quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

AM - Expedição Aves Raras do Extremo Oeste Amazônico

Laura, a arara-canindé que vive na Reserva Natural Palmari
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Para começar uma música inspiradora - Almost A Whisper (quase um sussurro), do músico, tecladista e compositor grego Yanni


Bem vindos a mais uma "postagem-livro" (sim, é quase um livro mesmo 😅😅😅😅) de uma das minhas aventuras passarinhísticas. Recomendo ler por um computador ou notebook, pois pelo celular a experiência não será a mesma. 

Falando em experiência, esse post não é sobre uma expedição e sim uma experiência única de vida. Um tipo de experiência que me inspira a me relacionar com pessoas que compartilham interesses, sonhos e visões semelhantes.

Por vezes, durante minha vida, me peguei tentando me libertar das estruturas e moldes que fui criada, explorando valores diferentes e novas formas de me conectar ao mundo e até comigo mesma. Foi por meio da observação de aves que isso começou a tomar forma. Agora não tem mais volta.

Se o seu sentimento é parecido com o meu, prossiga na leitura, se não pare por aqui e feche esta página. 

Se topar o desafio e for corajoso para ir até o final, por favor, deixe o seu comentário láááá embaixo (se estiver logado no Google, melhor ainda. Se for comentar como anônimo - sem login, não esqueça de deixar seu nome no texto.) 

Ficarei muito feliz com esse incentivo.

Orquídea-bambu - Reserva Natural Palmari
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Feita as considerações iniciais, "simbora" começar a contar como foi essa aventura / experiência / expedição.

Em maio de 2022, conversando com o Luiz Fernando Carvalho (@amazonasbirdwatching_ecotour), ele me contou do seu novo roteiro no oeste amazônico. E eu logo disse o meu "tradicional queroooo". 

Ficamos de conversar mais sobre o assunto. Ele me disse que iria lá novamente em outubro e combinamos de ir nos falando. 

Eu fechei o mês de outubro na agenda para poder planejar com ele uma possível ida a esse lugar e a vida seguiu seu rumo, cheia de coisas e acontecimentos nas nossas vidas.

Em setembro perguntei detalhes sobre o desejado roteiro e fui surpreendida com uma notícia nada boa. A agenda do Luiz de 2022 estava lotada, nem foi tão surpreendente assim, pois conheço a competência e a procura pelos trabalhos desse querido casal de guias - Vanilce Carvalho (@vanilce_birding_guide) e Luiz Fernando. 

Ele me avisou que estava começando a organizar a agenda de 2023 e iria ver uma data para mim. Explicou também que tiveram um ano atribulado, pois além da pandemia, mudanças de município, estavam também finalizando um curso de especialização. 

Pensa numa pessoa decepcionada e frustrada. 😢🤕🥴 Foi assim que fiquei por perder o "timer" e não ter "alinhavado" melhor essa ida antes. Falamos em deixar uma data certa para 2023 e foi esclarecido que a melhor época seria entre agosto e novembro. Aí eu pensei, até lá tem tanto chão. Ai minha nossa, fiquei com o coraçãozinho aperreado naquele momento. 🥵🥺💔🤕 

Mesmo uns e outros dizendo que sou "imbirrenta", (intriga da oposição 🤪😂🤣), em nenhum momento eu fiquei "imbirrada", apenas frustrada com minhas próprias expectativas e falhas em correr atrás. Mas...

Mas... quem tem Amigos, tem Amigos. 💝😄🥳 Luiz teve uma ideia genial e a compartilhou comigo. Daria pra fazer um encaixe em dezembro, com uma pequena mudança na agenda dos dois. 

Ele explicou que em dezembro o rio Javari ia estar enchendo, mas não estaria tão cheio e que daria pra caminhar em muitos lugares. Poderíamos ir entre o dia 15 de dezembro e o Natal. Teríamos inclusive chances de ver algumas aves migratórias. 

E se eu topasse, a Vanilce poderia ir junto, aproveitando o embalo para conhecer o lugar também. 

Meu "zoinho" encheu de lágrimas de emoção. Lógico que eu disse sim, sim, sim. 😢🥴👍🙏🖖😋🥰

Eu tinha compromisso no início de dezembro, mas por incrível que pareça nada programado para a data proposta. Meio nervosa, com medo da época chuvosa no fim do ano no Amazonas, dos preços das passagens que sobem até as estrelas por ser época de festas e férias, topei e já comecei a pensar nos detalhes. Quando vi, já tinha as passagens em mãos. 

O Luiz enviou um pré-roteiro e algumas dicas sobre as acomodações. Ele fez uma cotação sobre a melhor cabana, a que tinha energia elétrica e oferecia maior privacidade. 

Esse itinerário e o respectivo orçamento do pacote incluía tudo, até as refeições na Colômbia no dia da nossa chegada. Essa forma de trabalho desagrada alguns, mas é a minha preferida, pois não tenho que me preocupar com nada, apenas com as aves que vou tentar ver.

Acabei fechando tudo no meio de uma correria danada, pois estava me preparando para participar de alguns eventos, dar palestras e tinha programado até o fim do ano algumas passarinhadas. Entre elas Gaúcha do Norte com o querido amigo Vitor Piacentini que você pode ler clicando aqui - MT - Expedição Paçoquinha da Sorte 

O tempo foi passando e depois de assistir a grande e emocionante palestra do amigo Marco Guedes no Festival de Aves de Ilhabela (set/2022) sobre o desejado local, fiquei com um frio na barriga de doer. O lugar não parecia ser amigável como algumas trilhas que já fui no Amazonas. Muitas eram alagadas, onde só se conseguia chegar de barco ou caiaque e/ou quem sabe de escafandro. 😄😄😄😄

Seria minha sexta expedição ao Amazonas desde 2015. Quatro delas se deram em lugares mais tranquilos, uma delas, a quinta em 2019 já foi mais difícil (São Gabriel da Cachoeira), porém, algo me dizia que essa seria bem mais complexa e exigiria resistência, resiliência e persistência extras. 

Vou escrever algumas particularidades sobre a expedição a seguir, pois isso ajudará você a ficar situado quando eu começar a descrever minhas aventuras por lá.

O município de Tabatinga 


Nosso ponto de partida seria a cidade de Tabatinga. O município está localizado no extremo oeste do Estado do Amazonas, na tríplice fronteira entre o Brasil, Colômbia e Peru, no meio da maior floresta tropical do planeta, a selva amazônica, à margem esquerda do Rio Solimões. 

Apresenta uma conurbação, com a cidade colombiana de Letícia. As cidades de Tabatinga e Letícia (Colômbia) são interdependentes, no tocante ao abastecimento das populações. Todavia, o único marco limítrofe é um poste com as duas bandeiras, o que faz com que a população local transite livremente entre os dois países como se as duas cidades fossem uma só.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

O acesso à cidade se dá por barco ou por avião, inexistindo estradas que unam Tabatinga a Manaus. O Aeroporto Internacional de Tabatinga (TBT) é o segundo aeroporto mais movimentado do estado do Amazonas, superado apenas pelo de Manaus.

A população do município de Tabatinga é altamente miscigenada. É composta por brasileiros, peruanos, colombianos e dentre estes todos, indígenas de diversas etnias. Possui mais de 70 mil habitantes de acordo com o IBGE.

Em 2015, o município de Tabatinga contava com uma frota de 7.332 veículos, sendo 815 automóveis, 3.655 motocicletas, 2.474 motonetas, 177 caminhonetes, entre outros. Acho que em 2022 esse número triplicou. Com toda certeza, viu! 😅😅😅😅

É notável o grande número de motocicletas circulando pela cidade. Não só notável, mas assustador. As pessoas não usam capacete e, muitas vezes, sobre a motocicleta vão de 3 a 4 pessoas, sendo uma delas, uma criança, sem qualquer segurança, a não ser a invisível mão protetora do anjo-da-guarda. 🤲😇

Sem falar nos tuk-tuk, coisa que eu só tinha visto no México. Tuk-tuk é um triciclo que comporta o motorista mais 2 a 3 passageiros. Diferente dos já assim fabricados, em Tabatinga são adaptações caseiras feitas em motos comuns, tornando o trânsito mais turbulento ainda. 

Detalhe, acho que ninguém por lá sabe o significado de faixa de segurança. É muito difícil atravessar as ruas a pé por lá - ninguém para, nem no lado de Tabatinga nem de Letícia. E pobre da minoria dos motoristas de automóveis. É um sofrimento sem fim. Mas acho que já estão tão acostumados que nem ligam. E há quem diga que o trânsito em São Paulo é caótico. "Sabe nada", coitadinho. 😂😂😂😂

(Fonte de consulta: Wikipedia/IBGE)

O município de Letícia / CO


Letícia é uma cidade da Colômbia, capital do departamento de Amazonas (equivalente a Estado do Brasil). É a cidade mais austral da Colômbia bem como o seu único grande porto fluvial. Tem uma altitude de 96 metros acima do nível do mar e uma temperatura média de 27 °C. A cidade possuía, em 2018, aproximadamente 48 mil habitantes. Localiza-se no trapézio amazônico. Fica na margem esquerda do rio Amazonas, e no ponto em que a fronteira entre Colômbia, Brasil e Peru se reúnem.

Ainda que fique longe, quase isolada das principais cidades colombianas, constitui importante porto fluvial e comercial com o Brasil e o Peru. Nela, moram mais de 60% da população do departamento de Amazonas.

(Fonte de consulta: Wikipedia/IBGE)

O município de Benjamin Constant

 
Nosso segundo destino seria uma localidade pertencente ao Município de Benjamin Constant. De acordo com dados do IBGE, Benjamin Constant tem população que chega a quase 45 mil pessoas. Limita-se com os municípios de Tabatinga, São Paulo de Olivença, Ipixuna, Eirunepé, Jutaí, Atalaia do Norte e com o Peru.

Segundo o Plano de Integração Nacional, a cidade seria o ponto final da Transamazônica, porém o trecho que ligaria Lábrea até Benjamin Constant sequer foi desmatado. 

Devido a barreiras ambientais e transposição por territórios indígenas ainda não contatados pela FUNAI, provavelmente este trecho da rodovia jamais será concluído, restando aos habitantes apenas o transporte aéreo e fluvial como conexão com o restante do estado.

(Fonte de consulta: Wikipedia/IBGE)

O município de Atalaia do Norte


Nosso terceiro destino era a cidade de Atalaia do Norte. Pertencente à Região Geográfica Intermediária de Tefé e Região Geográfica Imediata de Tabatinga, localiza-se a sudoeste de Manaus, capital do estado, distando desta cerca de 1.136 km. 

O município de Atalaia do Norte é mundialmente conhecido por abranger grande parte da Terra Indígena Vale do Javari, a qual é a maior reserva de índios isolados do mundo, além de ter sido o local de uma das maiores quedas cósmicas da história moderna, que ficou conhecida como Evento do Rio Curuçá.

