quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Rondônia - Passarinhando pelas áreas remotas da Floresta Amazônica

Finalmente o dia da expedição idealizada pelo guia, amigo e biólogo Bruno Rennó chegou. Quem o conhece, dispensa comentários, quem ainda não, fica a dica, o Bruno é top. Conhece muito as aves amazônicas e sabe como encontrá-las como ninguém. Possui ouvido biônico e nenhum piado passa desapercebido por ele. É um explorador nato. Além do mais, destaque para seu bom-humor, é constante e contagiante.

cancão-da-campina (Cyanocorax hafferi) 

A nossa expedição foi desafiante e se concentrou em três áreas principais: Campinas de Humaitá, Tabajara e Igarapé São João no Parque Nacional dos Campos Amazônicos, por isso vou dividi-la em partes para facilitar a leitura e acompanhamento das emoções do nosso dia a dia:


Primeira Parte - Porto Velho até as Campinas de Humaitá


Campinas de Humaitá - Essa área está localizada na margem esquerda do rio Madeira, entre os limites dos municípios de Humaitá-AM, Canutama-AM e Porto Velho-RO. Os principais ambientes existentes são as áreas de campina ou campinarana (significa “falso campo”) e a floresta de terra firme. Centenas de espécies e raridades podem ser encontradas nessa região. Um dos principais destaques do local é a possibilidade de encontrar 6 das 15 espécies novas de aves descritas para a Amazônia em 2013. Ficamos baseados em Porto Velho, num bom hotel, o Ecos Hotel Conforto, usufruindo de bons restaurantes. Fazíamos saídas a lugares que não excediam 100 km. Retornávamos todos os dias, inclusive para almoçar, ou almoçávamos no caminho para ganhar tempo.

03 de junho de 2016 (sexta-feira)

Saí para o aeroporto com a costumeira tensão que me acompanha em todas as viagens. A mala mais pesada do que de costume, devido ao tanto de coisas extras necessárias para a terceira fase da viagem. No aeroporto, eu me reuni com os companheiros, o Bruno Rennó, o Mathias Singer e o Emerson Kaseker. Logo que chegamos em Porto Velho, retiramos a Duster 4x2 na locadora (foi a conta para caber nossas coisas e olha que o porta-malas é grande). Paramos para almoçar e depois seguimos para o hotel onde deixamos as malas. Dando início às passarinhadas, partimos para Canutama - IBA Campos de Humaitá, uma bela campinarana, já no Estado do Amazonas.

Entramos por um ramal, com os dedos se coçando pra clicar. Demos a largada com um surucuá-de-barriga-vermelha (Trogon curucui). Um belo exemplar de urubu-da-mata (Cathartes melambrotus) sobrevoou nossas cabeças permitindo muitos cliques. Um lindo arco-íris iluminou o céu, mostrando que logo-logo iríamos encontrar nosso “pote de ouro”.

Arco-íris

surucuá-de-barriga-vermelha (Trogon curucui)

urubu-da-mata (Cathartes melambrotus)

E sem muita demora, pois nossa ansiedade era enorme, o Bruno nos pôs frente a frente com nosso “pote de ouro”: um bando da espécie recém descrita pelo grande ornitólogo Dr. Mário Cohn-Haft (2013): o cancão-da-campina (Cyanocorax hafferi). Lindos, barulhentos, alegres, inquietos para fotografar e um pouco tímidos. A luz não era das melhores, mas não poupamos cliques.

cancão-da-campina (Cyanocorax hafferi)

cancão-da-campina (Cyanocorax hafferi)

cancão-da-campina (Cyanocorax hafferi)

Depois avistamos um ninho do beija-flor-verde (Polytmus theresiae) na beira da estrada a poucos centímetros do chão. Os pais não estavam por perto. Quando passamos neste primeiro dia o ninho estava com dois ovinhos. Qualquer carro mais veloz o derrubaria. Pais de primeira viagem, ô judiação. Quando retornamos em outro dia, o ninho estava predado, só não sabemos por quem. Que dó!
 
ninho de beija-flor-verde (Polytmus theresiae)

Já voltando pro hotel, pousado num fio, numa contraluz ferrada, um belo rapazinho-estriado-do-oeste (Nystalus obamai) deixou fazer algumas fotos, porém, quando tentamos mudar a posição e ficar com uma luz favorável, ele se foi. Já escurecendo, retornamos à cidade, jantamos no Emporium Gonçalves e seguimos para o hotel, a fim de descansar e preparar as tralhas para o dia seguinte.

04 de junho de 2016 (sábado)

Cinco da matina já estava acordada, café às 5:50h. D. Fátima, a simpática responsável pela cozinha do hotel, mesmo fora do horário, deixava tudo prontinho pra gente tomar o café da manhã. Neste dia, após o farto desjejum, seguimos para a Linha C01, como são chamadas as estradas vicinais ao redor de Porto Velho.


Destaque para o cantador-sinaleiro (Hypocnemis peruviana), papa-formiga-do-igarapé (Sclateria naevia), gavião-miudinho (Accipiter superciliosus), macuru-de-peito-marrom (Notharchus ordii), limpa-folha-de-asa-castanha (Philydor erythropterum), vimos até um saguizinho todo xereta – o Saguinus fuscicolis

papa-formiga-do-igarapé (Sclateria naevia) 
cantador-sinaleiro (Hypocnemis peruviana)

Saguinus fuscicolis 

Mas o grande presente mesmo foi a choca-preta (Neoctantes niger). Não foi muito fácil clicar por causa da brenha que ela estava enfurnada, mas focando num minúsculo buraquinho, consegui fazer uma foto bem razoável. Só para se ter ideia da dificuldade, existem apenas 11 fotos da espécie no Wikiaves, sendo que três são minhas, duas do Mathias, uma do Fabio Olmos, duas do Felipe Arantes, uma do Bruno Rennó, uma do Andrew Whittaker e uma do Gabriel Leite. O Bruno é mesmo um bruxo...encontrar essa espécie pela primeira vez em Porto Velho, só ele mesmo! Ele havia voltado para buscar o carro e ouviu a vocalização do bicho no caminho. Pegou o carro, buscou a gente e nos trouxe no ponto e pimba! Havia um casal, o que significa que possibilidade de aumento da população no local. Imagina o coração dele nessa hora. Lifer para mim e para a cidade de Porto Velho no Wikiaves. Foi uma emoção pra lá de estupenda. Ninguém esperava, nem ele. Mas como ele tem um excelente ouvido...deu nisso.

choca-preta (Neoctantes niger) - fêmea

choca-preta (Neoctantes niger) - fêmea

Após o almoço, descansamos um pouco e fomos conhecer o Ramal Nossa Senhora do Rosário, chegamos nas bordas do Rio Madeira, clicamos a bela ariramba-da-capoeira (Galbula cyanescens), dai começou a chover. 

ariramba-da-capoeira (Galbula cyanescens)


Demos um tempo esperando a chuva cessar. Quando a chuva passou, nenhum bicho estava interessado em se apresentar. Aproveitamos para comemorar a milésima espécie de ave alcançada pelo amigo Mathias.
 
