, pois já tinha compromisso na agenda). Carmen disse que seu esposo gostaria muito de nos acompanhar. Feito. Convidei também a amiga Niedja para ir, pois me recordei que um dos desejos dela era conhecer Tavares. Ela aceitou de pronto. Carmen cuidou das reservas de hotel e aluguel do carro, para irmos de Porto Alegre até Tavares.

Teríamos que dormir em Porto Alegre, no dia de chegada e no dia que antecederia a viagem de volta. Queríamos um hotel próximo ao aeroporto. Pensamos no Ibis, mas esse não tinha vagas. Acabamos escolhendo um tal de Expressinho (que não recomendo de jeito nenhum).

Quarta-feira (31/10/2012)


Cheguei em Porto Alegre no meio da tarde, bem antes que o resto do grupo. Conforme combinado, solicitei o traslado e a perua do Hotel veio me buscar. Cheguei e fui dormir um pouco pois estava muito cansada. Um pouco depois meu amigo Alexandre Schuster, de Porto Alegre,  foi me ver e levar um livro sobre aves que eu reservara num sebo e ele, gentilmente, buscara para mim.

Fiquei lendo o livro enquanto aguardava a chegada dos demais companheiros de viagem. Liguei a TV e já cochilava quando Carmen e Fernando chegaram, conversamos rapidamente e voltei a dormir. Niedja chegou, mas como o hotel não dispunha de uma segunda chave, foi obrigada a me acordar para abrir a porta. Aí é que o problema começou, o hotel fica ao lado de uma pista movimentadíssima, e não conseguimos pregar mais o olho, principalmente quando passavam veículos pesados. O chão tremia, o barulho era ensurdecedor. Na manhã seguinte, ligamos para o Hotel Ibis e conseguimos reservar quartos para a volta. Foi muita sorte.

Quinta-feira (01/11/2012)

Com a benção de Santa Clara, o dia amanheceu lindo. Passamos na locadora Unidas, pegamos nosso Cobalt com apenas 700 km rodados e lá fomos para Tavares, ansiosos feito crianças. Em Capivari do Sul estavam recapendo um pedaço da estrada, paramos no acostamento e fizemos belas fotos do garibaldi (Chrysomus ruficapillus), como se fosse o único. Mal sabíamos que iríamos nos deparar com milhares de garibaldis no restante da viagem. (Dai Barros, lembrei de você nessa hora).

Garibaldi (Chrysomus ruficapillus) - Chestnut-capped Blackbird
Já em Mostardas, clicamos o belo gavião-do-banhado (Circus buffoni) pousado num mourão. Dois belos gaviões-caboclo (Heterospizias meridionalis) deram um espetáculo para nossas lentes. Começamos bem.

Gavião-do-banhado (Circus buffoni) - Long-winged Harrier
Gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis) - Savanna Hawk
Já em Tavares, almoçamos na Churrascaria Flamingo, por indicação do Batista. Após o check-in na Pousada, ele levou-nos passear. Sabe aquela emoção de primeiro dia de aula? Então...saímos feito crianças, cheios de expectativas.

Fomos a um banhado às margens da rodovia e o Batista deu a dica para eu chamar o frango-d'água-carijó (Gallinula melanops). Ele respondeu de pronto. Dei um pulo enorme, quando eu o vi sair do meio das moitinhas. Foto-foto-foto-foto...e para fechar apareceu o minúsculo joão-pobre (Serpophaga nigricans). Tentei chamar o cardeal-do-banhado (Amblyramphus holosericeus) e nem sinal...

Frango-d'água-carijó (Gallinula melanops) - Spot-flanked Gallinule
João-pobre (Serpophaga nigricans) - Sooty Tyrannulet
E vamos seguir adiante. Próxima parada: a famosa Lagoa do Peixe, mas antes um "pit-stop" na trilha Talha-mar. No caminho, vimos algumas aves rasteiras: curriqueiro (Geositta cunicularia) e o caminheiro-de-espora (Anthus correndera). Consegui um único clique do belo azulão (Cyanoloxia brissonii).

Enfim a bela Lagoa dos Peixes se descortinou diante dos meus olhos. Bandos de cisnes-de-pescoço-preto (Cygnus melancoryphus), capororocas (Coscoroba coscoroba), maçaricos de várias espécies e enfim, o tão sonhado flamingo-chileno (Phoenicopterus chilensis). Apenas alguns voando. A Carmen viu primeiro e deu o alarme para o grupo. Foi uma euforia geral.