Um acontecimento ocorrido em junho de 2022, bastante triste, tornou o município de Atalaia do Norte mundialmente famoso: o assassinato dos ambientalistas e indigenistas Bruno Pereira e Dom Phillips. 😭

(Fonte de consulta: Wikipedia/IBGE)

Fusos horários 


No Brasil temos quatro fusos horários a saber. Parece simples, mas não é.

Fuso 1 - Hora de Fernando de Noronha UTC−2 (BRT+1)
O primeiro fuso horário brasileiro tem duas horas de atraso em comparação ao Meridiano de Greenwich, considerado como ponto inicial para medição dos fusos horários mundial. Esse fuso compreende as ilhas de Fernando de Noronha, Trindade, Martim Vaz e Penedos de São Pedro e São Paulo.

Fuso 2 - Hora de Brasília UTC−3 (BRT)

O segundo fuso horário brasileiro possui três horas de atraso em comparação ao horário oficial de Greenwich. Esse fuso é o mais importante do país, pois compreende a maior parte do território brasileiro incluindo a Capital Federal, Brasília. Fazem parte desse fuso a região Nordeste, Sudeste, Sul e partes das regiões Norte e Centro-Oeste.

Fuso 3 - Hora do Amazonas UTC−4 (BRT−1)
O terceiro fuso horário brasileiro possui quatro horas de atraso em relação ao horário de Greenwich. Esse fuso tem uma hora a menos em comparação com a Capital Federal. Ele compreende os Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Roraima, Rondônia e grande parte do Amazonas.

Fuso 4 - Hora do Acre UTC−5 (BRT–2)
O quarto fuso brasileiro possui cinco horas de atraso em comparação com a hora oficial de Greenwich. É duas horas atrasado em relação à Capital Federal. Esse fuso compreende o estado do Acre e o sudoeste do Amazonas.

(Fonte Wikipedia)

Até aí tranquilo, né? Só ferra tudo quando temos horário de verão em alguns lugares e outros não. 

Mas vamos lá, como vimos parte do Estado do Amazonas observa o Horário do Amazonas, exceto em alguns municípios ao sudoeste do estado – fronteiriços ao Acre – que observam o Horário do Acre. Aí é que está o problema.

O Google e grande parte dos sites que pesquisei informam que Atalaia do Norte e Benjamin Constant estão duas horas a menos que Brasília e Tabatinga apenas uma hora a menos, tal qual Manaus. Só que Letícia, cidade ao lado de Tabatinga, segue o Fuso da Colômbia, igual ao Estado do Acre, ou seja, duas horas a menos que Brasília. 

Mas na prática, de acordo com o pessoal que mora lá, o horário de Tabatinga é o mesmo de Letícia, ou seja, o do Acre, fuso 4. Lógico que isso garante maior praticidade. Imagina você morar do lado de cá da rua e marcar um compromisso do outro lado às 14 horas e todo mundo chegar às 13 horas, ou seria ao contrário? Confuso né?

Mas como bem o Luiz Fernando me salientou, até a Cia aérea que faz a rota, considera Tabatinga como fuso do Acre. Se fizer as contas abaixo sem considerar o fuso, vai ver que a ida de Manaus dá 00:50 e a volta 02:45. Mas a Cia já informa que o horário é o do local do aeroporto e cada voo dura 01:50h e 01:45h. Mas fala isso pro meu celular, ele ficou endoidecido com os fusos. 

Print do site Skyscanner

E eu quase enlouqueci junto com meu celular, e como advogada que sou, fui ver o que diz a legislação. Uma lei em 30/10/2013 revogou outra de 2008, retornando o quarto fuso, o do Acre, e colocou Tabatinga diferente do resto do extremo oeste amazônico. A lei é essa (pode clicar nela se quiser lê-la) -> LEI Nº 12.876, DE 30 DE OUTUBRO DE 2013. Agora é que ficou confuso mesmo. É uma disposição legal e deveria ser seguida. Só que não.

Imagina como meu celular ficou ao tentar estabelecer horário automático. Logo no primeiro dia pra sair ver passarinho, acertei o fuso e coloquei pra despertar 4:15h e o danado sei lá porque tocou 3:15h. 

Quando a gente marcava um horário, tipo pra sair do hotel, eu tinha que confirmar  pelo Whatsapp com o Luiz Fernando se o horário do celular dele estava igual ao meu para não me atrapalhar. 🙏🤮🤣🕐🕑🕒 

Na próxima vou levar um relógio de pulso, daqueles antigos, de dar corda. 🤣🤣🤣 

Resumindo, desconsidere tudo, tire o fuso do automático e coloque menos duas horas de Brasília, ou menos uma de Manaus e pronto, assunto encerrado. Mas se você mora no Acre deixe tudo do jeito que está.

Como a maior parte dos nossos dias foram passados em Atalaia do Norte na Reserva Natural Palmari, não tive maiores problemas com o relógio.  

Reserva o quê? Pera, vou falar um pouco dela antes de começar a contar como foi a expedição dia a dia.

Reserva Natural Palmari

Palmari é uma reserva natural privada localizada em solo brasileiro às margens do rio Javari *, que constitui a fronteira entre o Brasil e o Peru e é um dos maiores afluentes do rio Amazonas/Solimões **. 

*O rio Javari (em castelhano, río Yavarí) é um afluente do Rio Solimões, nasce no Peru, na serra da Contamana. Toda a sua extensão, cerca de 1.180 km, serve de divisa entre Brasil e Peru, sendo a margem direita brasileira e a esquerda peruana. Desagua no rio Solimões, junto à cidade brasileira de Benjamin Constant.

**Rio Solimões é um nome dado ao trecho superior do rio Amazonas no Brasil, desde sua confluência com o rio Negro até a tríplice fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia. O rio Amazonas recebe vários nomes e diversos afluentes em seu curso no Peru, até receber o nome de Solimões, na fronteira do Brasil, no município de Tabatinga, no estado do Amazonas, onde segue seu curso até encontrar o rio Negro, próximo à cidade de Manaus, onde recebe o novamente o nome de Rio Amazonas. ET: No Google Maps você encontra apenas o nome Rio Amazonas.

Print Google

A Reserva destina-se à preservação e ao ecoturismo. É administrada direto de Bogotá/CO pelo seu proprietário Axel Antoine-Feill, um biólogo alemão conservacionista. Para saber mais acesse o site aqui.

Palmari é a única Reserva com acesso aos três ecossistemas amazônicos: terra firme (seca), várzea (semifundada) e igapó (inundada). 

Possui um centro de visitantes que, apesar de rústico, é bastante confortável. Tem diversos tipos de acomodações, atendendo às preferências de cada tipo de visitante, inclusive que no que diz respeito aos preços. 

Fonte: site da Reserva

Atualmente é gerenciada por Elias Nascimento e uma equipe de empregados e voluntários super simpáticos. Possui um corpo de guias especializados e experientes em diversos nichos (e bichos 😉😁). E uma torre com conforto para apreciar os passarinhos do alto. 

Fonte: site da Reserva

Fonte: site da Reserva

Fonte: site da Reserva

Há uma grande diversidade de espécies tanto no que diz respeito à fauna terrestre quanto aquática. A flora é muito rica, atraindo diversos tipos de cientistas e visitantes.

Mas vamos lá contar como foram esses dias.

Dia 13/12/2022 - terça-feira 


Eis que o dia de partida para Manaus chegou. A ansiedade era tanta que fui super cedo para o aeroporto de Guarulhos e fiquei enrolando a tarde toda na sala VIP da Gol aguardando chegar a hora de embarcar. Meu voo sairia de São Paulo às 18:10h, com conexão em Brasília e chegaria em Manaus 23:10h (do fuso de lá 😂😂😂).  

Haja café, guloseimas e coisas pra distrair, fiz até listas com pombo e urubus que registrei no aeroporto. Um pombo estava andando dentro da minha provável sala de embarque, que mudou três vezes de portão. No aeroporto de Guarulhos chovia muito e teve muito troca-troca. Mas meu voo foi tranquilo.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

A Van e o Luiz foram me buscar no aeroporto e após dormir em Manaus, no dia seguinte partimos para Tabatinga. 

Dia 14/12/2022 – quarta-feira  


Nós três saímos às 15:25h de Manaus. Chegamos em Tabatinga e fomos direto para o Hotel. Eu já fui usando meu presente dado pela Vanilce, um lindo beija flor de missangas. Um dos outros presentes é um galo-da-serra pra enfeitar aqui em casa. O terceiro presente, eu não fotografei e nem tem mais "como". Isso porque eu o "comi" tão rapidamente que não sobrou nada para a foto. 😂😂😂😂 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Após o check-in no hotel, fomos até uma loja na mesma rua e compramos um chinelinho, aliás que em alguns momentos, foi minha salvação, pois só levei galocha e sapatilha.

Após essas compras fomos pra Letícia, andamos um pouco e depois fomos até uma pracinha onde filmamos e fotografamos milhares de periquitos-da-campina (Brotogeris versicolurus). 

Algo fenomenal, incrível mesmo. Um delírio para meus olhos e lentes. Veja no vídeo abaixo um pouco de como foi uma das revoadas dos periquitinhos. Hipnotizante!

             
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Durante esse nosso passeio, fizemos algumas fotos bem legais e muitas selfies nas redondezas, embora houvesse pouca luz. 

periquito-da-campina (Brotogeris versicolurus)
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Compramos coisas num supermercado local para nosso café da manhã, porque íamos sair bem cedinho no dia seguinte. Depois fomos nos encontrar com o Francisco Hipólito "POLO" Ávila. Polo foi o organizador da nossa estadia em Tabatinga e nossa ida e volta da Reserva Palmari. 

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Jantamos no Bar Restaurante Tierras Amazónicas em Letícia/CO. Pedi um "ceviche", prato preparado com peixe cru e/ou camarão, marinado em suco de limão ou lima ou outro cítrico, que adoro. 

Foi quando eu conheci o "patacon" colombiano, iguaria preparada com banana verde frita, depois esmagada e frita novamente até ficar semelhante a uma panqueca. O resultado é um disco de banana crocante e delicioso. Muito bom, principalmente com uma cervejinha gelada, ao lado de amigos queridos.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

Tim-tim!!! E que comecem os "trabalhos"...🍻🍺🍻🍺

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Voltamos para o Hotel assim que terminamos o jantar, pois no dia seguinte teríamos que madrugar para sair em busca de "penosinhos" raros.  

Dia 15/12/2022 – quinta-feira 


Acordamos bem cedinho. Ao amanhecer já estávamos navegando numa lancha em direção a uma ilha do Rio Solimões, que fica no município de Benjamin Constant. Quarenta minutos depois chegamos ao local onde íamos começar nossas buscas. 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

O amanhecer nos brindou com seu "ouro", anunciando o que vinha a seguir. O dia estava lindo. Era um suspiro atrás do outro. 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

A gente não via a hora de começar a encontrar as aves listadas como prioridades. E, assim que desembarcamos, foi dada a largada oficial. Fomos caminhando pela trilha, super antenados. A Ansiedade resolveu ir ao meu lado e não me deixava um minuto sequer. 😂😂😂

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Não comecei clicando aves, mas sim uma borboletinha identificada como Yphthimoides maepius por especialistas e um primata, ou melhor, um gracioso mico-de-cheiro, identificado como Saimiri cassiquiarensis ssp. macrodon.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Depois fiquei atenta aos future-lifers e city-lifers (subespécies e primeiros registros para um munícipio no Wikiaves, respectivamente). E lógico, com o coração na mão, fiquei aguardando os lifers (primeiros registros para minha lista pessoal). O Luiz Fernando não poupou esforços para a gente registrá-los.