Eu, Bruno, Mathias e Emerson

Mais um dia com arco-íris enfeitando o céu. Voltamos pra cidade, fomos jantar de novo no Emporium Gonçalves e depois seguimos para o hotel descansar e se preparar para o dia seguinte.

05 de junho de 2016 (domingo)

Domingo era folga da D. Fátima e por isso não teríamos café fora do horário. Tomamos café numa padoca 24 horas, super movimentada (eu me senti em Sampa eh eh eh). Seguimos para as Campinas de Humaitá em Canutama de novo. Uma forte neblina tomava conta da estrada embora fosse mais de 6.30h. Muitos carcarás e polícia-inglesa-do-norte nas margens da estrada. A ida foi muito tranquila.
 
polícia-inglesa-do-norte (Sturnella militaris)

Nesse dia tentamos o joão-grilo (Synallaxis hypospodia), mas ô bichinho encardido, deu um baile que só vendo. Nem preciso repetir: todos os sinallaxis tem pacto com o inferno. Araras-canindé (Ara ararauna) passaram sobre nossas cabeças fazendo uma algazarra deliciosa.

joão-grilo (Synallaxis hypospodia)

Decepcionante, em termos, foi o gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis), que de longe parecia um gavião-pato (Spizaetus melanoleucus), lifer para mim, só que estava apenas, em sua fase clara, mimetizando o gavião-pato. Achei muito interessante este avistamento. Se não fosse a vocalização e o Bruno, eu juraria que era o S. melanoleucus.
 
gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis), 

Depois disso, foi um lifer atrás do outro: arapaçu-barrado-do-juruá (Dendrocolaptes juruanus), rabo-branco-amarelo (Phaethornis philippii), choquinha-miúda (Myrmotherula brachyura), azulão-da-amazônia (Cyanoloxia rothschildii). E num é que consegui registrar um fantasminha da floresta? Desta vez ele não ficou só cantando enfurnado no mato, né tururim (Crypturellus soui)?
 
rabo-branco-amarelo (Phaethornis philippii)

tururim (Crypturellus soui)

Almoçamos no Fogão de Lenha, do simpático casal Edilmara e Edmar, vila de Assuanópolis, em Canutama. Adorei o sorvete de tapioca com leite de coco. 


Logo depois voltamos para as campinas e vimos um bando de araçari-de-bico-marrom (Pteroglossus mariae) e outro de araçari-mulato (Pteroglossus beauharnaesii). Não deu fotão, pois eles estavam muito longes, mas o P.mariae era lifer e lifer é lifer eh eh eh

araçari-de-bico-marrom (Pteroglossus mariae)

Selfie - eu, Mathias, Bruno e Emerson - enquanto os "passarins num vem"...

Tentamos o maxalagá (Micropygia schomburgkii) e nada. O bicho cantou, cantou, mas não quis dar as caras. Resolvemos encerrar o dia sem ele. Na volta fiz mais um lifer: bem-te-vi-da-copa (Conopias parvus) quase sem luz.

06 de junho de 2016 (segunda-feira)

Um pouco antes das 4 da manhã eu já estava acordada. Havia dormido bem cedo na noite anterior. Até agora, a viagem estava sendo maravilhosa, sem picadas de insetos, cheia de lifers, fotos bonitas e muita alegria. Antes de dormir eu ficava só pensando como seria deixar o conforto do hotel e ir pro meio do matão, só de pensar dava um gelo na barriga. Seria minha primeira vez...


Saímos para a Linha C30. Depois de um sufoco danado, consegui foto meia boca do formigueiro-de-taoca (Hafferia fortis). Um dia conseguirei melhorar a foto. E em seguida, para compensar, o  papa-formiga-barrado (Cymbilaimus lineatus) deu um show. Rolou ainda marianinha-de-cabeça-amarela (Pionites leucogaster), anambé-de-coroa (Iodopleura isabellae) e capitão-de-fronte-dourada (Capito auratus). Dois gaviões-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis) sobrevoaram a gente. Pena que não pousaram.

formigueiro-de-taoca (Hafferia fortis)

marianinha-de-cabeça-amarela (Pionites leucogaster)
papa-formiga-barrado (Cymbilaimus lineatus) 
Adentramos uma trilha legal, cheia de macaquinhos saltitantes e ariscos. Achamos um bando misto, mas muito no alto, difícil clicar. Ainda consegui foto do saí-de-perna-amarela (Cyanerpes caeruleus) e da sete-cores-da-amazônia (Tangara chilensis). Um pouco mais e vimos uma ariramba-do-paraíso (Galbula dea).

ariramba-do-paraíso (Galbula dea)

Ainda deu clique no fio da peitica-de-chapéu-preto (Griseotyrannus aurantioatrocristatus), eita nome científico complicado, não consigo pronunciar sem travar a língua. E tinham muitos urubuzinhos (Chelidoptera tenebrosa), sempre fotogênicos. Eles são muito engraçadinhos e parecem borboletinhas voando. 

peitica-de-chapéu-preto (Griseotyrannus aurantioatrocristatus)

urubuzinhos (Chelidoptera tenebrosa)

A tarde voltamos ao Ramal C30 - Linha Beira Rio. Logo na entrada bandos de benedito-de-testa-vermelha (Melanerpes cruentatus) faziam a festa. Uma charmosa pomba-trocal (Patagioenas speciosa) se posicionou para a foto. Fomos clicar um tal formigueiro-de-cauda-curta (Myrmelastes humaythae), foi complicado, nem te conto como. O deslocamento do grupo em busca de um ângulo melhor, mais limpo, não deixava o bicho sossegar. Difícil, mas deu para registrar.

E para terminar o dia, no caminho vimos uma enorme aranha caranguejeira. O legal foi ver o susto que o Brunão tomou quando ele clicava ela com o celular e ela deu um pulo pro lado dele.


Bruno clicando a aranha

Dia terminando
Eu - por favor, deixa eu descer prá registrar este céu?

07 de junho de 2016 (terça-feira)

Neste dia retornamos à Linha C30, entrando novamente por Canutama/AM. Logo no início avistamos novamente um bando de cancão-da-campina (Cyanocorax hafferi), o que é sempre emocionante.

cancão-da-campina (Cyanocorax hafferi)

Seguimos em frente e a estrada adentrou o Estado de Rondônia, município de Porto Velho.