Lagoa do Peixe
Cisne-de-pescoço-preto (Cygnus melancoryphus) - Black-necked Swan
Na volta paramos no "Seu" Manoel para um cafezinho e fomos ver o por do sol na Lagoa dos Patos, do outro lado. A Lagoa é infinita aos olhos. É um espetáculo a parte, imperdível. Começou a esfriar muito, mesmo assim eu resolvi fotografar de cima do Land Rover. A bateria acabou e eu troquei-a no vento gelado. De repente, a câmera deu erro, mandava desligar e recolocar a bateria. Nada. Sabe quando bate aquele desespero e arrependimento de não ter trazido os dois corpos da 7D. Carmen ainda pediu para colocar a lente dela para ver se poderia ser a lente. Nada...Não estava com a Canon SX40 no momento e usei a Sony R1 para mais algumas fotos.

Por-do-sol deslumbrante na Lagpa dos Patos
Fernando, Carmen, Niedja e eu
Retornamos à pousada, um lanchinho e um merecido descanso. Coloquei minha câmera envolvida num cobertor e rezei para a minha Santa Clara fazer ela funcionar no dia seguinte.

Sexta-feira (02/11/2012)

A câmera amanheceu tinindo. Acredito que houve um choque térmico, ao abrir o compartimento para trocar a bateria no vento frio. Nos demais dias, não passei mais nenhum susto. Após o delicioso desjejum oferecido pela pousada, Batista conduziu-nos em seu Land Rover "animal" pela Lagoa do Peixe até as dunas de areia da costa que vai de Tavares à Mostarda, passando pela barra, onde o mar se junta à lagoa.

Niedja e eu com o mar ao fundo (Mostardas/RS)
Carmen e eu comemorando mais uma viagem juntas
No trajeto fotografamos várias aves. Algumas cenas me deixaram com o coração partido. Alguns petréis mortos na praia, sabe-se-lá porque, e um golfinho morto por causa de uma rede. Deu uma imensa vontade de chorar.
Redes: um grande problema...
Mas para amenizar meu coração, cruzamos com um leãozinho-marinho, perdido da mamãe, que ficou fazendo poses para nossas lentes. Tomara que ele consiga encontrar sua mamãe e volte a alegrar nossos mares.
Filhote perdido...
Piru-piru (Haematopus palliatus) - American Oystercatcher
Almoçamos fartamente num restaurante no balneário de Mostardas e fomos percorrer a trilha de Caieira, no caminho avistamos a saracuruçu (Aramides ypecaha). E quando eu fazia um mundaréu de cliques da bichinha, toca o celular. Atendi, era da Avianca avisando mudança de horário no retorno a São Paulo, passei o aparelho para a Niedja falar com o rapaz para não perder o momento de jeito nenhum...tanta hora prá ligar...

Saracuruçu (Aramides ypecaha) - Giant Wood-Rail
E lá fomos nós rumo a um dos sonhos da minha lente: o papa-piri (Tachuris rubrigastra). Demos sorte de fotografar também um casal de bate-bico (Phleocryptes melanops). Vimos o sol se por já no caminho da pousada.

Papa-piri (Tachuris rubrigastra) - Many-colored Rush Tyrant
Bate-bico (Phleocryptes melanops) - Wren-like Rushbird
Pedimos pizza para o jantar e dormimos feito anjos.

Sábado - 03/11/2012

Nesse dia o Batista tinha um grupo gigante de estudantes de fotografia e não poderia nos acompanhar. Deu-nos preciosas dicas de onde ir. Devido à nossa inexperiência, ficamos torcendo para que o dia também fosse proveitoso. Resolvemos passar antes no banhado do frango-d'água-carijó e tentar o cardeal-do-banhado (Amblyramphus holosericeus). Nem sinal dele, mas ao chamar o frango-d'água-carijó, o casal veio rapidinho e pudemos fazer boas fotos deles.

Frango-d'água-carijó (Gallinula melanops) - Spot-flanked Gallinule
Fomos para a trilha da Figueira. Havia muito pequeninos, mas eu não obtive muito sucesso com o play-back. Frustradas, eu e as meninas fomos caminhando em direção à Lagoa, havia muito poucas aves. Três flamingos estavam se alimentando, porém sempre distantes. Entrei na lagoa e fui caminhando devagarinho, andei quase 1 km dentro da água rasinha, cheguei num local o mais perto possível e fiz muitos cliques.

Flamingo-chileno (Phoenicopterus chilensis) - Chilean Flamingo
Na caminhada de volta, fotografamos um ninho de uma Andorinha-de-sobre-branco (Tachycineta leucorrhoa). Fazia muito calor e estávamos muito acabados, voltamos para o carro e seguimos para a pousada. Almoçamos e fizemos uma siesta.