Foram sete novos primeiros registros para o município. Como eu já disse, nem sempre consigo fazer um fotão, mas o que importa é atuar como cientista-cidadã e contribuir com dados para a conservação do meio ambiente de um determinado local.

Deixo aqui um quadro com o resultado dos city-lifers que fiz em Benjamin Constant na nossa primeira manhã de passarinhada: urubu-de-cabeça-amarela, periquito-testinha, beija-flor-de-veste-preta, acauã, trinta-réis-grande, periquito-de-cabeça-suja e japu-pardo.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

A manhã nem tinha começado direito, mas a festa sim. Esta já tinha começado pra valer. Um dos nossos primeiros "target" (objetivo/alvo) resolveu dar sinal de vida e o Luiz Fernando com muito jeito e competência nos mostrou um belíssimo casal de capitão-de-coroa (Capito aurovirens). 🤜🤛

É uma das famílias de aves mais lindas das nossas florestas. Esbanja charme com suas cores vibrantes e deixa nossos dedinhos que já são nervosos mais frenéticos ainda. 😅😅😅

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Uma meia hora depois veio a segunda espécie nova, uma raridade maravilhosa, de encher o "zóio" e os cartões. É um dos mais belos da família Thamnophilidae, que eu adoro. Mas nem sempre dão moleza pra gente. Falo do elegante formigueiro-liso-do-solimões (Myrmoborus berlepschi). 🐜👀📸💾

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mais um tempinho e outro dos nossos bichinhos dos desejos compareceu. Era o picapauzinho-creme (Picumnus castelnau), uma minúsculo e encantador serzinho, que nem se importou com nossa presença, pois estava mais preocupado com o seu café da manhã.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Em menos de duas horas de caminhada e buscas eu já tinha listado três espécies novas e muito desejadas. 

No caminho cruzamos com dois estudantes de biologia coletando plantas para estudos. Vanilce logo os reconheceu por conta do material que carregavam. 

Eles ficaram encantados com o nosso hobby e pediram pra tirar uma foto com a gente. Taí Joabson (@joabdeveza99) e Iran Maciel Borges (@maciel_borges), os registros feitos pelo Luiz Fernando do nosso encontro.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Bom, da lista de novas espécies de Benjamin Constant, extraída do site Wikiaves, faltavam três apenas. Estava achando tudo muito fácil. Mas a saga estava só começando. Enquanto a gente "varria" a área fui clicando de tudo, passarinho, florzinha, mariposa, borboleta, fungos...

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mas o destaque ficou mesmo para uma charmosa criatura, que se mexe de forma muito graciosa: uma Preguiça-Comum (Bradypus variegatus). Ela deu um show pra gente. 

Antes todo passarinho fosse colaborativo para as fotos como ela e possibilitasse registros em tudo quanto é pose. Mas sabemos que não é bem assim, né? 😂😂😂😂

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Enquanto eu ia me distraindo, o Luiz estava concentrado tentando achar um desses três bichinhos: ariramba-vermelha (Galbalcyrhynchus leucotis), joão-de-bico-pálido (Furnarius torridus) e sabiá-da-várzea (Turdus sanchezorum).

A ariramba a gente ouviu algumas vezes vocalizar bem longe, o último nem sombra, mas o do meio, ah! o do meio ... 😂😂😂😂

Quando o Luiz Fernando disse que tinha ouvido ele vocalizar, eu logo pensei:  "esses 'joãos' nunca dão mole nem facilitam a nossa vida de fotógrafo, se eu fizer um biquinho dele já vai estar valendo."

Pera! Mas esse joão não é um synallaxis (que parece ter pacto com o demo), é só um primo do joão-de-barro, vai ser tranquilo. 

Tolinha eu! Mal sabia que um casal de capiroto tinha incorporado nesses dois joão-de-bico-pálido, que apareceram no nosso caminho. 

Não sei porque "cargas d'água" ambos resolveram nos "trolar". Eles atravessavam de um lado pro outro que nem foguetes, e só paravam no escuro, cheio de galhos, e por um Zeptosegundo apenas, ou seja por 0,000 000 000 000 000 000 001 segundos. 

Nós tentamos de tudo, tudo mesmo, para conseguir uma foto razoável, mas não deu. Fiz uma única foto bastante sofrível. Das cinco fotos da espécie que tem no Wikiaves, fora a minha, uma foi feita no Peru e as outras quatro se referem a dois únicos avistamentos, um em setembro de 2020 e outro em maio de 2022. 

Eu queria ter tentado mais vezes e feito uma boa foto, mas a chuva forte inviabilizou outras tentativas.

Bom, pelo menos consegui fazer duas coisas: registrar o bicho num borro-lifer e gravar seu som com o gravador que ganhei do amigo Raimundo Carvalho e que substituiu o que eu doei pro rapaz que me guiou na África. O som você pode acessar no Wikiaves clicando aqui.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

O céu estava pretejando cada vez mais, anunciando que vinha temporal forte e eu com minha experiência com chuva dentro de um barquinho no rio Solimões estava me pelando de medo só de imaginar a volta até Tabatinga.  

Ainda assim, o Luiz Fernando tentou trazer uma ariramba-vermelha (Galbalcyrhynchus leucotis) que vocalizara longe, mas a chuva veio com tudo e não deu trégua, impactando nossa passarinhada.

Nós nos abrigamos na varanda de uma casa vazia. Minha capa de chuva tinha ficado no barco e o Luiz Fernando me arrumou um saco preto de lixo para me proteger. 

Então a Vanilce me "ensacou" e quase passou fita adesiva no buraco pra eu parar de falar bobagem, só porque eu disse entre outras bobagens que;

"Passarinhar é igual fazer sexo, o orgasmo é o lifer, mas todas as preliminares contam e muitas vezes são mais gostosas que o o próprio orgasmo, que dura segundos ou centésimos de segundos." 🙃🤪😂😋

Rimos muito e dessa forma deu para espairecer um pouco a frustração por não ter feito um registro apresentável do tal joão e nem ter visto a desejada ariramba. 

Mas a Vanilce registrou cada segundo. Olhe abaixo "euzinha" ensacada e molhada. Parte do vídeo que ela fez do momento (veja abaixo) foi absolutamente censurado. 😂😂😂😂

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares



Depois de um tempo, a chuva deu uma trégua, mas já era quase hora do almoço e a gente precisava retornar e se preparar para ir para Atalaia do Norte. 

Voltando para Tabatinga, o céu voltou a abrir (bem vindo à Amazônia - essas mudanças radicais nem são tão diferentes de São Paulo). 😂😂😂😂

Fizemos check-out no hotel e após um banho e troca das roupas molhadas, nos preparamos para ir para o nosso próximo destino: a Reserva Natural Palmari.

Um pequeno e rápido almoço para compensar os perrengues que tinham só começado. E não faltou patacon!! 🍌🍌🍌

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E lá fomos nós embarcar na canoa que estava cheia com mantimentos para a Reserva e com nossas bagagens. Fomos bem devagar por conta de estarmos bem cheios e pesados. Mas a gente foi rindo e contando histórias nas mais de 4 horas que o barco demorou pra chegar. Mas ...

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Mas bem no meio do trajeto a chuva revolveu despencar novamente. Muita chuva mesmo e pior, nem tinha muito como se proteger. Eu e Vanilce estávamos no banco da frente e não tinha espaço para pular para trás. Ficamos encolhidinhas, sob nossas capas. 

Peguei meu case com o equipamento e segurei no meu colo como um bebê, sob o meu poncho de chuva. Abaixo foto sem chuva e depois com chuva.

Sem chuva
Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

Com chuva
Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

Depois a chuva foi embora e nos deixou um por do sol deslumbrante. A gente até aproveitou pra "modelar" um pouco e se secar. 🤣🤣🤣🤣

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Teve até arco-íris no céu pra colorir o final do nosso dia.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Chegamos já no escuro na Reserva, lá também havia chovido muito e havia muita lama. A descida foi precária. O duro mesmo foi caminhar no escuro, sobre tábuas estreitas, meia soltas e muito barro "colento e escorreguento" , daqueles que te engolem até a alma, se você bobear. 

O apoio, inclusive físico, do pessoal da pousada foi primordial. Conseguimos chegar na sede com segurança e sem maiores problemas além do cansaço físico e emocional. Tudo o que eu queria era um quarto e uma cama para me esticar. 

Dia 16/12/2022 – sexta-feira

  
Cada quarto tinha uma ave na porta telada, o meu era uma arara-canindé. Acho que essa porta representava a Laurinha, arara resgatada e que vive livre na pousada e adora interagir com os hóspedes. Ela é a mascote da pousada. Foi com foto dela que abri essa postagem.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Laura - a arara-canindé mais famosa do mundo
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Meu quarto era amplo e funcional. A cama telada me livrava um pouco dos incômodos pernilongos que ficavam passeando pelo quarto, tentando falar "pernilonguês" aos meus ouvidos. 🦟👂😄

Era vizinho ao quarto da Vanilce e do Luiz Fernando. Podíamos nos comunicar pela varanda, onde somente uma densa vegetação nos separava. 

Da minha varanda, por sobre a mata verde, eu conseguia ver o rio Javari, além de um ninhal de japus-pardo e xexéus, que me despertavam todos os dias assim que o dia começava a clarear.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares
 
ninhal de japus-pardo e xexéus
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Um quase 360º da varanda do meu quarto para se ter uma ideia.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Nesse dia acordamos cedo e subimos até o topo da torre para observar aves. Estávamos acompanhados pelo Felipe (ornitólogo colombiano voluntário) e pelo guia local Edson, doravante chamado de Ka, seu apelido.

Só por curiosidade, entre os antigos egípcios, Ka designava uma espécie de alma que acreditavam que existia, tanto nos homens, como nos deuses. O conceito em si é difícil de trasladar hoje para qualquer outra língua viva através de uma só palavra. Em português, o termo que melhor poderá traduzir será talvez o de alma, ressalvando no entanto as devidas distâncias entre a concepção cristã da alma e a concepção egípcia do Ka. (fonte: Wikipedia). 

Ao longo de toda nossa estadia, o "nosso" Ka, podemos assim dizer, foi a alma do nosso grupo. Ele era o "Ka-ra", o cara que conhecia todas as trilhas, cada cantinho da Reserva, sabia se ia ou não chover, via e ouvia longe. Eu diria que ele e o Luiz Fernando formam uma dupla perfeita. Lui e Ka já podem fundar uma dupla sertaneja (especializada em canto avifaunístico), dará muito ibope com certeza. 🤣🤣🤣

Logo que chegamos ao topo da torre, não demorou muito, ouvimos um bater de asas e recebemos a visita da arara Laurinha, que veio se aconchegar e pedir cafuné. 