Mapa do Lightroom, assinalando onde fotografei no dia

Comecei bem o dia com um lifer a muito tempo cobiçado: o tinguaçu-de-barriga-amarela (Attila citriniventris). Depois, na mesma matinha, uma galinha-do-mato (Formicarius colma) quase cantou dentro dos meus ouvidos, mas não deu o ar da graça.

tinguaçu-de-barriga-amarela (Attila citriniventris)

Registrei o uirapuru-de-chapéu-azul (Lepidothrix coronata), arapaçu-elegante (Xiphorhynchus elegans), taperá-de-garganta-branca (Chaetura egregia), gavião-ripina (Harpagus bidentatus) e gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis).

Já na Linha Beira Rio, registramos o topázio-de-fogo (Topaza pyra) e o saí-de-barriga-branca (Dacnis albiventris). Os dois eram lifers para mim e para o Estado de Rondônia. O Bruno ficou eufórico com essa aparição. Imagine nós, então.

saí-de-barriga-branca (Dacnis albiventris)

topázio-de-fogo (Topaza pyra)

Um simpático joão-bobo (Nystalus chacuru) veio pousar pertinho, pena que foi numa fiação. Para fechar a manhã com chave de ouro, um belo exemplar de gavião-de-cara-preta (Leucopternis melanops) pousado foi um delírio para as nossas lentes.

joão-bobo (Nystalus chacuru)

gavião-de-cara-preta (Leucopternis melanops)
O Bruno procurando os passarinhos para a gente.

Durante a tarde choveu. Decidimos dar um pulo na Linha C1 e lá vimos alguns papagaio-moleiro (Amazona farinosa). O flautim-pardo (Cnipodectes subbrunneus) cantou, cantou, mas não se moveu para pelo menos uma fotinha meia-boca, em que pese os esforços do Bruno. Eu sempre digo brincando, depois do meio dia, as aves amazônicas são abduzidas por alienígenas e só retornam na madrugada do dia seguinte. Em seu lugar surgem vorazes mutucas, loucas pelo seu sangue...



Voltamos pra cidade, comemos pizza,  passamos num supermercado, arrumamos mala com vistas a zarpar cedinho para Machadinho D'Oeste.

Segunda Parte - Machadinho D'Oeste - Povoado de Tabajara


Tabajara: Deslocamo-nos até uma remota vila da cidade de Machadinho D’Oeste, chamada Tabajara, localizada às margens do belíssimo rio Machado ou Rio Ji-Paraná (um importante afluente do grande rio Madeira). Conhecido pela população local apenas por rio Machado, o mesmo pertence à Bacia Amazônica e deságua no rio Madeira. Tabajara apresenta notável heterogeneidade de ambientes, o que gera um surpreendente potencial para a região, abrigando uma enorme riqueza de espécies de aves. Durante nossa estada na região contemplamos todas as fisionomias vegetais existentes na localidade, desde campina, campinarana, floresta de terra firme e floresta de várzea, até as margens do rio Machado.

Local de embarque e desembarque da Balsa

O deslocamento entre Porto Velho e o vilarejo de Tabajara é de 349 km, com duração aproximada de 5 horas de viagem.

Local de embarque e desembarque da Balsa

Ficamos no único hotel, até razoável para os padrões locais. Meu quarto, bem como o do Mathias, tinha banheiro e chuveiro elétrico, além de frigobar, já o do Bruno e do Emerson não dispunham desse luxo. Sem sinal de celular. Todas as refeições eram feitas na casa da D. Graça e do Sr. Piti. Comida caseira e simples, mas muito apetitosa. Os locais de passarinhos eram relativamente próximos. Exceto no dia que saímos de barco para conhecer o igarapé Marmelo. Fora esse dia, sempre voltávamos para almoço e um pouco de descanso.

Hotel em Tabajara

casa da D. Graça e do Piti

Nossa varanda de refeições
08 de junho de 2016 (quarta-feira)

Acordei 5h57. Já com as malas arrumadas, tomei café. Lotamos o carro com nossas coisas e partimos.

Carro lotado? Onde?

No caminho paramos num posto em Itapuã do Oeste/RO para tentar o beija-flor-de-cabeça-azul (Amazilia rondoniae). Conta a história que os amigos que foram anteriormente com o Bruno (Marco, Viviane e Eduardo), quiseram parar para um “pipi-stop” num posto de gasolina no caminho. Ao descerem, o Bruno ouviu o beija-florzinho vocalizar e eles, então fizeram fotão. Chamamos, vasculhamos toda a área e nem sombra dele. Foi uma frustração geral. Mas enquanto isso fui fotografando o que tinha no caminho, desde pardal (Passer domesticus)  até outro beija-flor qualquer.

pardal (Passer domesticus)

Seguimos para a cidade de Cujubim, almoçamos e fomos procurar uma ave para marcar bolinha vermelha no meu mapinha de registros do Wikiaves, que eu apelidei de red-ball-lifer (pura frescura minha). Funciona assim: ou eu faço um lifer (registro de espécie nova), um melhoraifer (melhoria de foto de espécie já existente) ou um red-ball-lifer, se não, não tem graça. No caso foi uma rolinha-roxa (Columbina talpacoti) e uma andorinha-doméstica-grande (Progne chalybea).



Seguimos a um ponto onde o Bruno esperava nos mostrar o cardeal-da-bolivia, mas nem sombra dele. Fotografamos tudo que vimos pelo caminho: peitoril (Atticora fasciata); bentevizinho-de-asa-ferrugínea (Myiozetetes cayanensis); polícia-inglesa-do-norte (Sturnella militaris); anu-preto (Crotophaga ani). Tudo já nos limites do município de Machadinho D’Oeste.

peitoril (Atticora fasciata)
Chegamos mais de 17 horas em Tabajara, a pequena vila na beira do rio Machado. Saí passarinhar um pouco pelos arredores, vi andorinha-de-coleira (Pygochelidon melanoleuca), maitaca-de-cabeça-azul (Pionus menstruus) trinta-réis-grande (Phaetusa simplex).

maitaca-de-cabeça-azul (Pionus menstruus) 
 trinta-réis-grande (Phaetusa simplex)

Retornei porque havia muitos piuns (primo do nosso borrachudo) - talvez você até pense que borrachudo é algum tipo de pneu ou coisa parecida. Não é nada disso. Pium e borrachudo são mosquitos minúsculos que infernizam a vida das pessoas. Voltei pro hotel e fui ajeitar as minhas malas. Daí fomos jantar na d. Graça.  Comidinha caseira e boa. O quarto, tirando ser de madeira, o que possibilitava ouvir a respiração do vizinho ao lado, tinha ar-condicionado e chuveiro quente. Bastante espaçoso e limpinho. O hotel não tem recepção ou serviço de limpeza diário. É cada um por si. O ar fervilhava com tantas expectativas para o dia seguinte. O jeito era tentar dormir o mais rápido possível, como se isso fosse difícil para mim kkkkkkkk.