Andorinha-de-sobre-branco (Tachycineta leucorrhoa) - White-rumped Swallow

Ao cair a tarde, visitamos novamente a Trilha do Talha-mar. Paramos no caminho e tentamos alguns pequeninos. Mas o melhor estava mesmo na lagoa. Cisnes, capororocas e um bando de flamingos-chilenos. Pudemos chegar mais perto, onde um fotógrafo estava deitado, clicando os bichos. Fomos pé-ante-pé até lá e fizemos muitos-muitos cliques, o fotógrafo entrou na água em busca de aproximação dos flamingos e no final ainda aproveitamos a revoada.

Gaivota-maria-velha (Chroicocephalus maculipennis) - Brown-hooded Gull
Flamingo-chileno (Phoenicopterus chilensis) - Chilean Flamingo
No retorno, havia muitos maçaricos e talha-mares. O por-do-sol foi ali mesmo, com um belo  reflexo na lagoa do peixe. Conhecemos o fotógrafo que também estava hospedado no pousada do Batista. Ele, o Gustavo, é de Porto Alegre e faz fotos por amor à arte e à natureza.
Talha-mar (Rynchops niger) - Black Skimmer
Gustavo
Por-do-sol na Lagoa do Peixe
O jantar foi providenciado pela esposa do Batista, a Marta, mas não foi um simples jantar, foi um verdadeiro banquete. Barriguinha cheia, mais uma noite de sono tranquilo. Enfim, ainda tínha mais um dia para a gente aproveitar.

Domingo - 04/11/2012

Levantamos cedo e o Batista nos levou para um passeio na beira da Lagoa dos Patos. O Fernando não quis ir e ficou na Pousada. Foi delicioso, muitos trinta-réis, de várias espécies. Fotografamos andorinhas, marrecos, tachãs, gaviões e belas paisagens. A diversão foi filmar e fotografar o Batista e a possante Land Rover passar pela água. A Niedja em cima, se divertiu.

Olha a possante aí...
Batuiruçu (Pluvialis dominica) - American Golden-Plover
Batuíra-de-coleira (Charadrius collaris) - Collared Plover
Capororoca (Coscoroba coscoroba) - Coscoroba Swan
Gavião-caramujeiro  (Rostrhamus sociabilis) - Snail Kite
Irerê (Dendrocygna viduata) - White-faced Whistling-Duck
Maçarico-de-colete (Calidris melanotos) - Pectoral Sandpiper
Tachã (Chauna torquata) - Southern Screamer
Trinta-réis-boreal (Sterna hirundo) - Common Tern
Trinta-réis-grande (Phaetusa simplex) - Large-billed Tern
Em seguida, voltamos para a pousada. No retorno, uma parada para clicar o Quem-te-vestiu (Poospiza nigrorufa) na entrada da cidade.

Quem-te-vestiu (Poospiza nigrorufa) - Black-and-rufous Warbling-Finch
Almoçamos na churrascaria Flamingo e fomos direto encontrar a minha amiga Graziela. Graziela tem uma bela propriedade rural em Mostardas. É daqueles lugares que quem é de cidade grande sonha em morar.

Graziela e eu
Ela nos levou para ver a jacurutu (Bubo virginianus), que se assustou um pouco com o movimentação de tantas pessoas, mas só fez mudar de galho. A maior diversão da Grazi é observar os ninhos das aves e seu desenvolvimento. Essa jacurutu é um filhotão nascido na propriedade. Nem aí com o play-back. Só sabia piscar e bocejar. Ao admirar esse rapinante noturno (o maior das Américas), meus olhos encheram-se de lágrimas. Lembrei-me do amigo Luciano Monferrari nesse momento.
Jacurutu (Bubo virginianus) - Great Horned Owl
Jacurutu (Bubo virginianus) - Great Horned Owl
Ninho de cochicho, ninho de pica-pau-do-campo, tachã com filhotinhos, e muitos -muitos outros penosinhos que valeria ficar pelo menos dois dias explorando a bela propriedade. Fica para a próxima.

Cochicho (Anumbius annumbi) - Firewood-Gatherer
E assim terminou nossa aventura. Não vejo a hora de voltar...tem muita coisa ainda a explorar. Deixou um gostinho de quero mais. Só posso agradecer a todos que participaram junto comigo. Inesquecível.

Um comentário:

  1. Sensacional, Silvia.
    Estou me programando para ir lá em 2014 e seu relato já me deixou com vontade de adiantar para 2013 mesmo.

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