1ª foto Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares
2ª foto Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Fiz muitas fotos nessa manhã, mas o destaque ficou mesmo para o capitão-de-bigode-limão (Eubucco richardsoni), tivemos que nos deitar no chão para conseguir fazer a foto no limpo. Mas graças ao Luiz Fernando que descobriu o buraquinho perfeito - a maioria dos lugares tinha galhinhos ou folhas na frente, deu fotão de quadro. 

O Ka também encontrou outro buraquinho de onde a Van fez foto, mas não vi a foto dela ainda. Pena que não registramos o making-of da gente deitado no chão da torre, de tão concentrados que estávamos. 🤣🤣🤣

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Fizemos muitas aves bonitas e interessantes por ali tais como: gralha-violácea (Cyanocorax violaceus), pipira-de-máscara (Ramphocelus nigrogularis), japu-pardo (Psarocolius angustifrons), saí-amarela (Dacnis flaviventer), chora-chuva-preto (Monasa nigrifrons), bem-te-vi-de-cabeça-cinza (Myiozetetes granadensis), urubu-preto (Coragyps atratus), xexéu (Cacicus cela) e anu-preto (Crotophaga ani). Veja a sequência no quadro abaixo.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Uma coisa que não esqueço, logo ao chegar no alto da torre, ainda com um pouco de neblina, a primeira coisa que eu disse para o grupo foi: "tem um socó-boi pousado no alto daquela árvore ali". E disse isso apontando com convicção, sério. Óbvio que o café não tinha feito efeito ainda (nem lembro se já tinha tomado ou não).

Os meus parceiros olharam de binóculo (só eu não levei o meu) e pasmem, era apenas um japu-pardo. 😁😁😁😁 Riram de mim até dizer chega. Que vergonha! 😂😂😂😂

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Lá pelo meio da manhã resolvemos sair de barco em busca dos primeiros lifers. Foi um dia glorioso, onde tudo saiu nos conformes, ou quase, né Luiz Fernando? 😁😁😁😁

Um pouco antes de subirmos no barco, fiz meu primeiro lifer, um casal de papa-capim-de-caquetá (Sporophila murallae) bem no capinzinho na beira do rio. Eu desejava muito vê-lo, haja vista que irá compor a segunda edição do meu fotolivro "Papa-capins do Brasil - Diga não às gaiolas". 

Da subfamília Sporophilinae com seus trinta e três papa-capins (Lista CBRO 2021), agora só me faltam quatro: papa-capim-de-coleira, estrela-do-norte, caboclinho-do-pantanal e cigarrinha-do-norte.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Navegamos por um tempo até chegar ao local da nossa passarinhada. Para chegar das margens até a trilha dentro da floresta tínhamos uma subidinha enlameada e escorregadia, só de olhar dava uma agonia danada. Dava vontade de ser teletransportada ou carregada no colo. 

Então o grande Ka desceu, colocou alguns galhos para serem pisados e foi nos orientando por onde pisar, depois de me encorajar, segurou minha mão e foi me içando até eu me sentir em segurança. 

Em alguns momentos ele dizia: "apoia o seu pé no meu". Isso fazia com que meu pé travasse no dele e não escorregasse. Ou então ele dava pisadas fortes no barro e pedia que eu pisasse onde ele tinha preparado um degrauzinho com sua pisada forte. 

Ele fez isso até o último dia. Tanto ele quanto Vanilce e Luiz Fernando, nunca me deixaram sem apoio. 

Além do Ka para me apoiar, eu tinha um "Ka-jado" 😅😅😅😅. O cajado da foto abaixo foi preparado pelo Ka especialmente para mim e se tornou quase parte do meu corpo durante as caminhadas, subidas e descidas, ou saídas e entradas no barco. Ficamos tão íntimos que deu até vontade de trazer ele para casa comigo. 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mas... sempre tem um mas ... 😆😆😆😆😇 desculpe-me rir quando eu me lembro da cena. Ainda dentro do barco, enquanto Vanilce nos alertava sobre a instabilidade da lama e para tomarmos muito cuidado, Luiz Fernando foi logo pulando para fora e assim que pulou e deu um passo, escorregou e afundou na lama com equipamento fotográfico, binóculo e tudo mais. 

E aí eu fiquei apavorada só de pensar em como eu ia fazer para subir ali e chegar até o começo da trilha incólume. E pior, pensava na volta, quando estaria cansada e teria que descer por esse sabão até o barco.

Nessa hora eu não sabia se ria ou se chorava. Então depois que estávamos todos a salvo no começo da trilha, paramos para descansar um pouco. Aí eu só ria, isso porque não tinha sido comigo. 😅😅😅😅

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E lá fomos nós caminhando por terrenos  quase "incaminháveis". Íamos bem devagar e com cuidando, ouvindo a floresta e prestando atenção no chão e na trilha que ora fazia com que nossos pés sumissem dentro do mar de folhas que já foram secas um dia ou então dentro da água, nas partes alagadas. Só ouvia o Ka dizer: vem por aqui, vai por ali. Afffff!

Fui clicando uma coisinha aqui, outra ali. E logo após eu encontrar um lindo coração verde recebi uma notícia maravilhosa do Luiz Fernando: meu segundo lifer do dia tinha vocalizado. 

Plagiando a grande Elba Ramalho: "Oi, tum, tum, bate coração / Oi, tum, coração pode bater /Oi, tum, tum, tum, bate coração /Que eu morro de amor com muito prazer." 🎵🎵💓💗

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Sim, eis que chega no escuro, numa brenha danada, o formigueiro-de-cauda-preta (Myrmoborus melanurus). Apesar de não ser colorídio como os "capitães", até que deu foto legal. 

Só lembrando que "fotometrar" ave escura no escuro é um "parto". E ainda mais quando você tem menos que milésimos de segundo para isso, em um terreno instável que torna cada passo uma provação. 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

O mais engraçado foi quando estávamos num local que tinha um bando misto e minha lente deu de cara com algo alaranjado, num "lampejo de conhecimento combinado com desconhecimento", gritei: piranga, piranga, me referindo aos bichinhos migratórios como sanhaço-de-fogo, sanhaço-escarlate, sanhaço-vermelho, que tem essa palavra no nome científico. 🙃🙃🙃🙃

Aí com a ajuda dos especialistas presentes, refiro-me ao Luiz e Vanilce, foi me informado que "era só um flautim-ruivo (Schiffornis major)", e que eu já tinha ele de Novo Airão/AM. Pensa na minha cara naquela hora. Até o bichinho olhou pra mim com aquela carinha de "como assim, eu, um sanhaço?" 😅😅😅😅

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Pouco tempo depois veio o terceiro lifer do dia, uma garrincha-cinza (Cantorchilus griseus). Pensa que deu mole? Já viu alguma garrincha dar mole? Que nada, o local era pouco amigável, cheio de galhos, inclusive muitos caídos no chão. 

E como se não bastasse ela ficar longe e atrás dos galhos, quando se aproximava era sempre de costas e de forma mal-educada. 😆😆😆😆

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mas com um pouquinho de paciência, vai dali, vai daqui, pula pra li, pula praqui, eu consegui a primeira foto no limpo, embora de longe. Nada que um "crop" razoável não resolva.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Aí veio o quarto lifer do dia. Daqueles que eu chamo de marronzídios e digo que são todos quase iguais e impossível de fazer uma foto razoável: os arapaçus

Ah! os arapaçus! São sempre muito rápidos, da cor dos troncos, se escondem nos últimos andares da floresta, quase sempre no escuro, o que nos obriga a usar ISO super alto, gerando uma quantidade absurda de ruídos.*

*Na ausência de luz suficiente, tendemos a abusar do ISO pra conseguir fazer pelo menos um registro. Esse aumento na sensibilidade do sensor (ISO alto) ocasiona bastante ruído, que culmina por granular a imagem e comprometer sua qualidade.

Meu lifer era o arapaçu-ocelado (Xiphorhynchus ocellatus). O Luiz é especialista nessa família e conhece cada detalhe, cada pintinha da maioria deles. Conseguiu me mostrar, com sua calma peculiar, onde o bicho estava ou para onde ele provavelmente iria, até que eu conseguisse fazer um registro apresentável.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Deve estar se perguntando, só viram isso? Nãooooooooooo. Teve mais alguns bichinhos dignos de nota, com destaque para o picapauzinho-dourado (Picumnus aurifrons), o arapaçu-riscado (Xiphorhynchus obsoletus), guarda-várzea (Hylophylax punctulatus) e o solta-asa (Hypocnemoides maculicauda). 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E cheios de alegria, nós voltamos com sorrisos de orelha a orelha, felizes como crianças em véspera de Natal. Eu com quatro espécies novas no meu cartão e Vanilce com nove no dela. 

Hoje em dia, com 85% da Lista CBRO 2021 já registrada, eu considero que cada "lifer" meu vale por cem.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Ao chegarmos, fomos direto para o refeitório, onde um grande "bafafá" nos aguardava. Havia uma cobra verde nos caibros da área de serviço, bem no alto. Era grande, porém inofensiva. Eu estava sem a câmera e aí só deu foto de celular. Ela foi identificada no iNaturalist como Chironius exoletus ou cobra-cipó.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Já era meio da tarde e o Luiz Fernando sugeriu a gente descansar ou ficar na torre até escurecer para tentarmos o meu quinto lifer do dia. Fui para a torre na esperança de surgir alguma novidade. 

Por lá vimos o pequeno Tuque, um filhote de tucano-de-papo-branco (Ramphastos tucanus), também resgatado, que vive tal qual a Laura, a arara-canindé, livre, mas ao redor da sede e não se afasta muito do local. Detalhe, ainda está aprendendo a voar.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Também vimos xexéu (Cacicus cela), caraxué-da-várzea (Turdus debilis) que torci muito para ser um sabiá-da-várzea (Turdus sanchezorum), mas, infelizmente não era. E ainda tinha muitos japus-pardo (Psarocolius angustifrons) e urubus-preto (Coragyps atratus) tentando se secar.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Aproveitamos e fizemos uma selfie da nossa turminha. Na foto Ka, Van, Luiz e eu.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

A noite enfim chegou e lá fomos nós caminhando pelo escuro, com lanternas e muitas expectativas. A minha quinta nova espécie do dia era uma há muito desejada. 

Lembro dessa ave ter "dado mole" em Manaus em 2015, em um ninho que foi monitorado pelo amigo Marcelo Barreiros e muita gente foi lá para registrá-la. Não tive condições financeiras de ir na época e fiquei sem vê-la até essa oportunidade. 