09 de junho de 2016 (quinta-feira)

Novamente acordei bem cedo, por volta de 5h00h. Não dormi tão bem quanto gostaria, acho que o longo deslocamento até a Vila, a expectativa, o cansaço, tudo ajudou a ficar me remexendo e rolando pela cama, acordando várias vezes durante a noite. E o pior, foi perceber nessas vezes que lá fora chovia. Mas como sempre digo, Santa Clara me protege, pela manhã estiou e pudemos sair numa boa para fotografar.

E para distrair um pouco, faz uma paradinha e assiste um clipe do filme Madagascar "Eu me remexo muito!"



polícia-inglesa-do-norte (Sturnella militaris)

Uma polícia-inglesa-do-norte (Sturnella militaris) secava-se em cima de um mourão.  Foram três lifers logo nas primeiras horas: choca-de-natterer (Thamnophilus stictocephalus), guaracava-de-topete-vermelho (Elaenia ruficeps) e vissiá-cantor (Rhytipterna immunda). Mas o poiaeiro-de-chico-mendes, bicho endêmico, que a gente queria muito, não apareceu.

choca-de-natterer (Thamnophilus stictocephalus)

guaracava-de-topete-vermelho (Elaenia ruficeps)

vissiá-cantor (Rhytipterna immunda)

Entramos na matinha mais fechada e fotografamos o belíssimo chora-chuva-de-cara-branca (Monasa morphoeus), o cantador-ocráceo (Hypocnemis ochrogyna) e o papa-moscas-uirapuru (Terenotriccus erythrurus). Depois do almoço, voltamos a rodar pela estradinha principal. Não teve muita ave como a gente esperava. Perto de uma ponte vimos um martinho (Chloroceryle aenea), depois um beija-flor-brilho-de-fogo (Topaza pella). Tentamos o poiaeiro de novo, ele até respondeu o play-back, mas, mais uma vez, ficou a nos dever...

chora-chuva-de-cara-branca (Monasa morphoeus)

cantador-ocráceo (Hypocnemis ochrogyna)
martinho (Chloroceryle aenea)

Visão da trilha

Descansando um pouco ...

É nóis...

10 de junho de 2016 (sexta-feira)

O dia começou com chuva, mas logo foi parando. No caminho, uma sempre atenta e linda coruja-buraqueira (Athene cunicularia) me deu bom dia com seus olhos redondos e profundos.

coruja-buraqueira (Athene cunicularia) 

Quando chegamos na trilha da Campinarana, fizemos o pretinho (Xenopipo atronitens) macho e fêmea. Depois um arapaçu-concolor (Dendrocolaptes concolor). Consegui foto boa do rendadinho (Willisornis poecilinotus) macho.

rendadinho (Willisornis poecilinotus)

O endiabrado do chororó-pocuá (Cercomacra cinerascens) não deu mole, mas eu consegui um registro da fêmea. Algum dia eu hei de melhorá-lo. O local em si é muito bonito e já valeu a ida.


Eu no meio do campo, foto by Bruno Rennó

Por fim, a mãe-de-taoca-papuda (Rhegmatorhina hoffmannsi). Ô coisa linda! Lógico que para conseguir fazer foto boa ganhei de presente um monte de picada de formiga de correição. Nem importa, as picadas sumirão, mas as fotos, ah! Essas sim, vou olhar muitas vezes ainda.

mãe-de-taoca-papuda (Rhegmatorhina hoffmannsi)

mãe-de-taoca-papuda (Rhegmatorhina hoffmannsi)

mãe-de-taoca-papuda (Rhegmatorhina hoffmannsi)

Depois do almoço fomos tentar mais uma vez o poiaeiro-de-chico-mendes (Zimmerius chicomendesi). Mesmo contabilizando mais um insucesso, a gente não ia desistir dele. Pior do que não fotografar o poiaeiro é ouvir cinco árvores irem ao chão e quatro tiros de caçador, numa única manhã. De cortar o coração.

Salvem as árvores, nós dependemos delas para respirar.

No caminho, o Mathias e o Bruno tiveram a impressão de ver um jacu-estalo correndo no meio do mato. Eu estava distraída dentro do carro e não vi nada. Voltamos ao provável local e tentamos ver se localizávamos o bicho para confirmar, mas sem sucesso.

Paramos para apreciar essas formações na areia. Elas me encantaram, pareciam escavações arqueológicas. Mas eram apenas esculturas moldadas pela chuva.



Enfim, o dia foi puxado, mas para amenizar terminamos o dia tomando cervejinha bem gelada, só pra variar um pouco.

Bruno, eu e a Itaipava

11 de junho de 2016 (sábado)

É tão bom quando o dia começa bem. Dormi tranquila, às 5:45 estava prontinha. Como sempre, era a primeira a ir para o carro (é muita vontade de passarinhar o que gera uma ansiedade não controlável). Era dia de passeio de barco pelo rio, com o Piti de piloteiro. Eu estava numa expectativa de dar dó, queria ver novas e lindas espécies.

Rio Machado

Estava nublado e, ao descermos o rio, um bando enorme de bacurau-da-praia (Chordeiles rupestris) encheu nossos olhos. Logo em seguida vimos peitoril (Atticora fasciata), batuíra-de-esporão (Vanellus cayanus) e cardeal-da-amazônia (Paroaria gularis).

bacurau-da-praia (Chordeiles rupestris)

bacurau-da-praia (Chordeiles rupestris)

batuíra-de-esporão (Vanellus cayanus)

Adentramos o Igarapé Marmelo e o silêncio estava sepulcral. Não tinha uma ave cantando. O dia, no entanto, parecia ter asas e voava, já os passarinhos ... parecia que tinham entrado em greve. O engraçado é que quando estou num lugar desses, tão remoto, navegando calmamente por águas tranqüilas, esperando os passarinhos, questiono mentalmente algumas coisas, entre elas o rumo que tenho dado a minha vida. Ela vai bem, obrigada. Amadureci e já não acredito mais em papai-noel e coelhinho da páscoa e também já desisti do príncipe-encantado. kkkkkkkkkkk Essa foi só pra relaxar!


Visão do igarapé



E finalmente o primeiro lifer do dia: o guarda-várzea (Hylophylax punctulatus), ave muito lindinha e super simpática. Colaborou muito. E não demorou muito, outro lifer: arapaçu-de-rondônia (Lepidocolaptes fuscicapillus).

guarda-várzea (Hylophylax punctulatus)

Seguindo em frente, paramos para uma foto do surucuá-grande-de-barriga-amarela (Trogon viridis). Depois ficamos um tempão vendo um bando misto, até saíra-galega (Hemithraupis flavicollis) apareceu e olha, foi o primeiro registro para o município no Wikiaves. No meio da parafernália das copas da altura de um prédio de três andares, outro lifer: rabo-de-espinho (Discosura langsdorffi).

surucuá-grande-de-barriga-amarela (Trogon viridis)

rabo-de-espinho (Discosura langsdorffi)

Eu até me deitei no barco para fotografar, pois as árvores eram tão altas, mas tão altas, que haja pescoço.


Aí um gavião-azul (Buteogallus schistaceus), que me pareceu cinza,  se mostrou do jeito que gosto...posudo. E me encarou.

gavião-azul (Buteogallus schistaceus) 

gavião-azul (Buteogallus schistaceus) 

Eu não perdia uma foto de martim-pescador, fosse qual fosse. Eu queria mesmo era o martim-pescador-da-mata (Chloroceryle inda), mas enquanto ele não vinha, eu clicava todos, como o belo martim-pescador-verde (Chloroceryle amazona) abaixo. E os bichos começaram a desfilar: tinha socó-boi (Tigrisoma lineatum), coroa-de-fogo (Heterocercus linteatus), choquinha-estriada-da-amazônia (Myrmotherula multostriata), tudo melhoraifer.

choquinha-estriada-da-amazônia (Myrmotherula multostriata)

socó-boi (Tigrisoma lineatum)
martim-pescador-verde (Chloroceryle amazona) 
coroa-de-fogo (Heterocercus linteatus)

Outra preciosidade deu o ar da graça: maria-do-madeira (Poecilotriccus senex). Ô bichinho difícil de fotografar.

maria-do-madeira (Poecilotriccus senex)

Desembarcamos numa prainha e fizemos fotos legais do suiriri (Tyrannus melancholicus) e mais um lifer para mim, a gaúcha-d'água (Muscisaxicola fluviatilis).

suiriri (Tyrannus melancholicus)
gaúcha-d'água (Muscisaxicola fluviatilis)

Após um dia delicioso, voltamos para a Vila e fomos jantar.

12 de junho de 2016 (domingo)

Quando foi 3h35, um cara bateu na pousada. Achei que era algum caminhoneiro perdido. Depois soube que ele bateu na porta do Mathias, lógico que este não abriu. O cara perguntou que cidade era aquela, disse ser do IBAMA, que estava perdido e precisava de ajuda. Estranhíssimo. O Mathias indicou a casa do lado onde morava o proprietário do hotel. Sei lá que fim que deu essa história. Até hoje estou curiosa pelo seu desfecho.

Eu tentei voltar dormir rapidinho, mas a palestra que estou montando não me saia da cabeça...pensava nas máximas e mitos passarinheiros – do lado dos guiados: “eu não ligo a mínima pra lifer”; “sem problemas, desisto numa boa”; “tudo bem, pelo menos meu amigo conseguiu”; e os guias: “eu conheço um outro ponto, lá é certeza”; “na volta a gente tenta de novo”; “bora pro próximo que esse num vem mais” ; “esse tem em Abujamra”. E assim fiquei rindo dessas bobagens até pegar no sono de novo e ter sonhos cor-de-rosa. 


Acordei 5h40. Partiu atrás de passarinho. O dia prometia, pois um lindo sol despontava no horizonte. Logo no início da estrada, um bando de psitaccídeos se alimentava numa fazenda, muitas maracanãs-do-buriti (Orthopsittaca manilatus) e alguns papagaios.

maracanãs-do-buriti (Orthopsittaca manilatus)

maracanãs-do-buriti (Orthopsittaca manilatus)

Seguimos nosso caminho. E finalmente, devido ao ouvido e visão biônicos do Bruno eis que num ponto inesperado, surge o tão esperado poiaeiro-de-chico-mendes (Zimmerius chicomendesi). E dando mole no sol. Foi clique até esgotar cartão. Ufa!!!!!

 poiaeiro-de-chico-mendes (Zimmerius chicomendesi)

 poiaeiro-de-chico-mendes (Zimmerius chicomendesi)

Felizes e com o "dia já ganho", seguimos em frente, paramos em uma ponte ladeada com fruteiras carregadinhas e muitos passarinhos se alimentando como a saíra-diamante (Tangara velia) que registrei.

saíra-diamante (Tangara velia)

As Sombras...

"Nozes"

Depois ainda contabilizamos para nossa lista papa-formiga-de-bando (Microrhopias quixensis), pipira-vermelha (Ramphocelus carbo), caçula (Myiornis ecaudatus), polícia-do-mato (Granatellus pelzelni) e sanhaçu-de-coleira (Schistochlamys melanopis) entre outros.

papa-formiga-de-bando (Microrhopias quixensis)

polícia-do-mato (Granatellus pelzelni)

sanhaçu-de-coleira (Schistochlamys melanopis)

Mas tão importante quanto um lifer é fazer o primeiro registro fotográfico da espécie no Wikiaves para o Estado/Município. Feliz demais com esta oportunidade. Foram vários assim, dentre eles o caneleiro (Pachyramphus castaneus).

caneleiro (Pachyramphus castaneus)

Chegamos a ir até a Lanchonete Encanto da Natureza, na Cachoeira 2 de Novembro, onde as curicas-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi) estavam indo se alimentar. O lugar é muito bonito.





No entanto elas não estavam lá. Quase chorei. Era bicho dos sonhos...No caminho fizemos foto do benedito-de-testa-vermelha (Melanerpes cruentatus), gralhão (Ibycter americanus) e uirapuru-selado (Thamnomanes saturninus) e algumas lindas borboletas.



gralhão (Ibycter americanus) 

Quase atolamos no areião, mas felizmente foi só um sustinho. Finalizamos a passarinhada com um bacurau (Hydropsalis albicollis) muito bonzinho que deixou a gente chegar pertinho para fotografar.

bacurau (Hydropsalis albicollis) 

Após o jantar, fui para o quarto arrumar as malas, pois iríamos para o acampamento no dia seguinte... ai ai ai, pensa numa pessoa ansiosa, preocupada... como será que ia ser?

13 de junho de 2016 (segunda-feira)

Fiquei pronta antes das 6h00. A ansiedade me dominando, primeiro porque após o café da manhã, a gente iria até a Cachoeira 2 de Novembro tentar as curicas-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi) e o cardeal-da-bolívia e depois seguiríamos para o acampamento.

Chegamos na cachoeira, e de longe, vimos que havia muitas curicas, mas bem distante de onde estávamos. O Bruno nos levou correndo por cima das pedras (nunca me vi subir um lugar tão rápido), demos a volta por trás do local onde elas se alimentavam e conseguimos um bom ponto para fotografá-las. Fiz isso até enjoar, depois fiquei só observando. Como são lindas. Cores magníficas sob uma luz pra lá de espetacular, tudo que um fotógrafo gosta.