Porém o dia tinha chegado. Nessa noite a emoção foi de amolecer as pernas. Nunca esperei que o urutau-ferrugem (Phyllaemulor bracteatus) fosse estar pousado no limpo, na altura dos olhos e sem galhinhos na frente, lógico que na hora só lembrei da querida amiga Daniela Maia, quando ela um dia descreveu o cenário ideal para um fotógrafo clicar uma ave. 😅😅😅😅

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E embora tentássemos ver e registrar inhambus, nenhum se dignou a dar as caras para a gente. Muito cansados, retornamos e só paramos para clicar um sapinho-ponta-de-flecha: pequenino no tamanho, porém gigante em beleza e veneno. 

Como li em um site: "Com sua deslumbrante coloração, o sapinho venenoso Ameerega trivittata avisa seus predadores que, talvez, tê-lo como uma refeição pode ser uma péssima ideia." (Fonte: Wikiparques) 😄🐸😄🐸😄

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E assim fomos dormir, depois dessa comprida jornada, que estava só começando.

Dia 17/12/2022 – sábado


Acordamos cedo e partimos para a nossa próxima trilha. Fomos de barco, levando o café, preparado pelo Ka. Navegamos tranquilamente, sem pressa, fazendo algumas fotos pelo caminho, tanto da gente quanto das aves às margens do rio Javari. 

Com destaque para um jovem gavião-preto (Urubitinga urubitinga), um dos vinte e sete city-lifers que acrescentei à lista do município de Atalaia do Norte no Wikiaves - Clique aqui para saber quem são eles. 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares


Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

O desembarque e a subidinha - bem íngreme foi tão tenso e intenso como no dia anterior, mas fomos com muito cuidado, persistência e paciência. 

Chegando lá, fomos recompensados com um café super gostoso, ovos cozidos, torradas, algumas frutas e lógico, não podia faltar os "patacones". 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Começamos a caminhar super animados e não demorou muito para o nosso primeiro alvo comparecer. Se não fosse os meus amigos serem experts, eu diria que tinha um monte de chupim (Molothrus bonariensis) ao meu redor. 🤣🤣😂

Bem diferente do chupim, essa era uma ave bem rara, com poucos registros feitos em território brasileiro. Meu dedinho nervoso não economizou. 

O bando de iraúna-velada (Lampropsar tanagrinus), super agitado e barulhento, não parava quieto e eu tinha que ser paciente, pois desejava fazer um fotão da espécie. E acho que deu certo. Hoje a minha foto ocupa a capa como a melhor foto da espécie no site Wikiaves. Clique aqui para ver.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Depois caminhamos um pouco e encontramos uma bela maria-leque (Onychorhynchus coronatus), já registrada por mim em três Estados diferentes, mas nenhum deles foi fotão. Continuo sem fotão, pois uma folhinha resolveu entrar na frente e impossibilitar uma foto de quadro. 🤣🤣🌿 Que folhinha mais intrometida!!!!

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Outro dos nossos alvos era o formigueiro-grande (Akletos melanoceps), que eu havia tentado no Acre e não havia conseguido. Era quase certo de vê-lo por ali, mas teríamos que atravessar por um local bastante alagado. 

Só de pensar, meu coraçãozinho se apertava todo e o medo se instalava modo full / extreme. O Ka sempre ia na frente pra testar a segurança. Retrocedia para me resgatar e na hora de atravessar eu recebia todos os cuidados dele e da Vanilce. Dois seres munidos de uma coragem e solicitude invejáveis, de tirar o chapéu. 😍🥰😍🥰

Abaixo o registro feito pelo Luiz, do Ka e Vanilce me apoiando para passar para o outro lado, andando por cima de um tronco semi-submerso.

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Mas ... sempre tem um mas, porém, contudo, contanto, entretanto ... Estávamos caminhando animados e quando íamos prosseguir até o formigueiro-grande (Akletos melanoceps) e ariramba-violácea (Galbula chalcothorax), nossa ida foi interrompida por um forte temporal. 

Retiramos nossas capas das mochilas, ensacamos os equipamentos e as mochilas e seguimos rapidamente até um abrigo que o Ka conhecia e ali nos escondemos, ou quase, porque os meninos ficaram na chuva. O abrigo era pequeno demais para mais de duas pessoas. 

Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

Durante a chuva fiz essa foto do Luiz sob as folhas das árvores tentando se esconder da chuva. Parecia um monge saído das profundezas das florestas. Ou um personagem de um filme que poderia ser chamado de "The Green Ghost" (o fantasma verde). 😆🌧☔💚

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Abaixo, os dois meninos molhados a espera da chuva cessar. A preocupação do Ka era com a outra equipe que estava nas trilhas por lá, cujos caiaques estavam junto do nosso barco.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Depois que a chuva diminuiu um pouco, vimos nas cercanias do acampamento improvisado, muito no alto e quase fora do alcance das nossas lentes um piuí-verdadeiro-do-leste (Contopus virens), migrante da América do Norte, que vem invernar aqui no Sul. 

Eu registrei essa espécie pela primeira vez em Manizales, na Colômbia, durante a X Feria de Aves de Sudamérica em novembro de 2021 - clique aqui para saber como foi minha participação nesse evento.
 
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares
 
Como a chuva ia e vinha e o céu continuava ameaçador, além da fome que tinha se instalado pra valer em nossos estômagos, resolvemos abortar a passarinhada e retornar ao barco. 

Ao chegar lá, aguardamos a outra equipe retornar da trilha por onde a gente tinha vindo. Foi um verdadeiro filme de terror conseguir descer a ribanceira escorregadia para chegar na borda do rio e entrar no barco. 

A outra turma ia voltar para a pousada remando os caiaques, para aliviar o peso cederam todos os seus lanches para nós, inclusive algumas latinhas de cerveja. E lógico, não faltaram "patacones". Foi uma festa, depois do sufoco que passamos.😁🍌🍌🍌😁

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Abaixo a galera dos caiaques indo embora e a gente feliz que só. Só a cervejinha e o patacon já foram suficientes para apaziguar nossos estômagos judiados. 🤪😜😛🤭😋

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Nas fotos abaixo "impliquei" com o gesto do Luiz Fernando e pedi para ele fazer o gesto do Mr. Spok de Star Trek. Significa vida longa e próspera 🖖🖖🖖😁. Detalhe eu sou "trekker" até embaixo d'água.

Mas reparem nas botas dele, o tanto de barro para chegar até o barco. Foi extremamente difícil descer o escorregadio caminho. Nem precisa dizer porque adorei beber a cervejinha a hora que entrei no barco. Foi bem relaxante.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mas já passava das dez horas da manhã e eu já podia tomar cerveja (entendedores entenderão, né Vanilce? - 😂😉🍺⏰) 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Ainda se recuperando da intensa e molhada manhã, Luiz e Ka decidiram nos levar, na parte da tarde, por terra firme, não tão firme assim como vocês irão ver, para tentar encontrar o raro dançarino-de-crista-laranja (Heterocercus aurantiivertex). 🙃😁😁🙃

Eu fiquei muito feliz por evitar novos embarques e desembarques por lugares escorregadios. Tolinha, mal sabia eu que a trilha não ia ser nenhum corredor de shopping.

Até chegar no local, uma planície que costuma alagar (não sei se várzea ou igapó), fomos caminhando por um sobe e desce sem fim, onde havia lugares alagados, passagens aquáticas precárias, sem qualquer ponte a não ser alguns troncos amarrados. 

Abaixo Vanilce e Luiz avaliando a passagem sobre as águas. Mas em que pese eu ser uma pessoa muito medrosa, (rainha do drama, como diz um amigo meu) confiava plenamente nos meus amigos e companheiros de aventura, ou será melhor chamar eles de meus algozes (brincadeirinha 😆😆😈😈🤣🤣) 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Não, não olhe pra minha carinha cansada abaixo, mas para a vegetação atrás de mim. O chão aí era instável, cheio de buracos e galhos cobertos por folhas. Era preciso tomar muito cuidado. Foram mais de 5 horas para percorrer os 3 km de ida e volta. 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Voltamos ao escurecer sem nem sombra do nosso alvo, o dançarino-de-crista-laranja (Heterocercus aurantiivertex). Mas tivemos pelo menos duas compensações. 

Primeiro avistamos um vulnerável e minúsculo primata. O sagui-pigmeu (Cebuella pygmaea), também conhecido como sagui-leãozinho. É a menor espécie de símio conhecida, medindo apenas cerca de 15 centímetros de comprimento (excluindo os outros 15 centímetros de cauda). Pesa apenas 130 gramas. (Fonte: Wikipedia)

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E também pude ver a freirinha-de-coroa-castanha (Nonnula ruficapilla) novamente. Meu único registro dela tinha sido feito bem de longe no Acre há 8 anos (2014).

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Retornamos mortos de cansaço, eu pelo menos estava mortinha. Mas sabia que um banho gelado (não tem água quente na pousada) iria me reviver, com certeza. Drácula ia ficar morrendo de inveja de mim. 🤪🤣🤣🤣🧛‍♂

Dia 18/12/2022 – domingo 


Mais um dia com possibilidade de muita chuva. Dia desses, respondendo o amigo capixaba Hilton Monteiro Cristóvão - que todos chamam de tio Hilton - um dos poucos que eu sei que lê essas minhas postagens gigantescas na íntegra e ainda comenta item a item, falei isso sobre as chuvas em Atalaia do Norte:

"Tio Hilton, chovia todo dia, e cada dia era uma surpresa, chovia pela manhã, abria sol a tarde, ou o inverso, ou chovia à noite e sol cedo ou não, teve um só dia que choveu o dia e a noite toda. Mas tinha torre para nos distrair quando a gente não saia e, quando a chuva nos pegava no caminho, nosso guia de lá montava uma barraca em minutos."

Já saindo para a trilha, eu registrei o mutum-cavalo (Pauxi tuberosa), mais um agregado resgatado por lá. Também vive livre, mas como foi chocado numa comunidade por uma galinha, ele pensa que é uma. 😆🐔🐣

Durante nossas refeições ele ficava perambulando pela cozinha como as galinhas fazem, tentando ciscar coisas pelo chão ou por cima de mesas e armários. Mesmo assim continua uma ave imponente, rara e muito bonita. 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

O mutum-cavalo no refeitório
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E assim começou o dia, chove, para, chove, para. Num desses intervalos, Vanilce cheia de charme, fez pose para minhas lentes.


E toca atravessar pelas pontes improvisadas. Benditos "ka-jados". Nessa travessia, usei dois ao mesmo tempo. Eu me sentia uma verdadeira funambulista *. 🤪🤣🤣🤣

* Funambulista é quem pratica o funambulismo - arte circense que consiste em equilibrar-se, caminhando, saltando ou fazendo acrobacias, sobre uma corda bamba ou um cabo metálico, esticados entre dois pontos de apoio.

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

No caminho paramos pra tomar um cafezinho e comer umas besteirinhas. Ô coisa boa. Cafezinho nas trilhas é indispensável. 

Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

Depois de buscar algumas aves pelo caminho, tentando encontrar as choquinhas que eram nossos "targets" do dia, tivemos chuva forte em dois momentos, o que nos obrigou a se abrigar até que parassem. 

Ka, mais preparado que no dia anterior, abriu sua mochila, retirou uma lona e montou uma improvisada barraca, tudo isso em minutos. E nesse dia a água veio com tudo, caiu forte pra valer. Espia só o vídeo depois da foto a seguir.

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Almoçamos debaixo da barraca, sob forte chuva. Fiquei sentada na minha "super banqueta, levíssima, que sempre carrego pendurada no meu cinto (aquisição no site Ali Express). Um luxo só.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Em relação às aves, embora com fotos não à altura das protagonistas, fiz três lifers. Quando se trata de ave rara, qualquer registro está contando. 

No quadro abaixo na parte de cima os três liferschoquinha-de-garganta-carijó (Epinecrophylla haematonota). tangará-de-coroa-amarela (Chiroxiphia regina) limpa-folha-riscado (Automolus subulatus).

Nesse dia ainda rolou cabeça-branca (Pseudopipra pipra), rabo-branco-amarelo (Phaethornis philippii) e papa-formiga-de-bando (Microrhopias quixensis), aves emblemáticas das matas amazônicas.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Um bando de uru-de-topete (Odontophorus stellatus) surgiu na trilha, mas só consegui gravar o som, tentamos tudo para uma fotinha, mas nada. Sem um "bird hide" *, torna-se quase impossível fazer um registro de espécie como eles. 

*Abrigo, muitas vezes camuflado, usado para observar a vida selvagem, especialmente aves, de perto.

Retornamos para a pousada assim que a chuva deu um tempo. Cheguei cansada. Estava "só o pó". Enquanto respirava um pouco, fiquei assistindo o Luiz e o Ka jogarem uma partida de ping-pong. Quem ganhou? Não lembro, mas juro que queria ter esse pique deles.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Depois subimos até o topo da torre e conseguimos fazer umas fotos bem bacanas do casal de anambé-branco-de-máscara-negra (Tityra semifasciata), pipira-de-máscara (Ramphocelus nigrogularis) e bem-te-vi-de-cabeça-cinza (Myiozetetes granadensis). 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E mais um dia se foi, me colocando a refletir um bocado. Fiquei com gosto de quero mais e com uma única certeza no pensamento: o de estar vivendo a vida intensamente, como deve ser. Isso encheu o meu coração de esperanças, acreditando sempre que dias melhores sempre virão. Bastou olhar para a imensidão do céu a minha frente e pensar porque o verde* é chamado de esperança. 💚💚💚

*Significado da cor Verde: representa as energias da natureza, esperança, liberdade, perseverança, segurança e satisfação. É a cor mais harmoniosa e calmante de todas. O verde acalma e traz equilíbrio ao corpo e ao espírito. A sua utilização em momentos de depressão e tristeza pode ser reconfortante e estimulante para o equilíbrio do ser humano. (pesquisa Google)

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E assim, dei boa noite para o dia e fui dormir ouvindo os sons da floresta e da família de estrangeiros do quarto ao lado orando em conjunto numa língua não identificada. A voz que mais se destacava era a de uma criança pequena, sempre atrasada em relação aos demais. E assim, ao som do mantra repetitivo dessa família, caí nos braços de Morfeu.* 💤💤💤🥱

*Cair nos braços de Morfeu é uma expressão popular que pode ser interpretada como o desejo por adormecer num sono profundo. Esta expressão se originou a partir da figura mitológica do deus grego Morfeu, conhecido por ser a personificação dos sonhos.

Dia 19/12/2022 – segunda-feira 


Os dias estavam passando rápido. Nesta segundona, levantamos, avaliamos o tempo e Luiz decidiu que dava para ir tentar o formigueiro-grande (Akletos melanoceps). Eu disse que queria muito aproveitar para ver a ariramba-violácea (Galbula chalcothorax) também. 

Ele me explicou que para chegar até ela, haveria um pedaço da trilha debaixo d'água, com esta indo até as coxas. Primeiro pensei que daria para colocar um shortinho e ir de chinelinha. Aí lembrei que estava na Amazônia e não num rio ou praia qualquer. Isso seria totalmente inviável e respondi que iria até lá e me decidiria quando chegasse e avaliasse o local. ❓❔🐟🐍🐢🐠🐋🐊

Navegamos até onde começava a trilha e dessa vez eu subi tranquila, já estava perdendo o medo de escorregar, nessas alturas do campeonato.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Fomos caminhando até chegar onde tinha o "santo" abrigo que nos protegeu da chuva no último sábado (dia 17).  Ali por perto vimos um bando misto com aves pequenas bem no alto, mas não eram as que nos interessavam (saíra-de-barriga-amarela, beija-flor-estrela, choquinha-do-purus, choquinha-de-bico-curto ou choquinha-de-cauda-ruiva)

Mesmo assim, as que estavam ali foram registradas e passaram a compor o banco de dados do município, entre elas a saíra-ouro, juruviara e saíra-beija-flor.

Caminhando um pouco mais acabei cortando o rosto num espinheiro atrevido que resolveu, sorrateiramente se posicionar na minha frente oculto por traz de uma folha. Sangrou um bocado, mas após os preciosos cuidados da Vanilce, que fez um curativo, seguimos em frente.  🩸📍📌🥵🤪🙄😭

Mais na frente chegamos num roçado onde havia um pé de manga carregado. O Ka apanhou algumas para a gente. Vanilce ao descascar uma delas com seu canivete, fez um belo corte no dedo, que sangrou muito também. 

Mais uma com curativo. Olha aí a importância de se ter guias preparados, que tem material de primeiros socorros na mochila. 🩹🌡💉✂🤕🥴😷

Abaixo as duas "curativadas".  Mas que as mangas estavam boas, ah! estavam! Alguém lembrou de fotografar as mangas? Nãooooooo!

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Como eu já mencionei, as trilhas da Reserva são bastante suscetíveis a alagamentos, o que dificulta bastante caminhar com segurança, mas em compensação brota cada fungo dos troncos e do chão, que dá licença, não tem como não parar e registrar.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mas o desafio estava só começando. Abaixo as duas maluquinhas buscando registrar um dos lifers mais esperados: o formigueiro-grande (Akletos melanoceps).

Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho

Funciona assim, você começa a buscar um bom ângulo e tenta se posicionar. No caso a ave e o ambiente eram escuros e o deslocamento para uma melhor aproximação era inviável devido ao terreno ser cheio de obstáculos. E por fim, dificilmente as aves colaboram, e quando o fazem, um galhinho ou folhinha entram na frente e roubam a cena. 

E quando você olha e ela está no limpo, uma folha mais próxima garra o foco e causa um halo na sua imagem. Ou sua câmera * está tão velha e desgastada que o botão de foco não te obedece de jeito nenhum.

*AVISO IMPORTANTE: vendo um rim para adquirir minha futura mirrorless e lente RF. 😂🤪📷

Quando o momento tem tudo para dar uma foto linda, outro galho atrevido atravessa sobre o bico. Veja tudo o que acabei de falar no quadro abaixo:

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Você está quase desistindo quando a ave finalmente se dispõe a pousar no limpo, sem galhinho nem folhinha, mas como eu disse sempre tem um "mas" ... mas como o sol ia e vinha, onde ela pousou tinha sol e sombra juntos, e a câmera não conseguiu (culpa da sujeitinha por detrás dela 😂🤪📷) fotometrar direito. Só rindo ao lembrar desses sufocos que a gente passa. 😆

Quase ... por muito pouco, não deu foto perfeita. Talvez um flash de preenchimento pudesse ajudar, só que não. Aprendi a duras penas que bichos amazônicos são fóbicos e não se deve usar flash nunca. Mas enfim, formigueiro "checked".

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Nesse dia fizemos mais coisas. Vou falar um pouco das outras aves e deixar a cerejinha do bolo para o final.

Duas aves migratórias e difíceis pintaram nesse dia. Falo do piuí-boreal (Contopus cooperi) e do piuí-verdadeiro-do-leste (Contopus virens). O segundo acabou propiciando um ensaio com muitos momentos no baixo enquanto caçava seus insetos. 

Embora Contopus signifique (grego) kontos = curto; e pous = pé; eu brinco que são aves "no topus", e não "con-topus", exceto nesse dia, que o Contopus virens resolveu nos presentear descendo até galhinhos baixos, na altura dos olhos, sem folhinha na frente. 🤣🤣🤣 Olha aí, Dani Maia, de novo.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Também vimos nos céus dois dos urubus mais raros de se avistar. Falo do urubu-rei (Sarcoramphus papa) e urubu-da-mata (Cathartes melambrotus). Para quem não sabe, amo os urubus e o jeito deles voarem e planarem no céu. Morro de inveja, isso sim.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mas o mais legal foi fotografar o papa-formiga-de-bando (Microrhopias quixensis) do meu ladinho, quase sob meus pés, enquanto clicava o formigueiro-grande. Tomei até um susto achando que era o formigueiro.

Melhor ainda foi ter tido a oportunidade de clicar um belo e tranquilo rapazinho-carijó (Tamatia tamatia). Aliás, aqui cabe uma observação: quisera todo nome científico fosse fácil assim - eu lembro de tomate e pronto, tamatia-tamatia, quer coisa mais simples que isso? 😂🍅😉

Tem uns que nem consigo pronunciar, que dirá memorizar, como exemplo o Herpsilochmus stictocephalus ou Pseudocolopteryx acutipennis. Olha as dicas de mais nomes trava-linguas citados pela amiga Sarah Barros: Eleoscytalopus psychopompus, Griseotyrannus aurantioatrocristatus. E isso vai longe.

Eu lembro no Acre em 2019, junto com os amigos Ricardo Plácido, Fabio Olmos e Robson Czaban. Era um tal de Rhegmatorhina pra cá, Rhegmatorhina pra lá, que vou ti contar. E aí eu comecei a me comunicar cientificamente com os três também, eu dizia, alguém ouviu ou viu a Regina por aí? Em tempo: eu e eles nos referíamos à mãe-de-taoca-cabeçuda (Rhegmatorhina melanosticta). 😂😂😂
- Veja aqui como foi essa expedição pelo PE Chandless.

papa-formiga-de-bando (Microrhopias quixensis)
rapazinho-carijó (Tamatia tamatia)
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Nesse dia enquanto caminhávamos, o Ka nos alertou para algo pingando do alto de uma árvore. Olhamos para cima e pasmem: era uma cobra fazendo necessidades. Reparem na gotícula branca que sai dela. Pingaria sobre nossas cabeças se ele não tivesse nos avisado. Ia ser uma bela "c-a-g-a-d-a". 🤣🐍💩

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mais a frente montamos um acampamento para servir de base caso a gente decidisse ir ao outro lado do rio tentar ver a ariramba-violácea (Galbula chalcothorax). O Luiz bem que tentou achá-la do lado de cá do riozinho, mas nem sombra.  