E junto ainda havia maitaca-de-cabeça-azul (Pionus menstruus) e periquito-de-asa-dourada (Brotogeris chrysoptera). Depois de ficar extasiada e satisfeita, fomos rodar atrás do cardeal-da-bolívia (Paroaria cervicalis). E...nada.

curicas-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi)

curica-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi)

curicas-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi)

curicas-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi) e maitaca-de-cabeça-azul (Pionus menstruus)

curica-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi)

curicas-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi), uma maitaca-de-cabeça-azul (Pionus menstruus) ao fundo
e periquito-de-asa-dourada (Brotogeris chrysoptera) à esquerda

curicas-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi)

curica-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi)

A despedida ficou por conta de uma ilustre ave motociclista. Deduzi isso ao ver o urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) ao lado de um capacete na porteira. Só uma observação: eu adoro urubus.

 urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus)

Seguimos nosso caminho, almoçamos em Machadinho D’Oeste e no meio da tarde chegamos ao Parque Nacional dos Campos Amazônicos...e lá fomos nós de voadeira para o acampamento no Alto do Bode.

Terceira parte – O Acampamento e o Igarapé São João


Nesta etapa da viagem nossa expedição atingiu terras ainda mais isoladas e selvagens, quando chegamos aos confins do Parque Nacional dos Campos Amazônicos.


Esta foi a fase da expedição mais esperada e a mais temida. A gente ia acampar no Alto do Bode. Não ia ter banheiro, luz elétrica nem água encanada. Não teria como recarregar equipamento ou baixar as fotos. Mas não era algo totalmente selvagem.

D. Graça e o Piti foram antes para o local de barco, levando tudo que era necessário para nossas refeições e água potável. O Bruno colocou barracas à nossa disposição. Bastou levar colchonete e roupa de cama/banho. O local dispõe de uma casinha precária, quarto, sala e cozinha. Sem banheiro.



Luan e D. Graça lavando a louça no rio

Minha barraca armada na sala

a barraca do Mathias

Piti, Bruno e Emerson 
O banho era de canequinha na beira do rio ou de lencinho umedecido (dica da Viviane). Necessidades fisiológicas? Sim, matinho ou um buraco com um latão e tábuas improvisando um vaso sanitário, com um enxadão ao lado e terra para cobrir os dejetos... argh! Todos os dias a gente saia de barco pela manhã e pela tarde, algumas vezes descíamos para fazer alguma trilha e em outras só ficávamos no barco.

O deslocamento até a região do Igarapé São João, se deu a partir da vila de Tabajara. São 164 km de Tabajara até a Fazenda Vista Linda, local onde deixamos o veículo e seguimos de barco (“voadeira”), por 8 km até a base de nosso acampamento, na localidade do Alto do Bode.

... o pequeno Luan nos aguardando ...

E todo dia era assim...

14 de junho de 2016 (terça-feira)

De 13 para 14 dormi a primeira noite no acampamento, mas acabei por acordar muito cedo. Sabe porquê? Acredita se disser que passei frio durante a noite? Isso porque comprei um ventilador de pilha, já imaginando o forno relatado pelos amigos Marco Guedes e Viviane de Luccia.

Selfie no escuro da barraca, já fechada para dormir

Após o café da manhã, partiu navegar. Saímos pelo rio Machado em direção ao Igarapé São João. Nosso objetivo principal era percorrer uma trilha em busca da lendária e rara choca-de-garganta-preta (Clytoctantes atrogularis).

Pessoal descendo do acampamento para o barco

a neblina matutina

Aguardando os passarinhos...by Mathias Singer

A trilha até a choca era muito difícil. De cara, tivemos que contornar por conta de um enxame de abelha, vimos muitas aves no caminho, mas o sentimento de frustração foi grande, uma vez que a dita cuja nem responder respondeu. Mas, engole-se tudo e parte-se para apreciar outras belezas. E havia muitas, desde outras espécies de aves, até borboletas, flores e paisagens de tirar o fôlego.

habitat da choca-de-garganta-preta









Durante a navegação registramos um lindo gavião-preto (Urubitinga urubitinga) e uma garça-branca-pequena (Egretta thula). Já na trilha que leva à Choca, os primeiros lifers: chorozinho-do-aripuanã (Herpsilochmus stotzi),  bico-virado-fino (Xenops tenuirostris), choca-pintada (Megastictus margaritatus). Depois foto do arapaçu-elegante (Xiphorhynchus elegans), do cantador-amarelo (Hypocnemis hypoxantha) e de um socozinho (Butorides striata).

garça-branca-pequena (Egretta thula)

gavião-preto (Urubitinga urubitinga)
cantador-amarelo (Hypocnemis hypoxantha)

E mais um lifer que buscava desde minha primeira ida à Poconé/MT em  2011 – o martim-pescador-da-mata (Chloroceryle inda). De repente, ele passou feito uma flechinha, só vi algo verde e cor-de-terra costurar as águas ao nosso redor. Pousou longe, mas eu acompanhei seu trajeto e registrei. E como presente teve um super melhorifer: a picaparra (Heliornis fulica). No início achei que era um marrequinho pousado, mas quando vi seus pezinhos exdrúxulos, quase pulei do barco.

martim-pescador-da-mata (Chloroceryle inda)

Picaparra (Heliornis fulica)

E assim, mais um dia findou-se. Jantamos e muito cedo estava na barraca para dormir.

rio Machado

rio Machado

15 de junho de 2016 (quarta-feira)

Era pouco mais de 5h00 e eu já estava pronta. Havia acordado no meio da madrugada com uma coceira no braço que, com a lanterna, descobri tratar-se de um carrapato. Fiquei com cisma. Depois de tirá-lo com cuidado e passar scabin no local, não consegui pegar direito no sono. E quando dormi, tive pesadelos com o danado. Faz parte...

Saímos de barco, em busca de uma trilha considerada “quente”. Entre ida e volta percorremos uns 7 km. O bom dia ficou por conta do socó-boi (Tigrisoma lineatum).

 socó-boi (Tigrisoma lineatum)

pescador solitário

rio Machado

Fiz vários lifers importantes, chupa-dente-grande (Conopophaga melanogaster), choquinha-do-rio-roosevelt (Epinecrophylla dentei), choquinha-de-garganta-cinza (Myrmotherula menetriesii), cantador-de-rondon (Hypocnemis rondoni) e tiê-de-bando/mato-grosso (Habia hubica/rubra) *  .