Luiz comendo "patacon". Espia só.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

O jeito seria encarar os 50 ou 100 metros (nem sei direito quanto) por dentro d'água, uma vez que não tinha outro jeito. Se tivesse, o Ka teria achado. Ele bem que procurou uma outra saída, modo de dizer, pois só tinha uma entrada e o jeito era ir por dentro d'água até o ponto de sair e subir.

A decisão era minha, ou ia e tentava ver ou carregava esse peso como arrependimento pelo resto da vida. O que você faria no meu lugar? 

Quem me conhece sabe que eu jamais ia desistir. Olhei o local, olhei, assuntei lá por dentro de mim: era "só" uma caverna de folhas com chão de água, um túnel melhor dizendo. Bom, boralá seja o que Deus quiser. E lá fomos nós. 😬😖

Quando comecei a afundar e a galocha começou a encher de água, e depois a água alcançou as coxas, eu dizia dentro de mim: respira e continua, respira e continua, num para. E o nobre Ka ia me segurando pela mão e me orientando com calma. Nessas alturas ele era meu príncipe e não mais o meu condutor. 😃🤪

Eu só seguia em frente, e o Luiz e Van atrás de mim. Minutos que pareceram horas sem fim se passaram. Então chegamos e o Ka soltou minha mão e pediu o celular da Van e fez as fotos a seguir. Já estávamos numa parte mais rasa e eu sorria, mas de alívio.

Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

Enquanto escrevo, um soluço escapa de dentro de mim e as lágrimas começam a escorrer desenfreadamente pelo meu rosto. Tive que parar um pouco e esperar passar para continuar escrevendo. 😪😢😍

Aquele foi um momento tão emocionante, mas tão emocionante, que ao fechar meus olhos agora é como se eu estivesse lá. Lembro que minhas pernas tremiam, meu coração estava aceleradíssimo e eu mal respirava.

Meu corpo tinha estabelecido um combinado com a minha mente. Ele obedecia tudo o que o que ela lhe dizia ser possível fazer naquela hora. E ela dizia: respira, vai com calma, segue um passo por vez, você consegue, não tenha medo, você consegue, vai...,vai...vai, vai, vaiiiiiiiii, não pare, don't stop, no pares, मा निवर्तत. Até em sânscrito ela falava com ele nessas alturas. 🧐🙄😳😬🥺😣🤣

Mas lembrar da solidariedade e união do grupo em prol de me fazer registrar um passarinho do outro lado daquele túnel tenebroso não tem preço e me emociona às lágrimas. Recebia "empurrão" de todos os lados. Luiz e Van toda hora me perguntavam se eu estava bem. Ka ia com um olho à frente e outro atrás em mim. E ainda levaram minha câmera para eu ir mais tranquila. 😍🥰😘❤️💚🌺

Foi algo que nunca tinha experimentado na vida. Em parte foi uma superação do meu medo, meu pânico de lugares fechados, apertados, medo do que estava escondido sob aquele emaranhado dentro das águas turvas. 

Não, meu leitor, você não faz ideia do que isso significou na minha vida. Quando der vou emoldurar essas fotos, pois elas mostraram muito mais do que qualquer um pode ver. 

Mas enfim, sigamos, não parou por aí não.

Subimos até o local que para nossa surpresa, inclusive do próprio Ka, o ponto da ariramba havia sido roçado, de forma ilegal, lógico, pois a terra pertence à Reserva. Aí deu desespero, passar por tudo aquilo e a ariramba não estar por ali por causa da derrubada das árvores onde ela costumava ficar. Só me faltava essa! 🥵😡😖

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Depois desse choque, paramos para se ajeitar, tirar a água das galochas e ver se estava tudo certinho. Veja como foi isso no vídeo feito pela Vanilce logo abaixo. 

Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

E aí a expectativa... será que a ariramba estaria por ali ainda? Bora procurar, enquanto isso o sol ia secando a roupa. 

Woo woo. 😀🥳😀🥳 Felizmente ela estava. Não demorou muito e fiz um registro dela bem longe, no alto e na contraluz. Depois de frente, no sol, mas mesmo assim muito longe. Com tantos troncos caídos estava impossível se deslocar e tentar se aproximar rápido de onde ela pousava. 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mas de repente ela deu chance de melhorar o registro, de ver suas cores ao sol, até o brilho no olho. No Wikiaves só tem registros dessa preciosidade em cinco oportunidades. Veja clicando aqui.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Eu queria fazer uma fotinha de frente e sabe o que foi me dito? "Silvia, precisamos ir porque vem água por aí e muita". Como o retorno era por dentro do "tenebroso túnel", o jeito foi "enfiar a violinha no saco" e voltar ao nosso pseudo-acampamento, que ficava uns 300 metros de onde estávamos.

Gente, e a chuva veio!!! 💦💧☔🌊⚡

Ao chegar na nossa base, rapidamente o Ka montou uma barraca e ficamos um tempão dentro dela. O Luiz tinha meia seca e ofereceu, mas ninguém aceitou. Só fiz respirar, tirar as galochas e as meias, torcê-las e colocar de volta.


Quando parou de chover voltamos para o barco, felizes e cansados, mas totalmente realizados. Eu e Van, as "adesivadas", estávamos meio que "anestesiadas" e ríamos por qualquer besteira. No fundo acho que a palavra que melhor se aplica é "aliviadas". E pelo menos me sentia assim, além de aliviada estava plenamente realizada.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Toda a aventura desse dia durou 8 horas e 13 minutos (saindo do barco e voltando a ele), devidamente registrado pelo App eBird, além de um percurso total de 5.88km. 

Cansada eu? Um pouquinho!
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Aí foi só chegar e se aconchegar. Fomos comemorar com uma bela caipirinha no refeitório. Foi até difícil voltar para o quarto. Eu estava um pouco zonza, com os pezinhos trançando para subir os degraus. Confesso que não sei se foi por conta dos dois copos que tomei ou das intensas emoções do dia. 🍹😄🤪

Só sei que dava gosto somar as alegrias e conquistas da semana com os "parsas" de aventura. 🥰💝🥰

Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E assim terminou o nosso dia, com um visual mágico, a chuva indo pros lados do Peru e deixando o céu azul para nós.

Mas... (olha o mas de novo) ao escurecer, Zeus, o deus das chuvas, assoprou as nuvens de volta para o nosso lado e choveu a noite toda. 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Dia 20/12/2022 – terça-feira 


Era nosso último dia de passarinhada na Reserva. Esse dia ficara reservado para tentar registrar as espécies que ainda tinham chances e que ficaram para trás nos dias anteriores. No nosso caso algumas choquinhas e o dançarino. 🐣🥚🕺🎵

Mas, (outro mas...😂) tinha chovido a noite toda e amanhecera chovendo ainda. Por causa disso deixei para acordar mais tarde, tomar café com calma e dar uma geral no meu quarto e na arrumação das tralhas, pois o dia de voltar seria o próximo. 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

O mais engraçado foi quando saí na varanda do meu quarto para espiar como estava o tempo. Havia muitos passarinhos por ali, se deliciando na chuvinha fina. Um deles era a maria-te-viu (Tyrannulus elatus), ave que víamos e ouvíamos o tempo todo. 

Lembrei que eu não tinha feito nenhuma foto legal dela durante a expedição. Vi a oportunidade para fazer isso da minha varanda, no limpo, na altura dos olhos, mas minha velha câmera resolveu dar piti de novo bem na hora e não focar de jeito nenhum. 

Sorte que eu já vi a bichinha "bem vista" em outras oportunidades. Uma delas foi com meu amigo Anderson Sandro em um delicioso fim de semana conhecendo a maravilhosa fazenda Porangaí em Xinguara/PA. Veja aqui a foto no Wikiaves e o relato da expedição aqui.

Aí fiquei brincando assim: "a maria te viu, só quem não viu fui eu."  😆👀😂🤣

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

minha varanda
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mas fiz fotos legais dali do quarto. Destaque para a pipira-vermelha (Ramphocelus carbo), bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) e casal de bem-te-vi-de-cabeça-cinza (Myiozetetes granadensis).

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Sem poder sair longe por causa da chuva, Luiz sugeriu ficarmos clicando nos arredores da sede, pois facilitaria se proteger. Fizemos isso, clicamos sentados e protegidos pelos longos corredores da pousada e até subimos ao topo da torre. 

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Luiz Fernando, eu e Vanilce no alto da torre
Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

A grande maioria das aves, assim como eu, estava sonolenta, buscando se proteger da chuvinha que viera para refrescar um pouco (e encharcar tudo um pouco mais). 😂😂😂💦💦💦

Luiz Fernando logo avisou: um bando de tiribas-de-cabeça-vermelha (Pyrrhura roseifrons) pousou. Vi que uma delas havia pousado na folha da palmeira e ficou paradona. Eu fiquei achando que ela era a vigia do bando, que nada, a safada só fazia dormir tal qual a caburé (Glaucidium brasilianum) um pouco mais ao lado. 

Aí uma companheira veio buscá-la e a levou junto com as outras, depois se foram todas. Mas enfeitaram e alegraram nosso dia chuvoso.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Apesar da chuva, o dia estava bastante aprazível e relaxante. E não tinha barro "escorreguento", nem cabaninha apertada para ficar aguardando a chuva passar. Eu podia ir e vir ao quarto, ir à cozinha, tomar café, estava tudo muito ótimo. 

E olha só as belezinhas abaixo que alegraram nossa manhã. Havia lindas aves se alimentando por ali, ou simplesmente esperando a chuva passar, entre eles um casal espetacular de saí-de-perna-amarela (Cyanerpes caeruleus), um anu-coroca (Crotophaga major) e uma fêmea de capitão-de-bigode-limão (Eubucco richardsoni)

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E também não fez feio o pequenino e encantador beija-flor-de-garganta-verde (Chionomesa fimbriata), a elegante gralha-violácea (Cyanocorax violaceus), o curioso sanhaço-do-coqueiro (Thraupis palmarum) nem o encolhido urubu-preto (Coragyps atratus).

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Almoçamos e a chuva deu uma trégua, tínhamos duas opções: tentar as choquinhas ou o dançarino. Luiz, trocou ideias, primeiro com o Ka, depois comigo e me explicou que o Ka conhecia um caminho mais curto até o dançarino-de-crista-laranja (Heterocercus aurantiivertex). Iríamos de canoa até um local e depois andaríamos um "pouquinho" até adentrar a floresta. 

Ok, tá decidido, bora lá. Parece bem factível. Mas...

Já viram que tudo em Atalaia do Norte tem um "mas" ... e não podia faltar um "mas" no último dia.

Chegamos rapidinho de barco e fomos aportar. O que tínhamos pela frente? Lama, lama, lama *, era só o que tinha nas margens e na entradinha até o nosso destino. Daquelas que escorrega antes mesmo de se colocar o pé nela. Nossos pés afundavam pra valer e ficavam colados na hora de andar. Equilíbrio nessa hora? Nem físico nem mental. 😅😅😅😅

*A lama é a classificação concedida para uma mescla de terra pastosa, água e argila. A partir daí, essa mistura de massa pastosa se transforma em lameiros.

Confesso que este trecho foi o mais difícil de passar de todos que já tínhamos enfrentados. Dava agonia só de ver o Ka testando os melhores lugares para pisar (tipo aqueles mangues "brabo" mesmo, só não tinha cheiro ruim). Até ele deu umas deslizadas. 

Ele me tomou pelas mãos e foi me conduzindo bem devagar até me deixar em segurança numa área mais seca. E então voltou para ajudar a Vanilce e o Luiz Fernando. Eles disseram que não precisava. E vieram andando pé ante pé. 

Eu comecei a rezar enquanto fazia algumas imagens. E olhe a sequência e depois o vídeozinho meia boca que fiz (assista até o final). Vai curtir muito.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

A parte seca nem era tão seca assim, ainda mais depois de tanta chuva. Mas era "caminhável".

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Talvez por isso os fungos ou cogumelos (hongos como se diz em espanhol) haviam florescido e estavam belíssimos, merecendo a atenção da minha lente e quem sabe depois virar quadro.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Desta vez quase consegui uma foto dos sonhos da freirinha-de-coroa-castanha (Nonnula ruficapilla), mas galhinhos e folhinhas "enxeridas" entraram na frente da minha lente e não teve jeito, não teve MESMO! Bem que tentamos.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E quanto ao dançarino, 10 X 0 para ele. Realmente nos "deixou a ver navios". Depois disso o jeito foi voltar com a "viola embaixo do braço"... haja ditado popular para descrever a nossa desilusão com o bichinho. Mas ele está por lá e um dia quem sabe, eu volto e consiga fazer um fotão. 

Antes de sair do local pedi uma última foto minha no lugar e meu desejo foi atendido pela Vanilce. Olha aí, eu e meu super "ka-jadinho".

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Continuando a saga, o jeito foi retornar, mesmo que isso significasse voltar pelo "barro colento", até chegar no barco. E lá fomos nós, andando lentamente, se segurando onde dava, sem nenhum acidente de percurso.

A chegarmos próximos à sede, a Vanilce chamou a atenção para uma linda bromélia. Na posição que eu estava eu via um coração desenhado pela natureza além da bela bromélia. 

Talvez esse coração servisse para mostrar o tanto que a natureza esbanja amor, embora por vezes seja tratada com tanto descaso e desprezo pelos seres humanos. (juro, essa foto não é montagem, apenas sofreu um crop, não tem edição). 🌾💕💚

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E assim nosso dia terminou. Era hora de arrumar as malas. Nossa partida estava batendo na porta. Voltaríamos para Tabatinga no dia seguinte pela manhã. 

Dia 21/12/2022 – quarta-feira


Eu sempre disse, o dia mais chato de uma expedição é o dia da partida. Homônimos a parte, isso sempre parte o meu coração. 😭💔

De acordo com o Luiz Fernando, nesse dia teríamos que estar em Tabatinga no máximo no meio da tarde, para deslocamento ao aeroporto e regresso para Manaus. 

Nossa saída da reserva Palmari estava prevista para o início da manhã após o café. Tudo combinado com Ka, que nos levaria até lá de lancha. 

Tomamos café com calma. Tinha pão com ovo, o salvador do mundo, frutas e muito café. 
 
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Após as despedidas de praxe, ainda deu tempo de fazer foto com o Felipe, o ornitólogo colombiano voluntário da Reserva.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E assim terminou a nossa passarinhada nessa região que é uma das mais inóspitas que já conheci.

Tchau Palmari, até qualquer dia. Harpia, faltou você nas minhas listas. Espero te encontrar na próxima. 👇

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Como eu disse, Ka ia nos levar. Temendo a chuva, eu e Van fomos no banco do meio, mas não teve chuva desta vez. Nosso retorno foi super rápido.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Vim com minha nova sandalinha, mas de meia. As meias e a calça ainda tinham lama, mas ... olha o "mas" aí de novo, o sorriso era a expressão suprema da felicidade, ou felici-aves, como costumo brincar. Mas continue lendo para entender melhor essa colocação.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Faço minhas as palavras que copio abaixo de alguns trechos da música Tocando em frente, dos compositores Almir Sater e Renato Teixeira, cujo vídeo deixo logo a seguir para você se deliciar ouvindo. Meus sentimentos no momento eram esses:

"Ando devagar porque já tive pressa / E levo esse sorriso / Porque já chorei demais...Hoje me sinto mais forte / Mais feliz, quem sabe / Só levo a certeza / De que muito pouco eu sei / Eu nada sei... É preciso amor pra poder pulsar / É preciso paz pra poder sorrir / É preciso a chuva para florir...Todo mundo ama um dia / Todo mundo chora / Um dia a gente chega / E no outro vai embora..." 🎶🎵🎶🎵

Bem isso mesmo, o tanto de chuva que veio durante minha estadia foi pra florir e juntar nas flores os passarinhos, as borboletas, os sorrisos, risos, muitas gargalhadas e muitas alegrias, tudo isso em dias memoráveis. 

Mas como os poetas disseram, num dia a gente chega e quando menos espera, no outro vai embora. E lá estava eu, indo embora. Há um misto de tristeza e alegria nisso tudo, que depois se transforma num único e eterno sentimento, que chamamos de saudades

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Almir Sater - Tocando Em Frente


No caminho, um pouco mais de verde, desta vez o de um barco, que me emocionou ao passarmos por ele, pois ele leva o nome da minha mãezinha que deixou essa vida em 2005, mas tenho certeza, esteja onde ela estiver, é uma mãe que sente muito orgulho da filhota que deixou por aqui. 💚🍀💚

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Bem vindos de volta à civilização, melhor dizendo, à "muvuca" geral. Polo e sua equipe nos aguardavam em Tabatinga.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Depois de um breve check-in no mesmo hotel que nos hospedamos no início, seguimos até Letícia para o almoço de despedida.

Enquanto aguardávamos o gerente da Pousada Elias e o Ka, que tinha ido resolver algumas coisas, brindamos nossa exitosa expedição com uma cervejinha bem gelada.

Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

Quando os dois rapazes chegaram, pedimos a comida e ficamos "rememorando os memoráveis" acontecimentos.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Um último brinde, desta vez com todos juntos. E viva a Amazônia. 🎉👏👏🎉

Arquivo pessoal Vanilce Carvalho

E quando a comida chegou foi aquela festa. E lógico, não podia faltar "patacones". E desta vez não teve nenhum "mas". Comemos até dizer chega, despedimos do pessoal, passamos no hotel, apanhamos as nossas coisas e fomos direto para o aeroporto.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E com essa imagem deixo meu tchau, Tabatinga. Tchau, pessoal da Reserva Palmari, até uma próxima. Obrigada por tudo. Gratidão por essa grande e inesquecível aventura.

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Ei, pera aí, não acabou não. 😂😂😂

Considerações finais


Hoje dou muita risada quando lembro de tudo. Mas para mim foi um grande desafio. Pareceu com um desses joguinhos eletrônicos tipo Dangerous Dave, que era meu joguinho favorito quando comprei meu primeiro computador. 

Você terminava uma fase e pulava para uma próxima ainda mais difícil. Eu só me perguntava quantas vidas eu tinha ainda (no joguinho você recebe vidas iniciais e conquista algumas extras no decorrer). 

Uma coisa eu garanto, embora bastante temerosa e cuidadosa, nunca fui covarde e não sou de desistir das coisas facilmente, nem que tenha que começar tudo de novo. Igual a esse joguinho.

E depois sempre vem as "recompensas" e as "vidas extras" que você vai conquistando ao longo do "jogo", leia-se "da própria vida". 

Veja a seguir um vídeo com imagens do joguinho com seu sonzinho irritante. E pensar que eu passava horas nele.  🤪🤣🤣🤣

    

Enquanto aguardava meu voo para São Paulo que sairia de Manaus perto de 3:30 da manhã fiquei refletindo um pouco. Estava voltando para casa com quinze novas espécies de aves registradas no total, contabilizando no Wikiaves 1.680, ou seja 85% da lista CBRO 2021. Quase tudo figurinha carimbada. Uma vitória e tanto, leia mais um tiquinho e vai entender porque. 🏆🍾🥂

Aguardando meu voo para casa
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Eu brinco muito que tenho memória fotográfica, e digo isso literalmente, pois é graças ao auxílio das fotos da câmera e do celular, que construo esses posts, descrevo e rememoro as emoções e aventuras experimentadas, que estão apenas guardadas no meu coração e na minha mente.

Essas postagens servirão para me lembrar de detalhes da minha vida que podem um dia acabar sendo esquecidos. E acredito que elas também possam servir de referência para quem tem vontade de conhecer pedaços de paraíso do nosso Planeta como este.

O fuso horário automático do celular deu uma bagunçada geral nas minhas fotos e listas, mas acredito que juntando isso tudo, essa foi a maior das aventuras que eu já vivenciei na minha vida. Peço mil perdões se por acaso me equivocar com alguma data, horário ou acontecimento. 

E isso tudo, por obra do acaso, veio acontecer em dezembro de 2022. Justo quando completo 20 anos. Uai, como assim? Seu aniversário não é só no final de agosto? É sim, mas eu comemoro em agosto o meu nascimento e em dezembro o meu renascimento. 

Em dezembro de 2002, quando morava em Brasília, eu dei entrada na UTI em decorrência de um AVCi, com meu lado esquerdo totalmente paralisado. 

Permaneci entre a vida e a morte, com opção de sair dali num caixão ou numa cadeira de rodas, mas por milagre e competência dos médicos e equipes que me atenderam, eu nasci de novo (palavras do médico) e pude sair andando com minhas próprias pernas, que hoje me levam a esses lugares mágicos, inóspitos e poucos explorados. 

E assim vou terminando mais um gigantesca história da minha vida.

Vanilce e Luiz Fernando, não tenho palavras suficientes para agradecer a vocês dois. Não falo só pelo mega profissionalismo que vocês aplicam ao trabalho desempenhado. Falo da amizade, do carinho, das emoções que já pude desfrutar ao lado de vocês todos esses anos. Vocês são parte de mim, são família e posso dizer com letras garrafais (pode ser de cerveja ou de vinho 💛🍺💜🍷😋😉😆) 

MI CASA SU CASA - MI CORAZON TU CORAZON


Sempre falei no meio do automobilismo onde comecei minha vida fotográfica (lá por 2006) que se eu fosse piloto ia querer ser piloto do Rally dos Sertões, por conta do sem número de emoções vividas por eles. 

Acho que hoje minha vida é um Birding Rally dos Sertões. Andar atrás de passarinho gera emoções e desafios tanto quanto. Talvez até mais. 🐦🐥🦩🦉🦢🦆🦅🦜🦚

E se você topou o desafio e foi corajoso para ler tudo até aqui, meus sinceros agradecimentos. Se estiver logado no google, não esqueça de deixar um comentário de incentivo. Se for comentar como anônimo (sem login), não esqueça de deixar seu nome no texto.

"Ao menor sinal de carinho, retribua. A vida passa muito rápido pra deixar pra depois!"

Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Até a próxima postagem.

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