A trilha era escura e fechada e os bichos não colaboraram muito. Na oportunidade, fotografei um primata muito lindo: macaco-aranha-da-cara-preta ou macaco-aranha-peruano (Ateles chamek). Ou macaco-aranha-descabelado, como "tão precisamente" um amigo identificou. Vou sugerir pantene reparador seguido de chapinha eh eh eh

*OBS: O Habia rubra no Wikiaves ainda está como Habia rubica, pois o site só contempla a versão CBRO 2014.

macaco-aranha-peruano (Ateles chamek)

Na parte da tarde, ainda navegamos mais um pouco e fizemos lindos avistamentos, como garça-real (Pilherodius pileatus), acurana (Hydropsalis climacocerca), martim-pescador-verde (Chloroceryle amazona), pica-pau-de-topete-vermelho (Campephilus melanoleucos), batuíra-de-esporão (Vanellus cayanus), e maria-da-praia (Ochthornis littoralis).

garça-real (Pilherodius pileatus)

acurana (Hydropsalis climacocerca)

batuíra-de-esporão (Vanellus cayanus)

maria-da-praia (Ochthornis littoralis)

martim-pescador-verde (Chloroceryle amazona)

pica-pau-de-topete-vermelho (Campephilus melanoleucos)

Nesse dia encerrou-se a nossa expedição. Foi nossa última noite no acampamento. Pela manhã retornaríamos a Porto Velho. Lembro de ter registrado isso no meu diário às 20:22, já dentro da minha barraca “Tem um rato na cozinha roendo castanhas e fazendo um barulhão. O rato não para de mastigar e o Piti não levanta pra espantá-lo. Eu que não vou levantar para botar ele pra correr. Melhor tentar dormir.

Inesquecível em todos os momentos, veja ao final minhas considerações.



16 de junho de 2016 (quinta-feira)

Ops! Ainda não acabou! Acordei um pouco antes das 5h00. Fiquei me arrumando e ajeitando minhas coisas para irmos embora. Quase 6h00 e já começou clarear. Cantava do lado de fora um udu, uma mãe da lua e um bacurau. De vez em quando eu ouvia um trinta-réis grasnando sobre o rio. Há prenúncios de um dia bem quente e cheio de passarinhos, mas a hora chegou. Foi uma dura prova de fogo. Hora da despedida. Deixo parte do meu coração e meu ventilador de pilha (que nem usei) de presente para D. Graça. Vamos seguir caminho.

Mathias, Piti, D. Graça. Emerson, Luan no colo do Bruno e eu

Eu e D. Graça

Almoçamos em Cujubim. Em Candeias do Jamari, nós paramos para eu fazer um red-ball-lifer e pasme, foi um belo urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus).  Não, ele não se disfarçou de mesa! hahaha

urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus)

Num deu na ida, mas deu na volta. Em Itapuã D’Oeste fizemos uma paradinha básica no posto Estrela D’Alva, e não é que ainda rolou mais um lifer. Sim aquele mesmo, que buscamos no começo da viagem: o beija-flor-de-cabeça-azul (Amazilia rondoniae). Na vinda, nada, nem sombra dele. Mas na volta, o bichinho compareceu e deu show.

beija-flor-de-cabeça-azul (Amazilia rondoniae)

E lá do outro lado do país eis que encontro na minha frente um caminhão oriundo da minha cidade natal, pergunto, o que ele estaria fazendo tão longe de casa? Fotografando passarinho é que não era.


Finalizo esse dia com este trecho descrito ainda dentro do barco: "Deixando o acampamento no Alto do Bode dentro do Parque Nacional dos Campos Amazônicos neste momento. Fui guiada pelo amigo e grande guia Bruno Rennó. Desfrutei da grande companhia dos amigos Mathias Singer e Emerson Kaseker. Contei com o carinho e serviços da D. Graça e do Piti, seu esposo e tive a alegria do pequeno Luan para animar meus dias. A expedição começou dia 03/06 e terminou hoje. Foram mais de 50 novas espécies para mim. Só tenho que agradecer a todos. Amanhã voltarei pra casa, e com muita ansiedade, baixarei as fotos para o computador, mas as recordações permanecerão eternamente na minha mente e coração."

Minhas considerações finais deixo para o próximo capítulo.

4ª Parte - Encerramento contendo minhas impressões sobre a Expedição


Para fechar o meu relato, segue um compêndio das emoções que eu descrevi no meu e-Handy Diary durante a expedição, mais precisamente no acampamento.

Chegava da passarinhada bastante cansada. Largava o peso do equipamento em qualquer canto, pegava um banquinho e me sentava na barranca do rio e ficava admirando-o seguir seu curso em direção sabe-se lá pra onde.


Era um reflexo da minha vida. As palavras são insuficientes para descrever o que eu senti olhando o rio correr no fim de cada dia. Mil pensamentos vinham a minha cabeça. Ao invés de prédios, sirenes e carros buzinando, eu era presenteada pelo som orquestrado pela natureza, com seus acordes suaves a encher meus ouvidos. Era como o sussurro de um amante apaixonado. Um trinta reis rasgava as águas, vocalizando .... qui qui qui qui qui. Um Martim-pescador dava um rasante na água em busca de um peixinho para seu jantar, enquanto uma garça branca passava batendo as asas preguiçosamente. Doces sentimentos. Doces pensamentos. A brisa quente perpassava pelo meu rosto, como dedos acariciando levemente a pele. O sol se despedia no horizonte, tingindo o céu e o rio de tons afogueados. Mais um final de dia majestoso, deixando nos lábios o desejo de um beijo apaixonado. A alma, nestes momentos, deixava meu corpo e vagava por lugares infinitos.


Sim, a companhia dos elementos da natureza me traz sabores da paixão, que outrora, menina, aparecia no meu coração das mais diversas formas. Senti saudades, saudades de partes de mim, que eu guardo adormecidas no coração.

Assim que o último raio de luz desaparecia do céu, trazendo milhares de estrelas, eu voltava para a cozinha improvisada para jantar e prosear um pouco. Sob a pálida luz do luar, eu ia me deitar enquanto pensamentos suaves me embalavam. Pensava em momentos que eu ainda gostaria de viver. Como fazia quando menina. Adormecia e era invadida por doces sonhos. Acordava de madrugada e pensava no tanto que seria bom se esses sonhos se tornassem realidade.


Concluí que a internet e a TV, que me enchem as noites em casa antes de dormir, roubaram-me isso com o passar do tempo. Roubaram e esconderam. Mas não tão bem. rs rs rs. Sorte a minha que ainda consigo achar pedaços de mim quando entro em comunhão com a natureza.

Na madrugada, minha mente semi-adormecida percebia uma corujinha-do-mato piando ao longe, uma mãe-da-lua entoando seu canto mágico e fantasmagórico, enchendo o ar de notas musicais únicas, enquanto o bacurau não se cansava de repetir: bacurau, bacurau, bacurau...talvez uma onça estivesse com fome do outro lado do rio e por isso "falava" alto, sapos e grilos tamborilavam sem parar, e o rio correndo...levando meus sonhos e sono pra longe...então eu me via completamente acordada.

Olhava as horas, não, ainda faltava muito pra levantar..."borá" sonhar de novo...e novamente meus olhos se fechavam trazendo de volta doces pensamentos e imagens que se misturavam com a fumacinha assoprada pelos anjos e a realidade desejada. E lá fora a neblina unia-se às árvores e ao rio, uma bruma cheia de fantasmas e assombração. Lembrei do livro de vampiros cor-de-rosa e verde que apareciam durante a espessa neblina, cuja leitura me apavorou na adolescência. kkkkkkkkkkkk

O frio inesperado gelava meu corpo, que encolhia-se num auto-abraço em meio ao único e fino lençol que levei.


Novamente mais um sonho se finalizava e os olhos se abriam. Olhava o relógio de novo, 4h30 mais ou menos, madrugada escura, d. Graça preparando o nosso desjejum na pequena cozinha improvisada. O cheiro embriagante do café sendo coado chegava até mim na barraca montada na sala e eu, mais que depressa levantava, me trocava e quando todos chegavam eu já estava com o prato de guloseimas cheio (fosse aipim, ovos, inhame, pão, etc). Pronta pra mais um dia de passarinhos. E são muitos os passarinhos, pois o Parque Nacional nos reserva a cada dia uma surpresa. 

Não sei se conseguiria ficar muitos dias nessa rotina, sou uma pobre urbanóide, acostumada ao conforto físico das coisas da cidade grande. É uma dicotomia que convive cheia de conflitos dentro de mim. O corpo necessita do conforto urbano da cidade grande, mas a alma necessita do conforto e do silêncio do mato. Por isso esses raros momentos se tornam tesouros que guardo no coração e que compartilho carinhosamente com os bons amigos. 

Foi uma experiência única, Bruno Rennó. Você foi incrível, contornou cada dificuldade que poderíamos vir a sofrer. Mostrou uma garra incrível. Fez tudo para que dentro do desconforto de uma terra inóspita, pudéssemos desfrutar do máximo de conforto. Obrigada de coração. "Abujamra" nos espera.


Acampar na beira do Rio Machado em Rondônia foi uma experiência inovadora para mim. Ficar sem água encanada, esgoto, rede de luz, sem internet ou celular me fez ver o mundo com novos olhos. Confesso que “cresci” um bocado durante esses dias. Coisas aparentemente cotidianas e sem importância, quando nos vemos privadas delas, é que entendemos o sua dimensão e real valor. Foram três noites apenas e o acampamento tinha muito luxo. Uma big cozinheira, comidinha de primeira, água mineral, cerveja geladinha e muita conversa jogada fora. Com direito a muito passarinho e esturro de onça do outro lado do rio. Mais pra que?


No total da expedição eu fiz 51 lifers, muitos endêmicos, de extrema dificuldade, superadas pela maestria do nosso guia Bruno. Além disso enriquecemos as listas de alguns municípios e do próprio Estado de Rondônia. E com isso conquistei mais uma bandeirinha pro meu colete fotográfico.


Isso que é encerrar uma tour com chave de ouro.

Segue abaixo a lista e link dos lifers


NOME  DIA
1 cancão-da-campina (Cyanocorax hafferi) 3
2 rapazinho-estriado-do-oeste (Nystalus obamai) 3
3 papa-formiga-do-igarapé (Sclateria naevia) 4
4 limpa-folha-de-asa-castanha (Philydor erythropterum) 4
5 choca-preta (Neoctantes niger) 4
6 joão-grilo (Synallaxis hypospodia) 5
7 araçari-de-bico-marrom (Pteroglossus mariae) 5
8 rabo-branco-amarelo (Phaethornis philippii) 5
9 tururim (Crypturellus soui) 5
10 azulão-da-amazônia (Cyanoloxia rothschildii) 5
11 bem-te-vi-da-copa (Conopias parvus) 5
12 arapaçu-barrado-do-juruá (Dendrocolaptes juruanus) 5
13 formigueiro-de-cauda-curta (Myrmelastes humaythae) 6
14 formigueiro-de-taoca (Hafferia fortis) 6
15 papa-formiga-barrado (Cymbilaimus lineatus) 6
16 arapaçu-elegante (Xiphorhynchus elegans) 7
17 taperá-de-garganta-branca (Chaetura egregia) 7
18 tinguaçu-de-barriga-amarela (Attila citriniventris) 7
19 topázio-de-fogo (Topaza pyra) 7
20 saí-de-barriga-branca (Dacnis albiventris) 7
21 uirapuru-de-chapéu-azul (Lepidothrix coronata) 7
22 vissiá-cantor (Rhytipterna immunda) 9
23 guaracava-de-topete-vermelho (Elaenia ruficeps) 9
24 choca-de-natterer (Thamnophilus stictocephalus) 9
25 cantador-ocráceo (Hypocnemis ochrogyna) 9
26 chororó-pocuá (Cercomacra cinerascens) 10
27 pretinho (Xenopipo atronitens) 10
28 arapaçu-concolor (Dendrocolaptes concolor) 10
29 rendadinho (Willisornis poecilinotus) 10
30 mãe-de-taoca-papuda (Rhegmatorhina hoffmannsi) 10
31 maria-do-madeira (Poecilotriccus senex) 11
32 rabo-de-espinho (Discosura langsdorffi) 11
33 gaúcha-d'água (Muscisaxicola fluviatilis) 11
34 gavião-azul (Buteogallus schistaceus) 11
35 guarda-várzea (Hylophylax punctulatus) 11
36 arapaçu-de-rondônia (Lepidocolaptes fuscicapillus) 11
37 uirapuru-selado (Thamnomanes saturninus) 12
38 papa-formiga-de-bando (Microrhopias quixensis) 12
39 poiaeiro-de-chico-mendes (Zimmerius chicomendesi) 12
40 curica-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi) 13
41 chorozinho-do-aripuanã (Herpsilochmus stotzi) 14
42 choca-pintada (Megastictus margaritatus) 14
43 bico-virado-fino (Xenops tenuirostris) 14
44 martim-pescador-da-mata (Chloroceryle inda) 14
45 chupa-dente-grande (Conopophaga melanogaster) 15
46 choquinha-do-rio-roosevelt (Epinecrophylla dentei) 15
47 choquinha-de-garganta-cinza (Myrmotherula menetriesii) 15
48 cardeal-da-bolívia (Paroaria cervicalis) 15
49 cantador-de-rondon (Hypocnemis rondoni) 15
50 tiê-de-bando/mato-grosso (Habia hubica/rubra) 15
51 beija-flor-de-cabeça-azul (Amazilia rondoniae) 16

• OBS: O Habia rubra no Wikiaves ainda está como Habia rubica, pois o site só contempla a versão CBRO 2014.