domingo, 11 de novembro de 2018

SP-MG - Uma viagem pelo cerrado em busca de jóias aladas

Esse ano tive a sorte de fazer incríveis viagens e conhecer pessoas maravilhosas. Algumas eu já postei no Bloguinho. Tenho algumas iniciadas e não postadas ainda. Mas todas elas tem um componente incrível: o companheirismo e a amizade.*
*Amizade: substantivo feminino - sentimento de grande afeição, simpatia, apreço entre pessoas ou entidades. (Google)

Eu vou contar sobre a última, porque foi curtinha e mexeu muito comigo.

Desde que cheguei do Uruguai no final de agosto estou tentando ir fotografar o famoso bacurau-de-rabo-branco (Eleothreptus candicans). Essa ave é ameaçada de extinção. No Brasil, sua ocorrência é bem restrita. Só foi  vista nos Estados de Goiás e Mato Grosso do Sul, na reserva do Parque Nacional das Emas e agora no Triângulo Mineiro no Estado de Minas Gerais. Ano passado estive no PARNA das Emas com a intenção de vê-lo, mas um escorregão numa parte mal conservada de uma das trilhas me levou ao hospital e tive que ficar de repouso. Proibida pelo médico de passarinhar, o jeito foi retornar à Brasília com a amiga Fernanda, perdendo a oportunidade de vê-lo.

bacurau-de-rabo-branco (Eleothreptus candicans)

Por conta de vários problemas de agenda meus e do guia e amigo Cal Martins, essa viagem veio sendo protelada por meses.

Finalmente conseguimos compatibilizar nossas agendas e combinar um roteiro, incluindo outros dois lifers que eu desejava muito fazer. Então meus três objetivos principais eram o bacurau-de-rabo-branco (Eleothreptus candicans), o andarilho (Geositta poeciloptera) e o que vinha me dando uma canseira danada, o papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis) ou "pmc", bicho que já me fez procurá-lo em diversos lugares nos anos anteriores (Itirapina, Brasília, Mato Grosso e até Argentina/Uruguai) sem sucesso.

Este ano, decidi viajar, a princípio sozinha com o Cal, depois resolvi convidar alguém que topasse essa aventura. Chamei minha antiga "parça de crime", Viviane de Luccia, que não podendo ir, me falou pra chamar a amiga Leila Esteves. Eu conhecia a Leila, mas nunca passarinhamos juntas pra valer, apenas uma saída para uma pelágica em setembro de 2014 na Ilhabela. Expliquei pra ela quais eram as metas da viagem e os locais que eu teria que ir para achá-los. Dois deles eram lifers para ela.

A Leila pediu um tempo para pensar e logo depois confirmou sua ida. Ela me repassou desejos de ver outras aves na região onde iríamos e eu repassei para o Cal compatibilizar com nosso roteiro. Fizemos as combinações de praxe, porém eu não sabia, nem fazia ideia do que estava por trás desse "tempo para pensar".

Sou passarinheira faz sete anos, ou melhor, sou fotógrafa de passarinhos. Com o passar dos anos, principalmente após minha aposentadoria em 2015, comecei a viajar bem mais e a fotografar cada vez mais espécies novas (já expliquei como faço isso em palestra transcrita aqui no Bloguinho).


Isso me fez ficar bastante conhecida no nicho passarinheiro. Eu e Guto Carvalho brincamos que sou celebridade de nicho, ou melhor de bicho. Fato é que meu nome ficou conhecido. Bom ou ruim, isso é apenas fato. Dizem que tornei-me um mito. Querida por alguns e nem tanto por outros. A gente jamais vai ser unanimidade. kkkkkkkk

Li essa frase em algum lugar e achei muito legal: "A transposição do mito para a vida cotidiana não se faz sem ironia." Os mitos se formam a partir de opiniões pessoais. Ele representa a imagem de conquista e sucesso almejado por quem o idolatra e admira. Geralmente as opiniões sobre o mito transcendem a verdade, os fatos reais. Depois que as pessoas acreditam nas informações em torno do mito, fica difícil mudar isso e restabelecer a verdade.

Pois sim, falei tudo isso, embora eu não concorde em ser considerada um mito, muitas opiniões se formaram a meu respeito. E pelo jeito nem todas muito positivas.

Mas resolvi refletir sobre o meu comportamento e o que está fazendo com que as pessoas que não me conhecem acreditem que, pelo fato de eu ter fotografado 1540 espécies de aves, eu sou psicótica, obsessiva compulsiva e só viajo e paro se for para fotografar lifers (busca de espécies novas). Isso não é verdade, é fakenews como é modinha dizer.

O fato de estar entre os primeiros colocados no ranking do site Wikiaves como detentora de um grande número de espécies fotografadas é fruto de muita busca e superação. Isso é consequência das muitas viagens que faço com os excelentes guias que temos. Eu faço isso porque eu gosto, porque curto viajar e fotografar e ponto.

Fotógrafa de passarinhos fotografa flores também

Quem não me conhece ou nunca passarinhou comigo não tem ideia do porque disso tudo. Sou uma pessoa que já passou por muitas coisas na vida (um dia você vai ler tudo isso no meu futuro livro: Memórias Secretas de uma Passarinheira), inclusive um AVCi, que me colocou entre a vida, a morte/ou uma cadeira de rodas.

Sobrevivi quase intacta e após isso, resolvi viver a vida intensamente, preocupando-me em ser feliz o máximo que eu conseguisse. Fotografar aves nunca vistas (lifers) é tão prazeroso quanto comprar um sapato novo (mulheres entenderão e os críticos a esse assunto, eu respeito, mas quero que eles... fiquem bem longe de mim). kkkkkkkkk

Enfim, há um preconceito sobre isso muito grande. E o fato de eu resolver viajar sozinha, me poupando de aborrecimentos que já tive durante algumas viagens de grupos, reforça esse "pré-conceito" sobre a Silvia Linhares.

Eu clicando florzinhas by Leila Esteves

No fundo, no fundo, sou um docinho, desde que seja tudo combinado antes e o respeito impere. Sou uma fotógrafa antes de ser observadora, não das melhores, mas daquelas que se sente tão feliz em produzir uma foto bonita quanto registrar um lifer. Gosto de aves, todas elas. 

E detesto gente maldosa que insinua nas redes sociais que todos os fotógrafos de aves só querem saber de lifers. Saem vomitando conceitos e preconceitos como se fossem donos absolutos da verdade. Devem ter seus motivos e experiências ruins pra falarem isso. É bom sempre lembrar que é  preciso ter respeito à individualidade. E não julgar sem conhecer. Você não está dentro da pessoa para entender os "porques" dela. Mas vai esperando, Deus perdoa e eu anoto os vacilos tudinho numa planilha de excel. kkkkkkkkkkkk

Diferente do que "acham", eu sou daquelas que fotografa tudo pelo caminho enquanto eu e o guia procuramos os meus lifers. De quero-quero à rolinha-do-planalto, de buraqueiras a florzinhas. De mamíferos a insetos. De paisagens a pessoas. Nada passa batido aos meus olhos e lentes. E a questão é a seguinte: primeiro cumprir as metas. O que está ao redor vem em segundo plano, mas jamais é desprezado.
 
Eu e Leila by Cal Martins (Itirapina/SP)

E com a Leiloca (já estou íntima kkkkkk) não foi diferente. Quase que a Leila deixou de aceitar um convite meu por conta de comentários feitos a meu respeito. Eu ia lamentar muito se ela não tivesse aceito, mas mais que isso, ela ia lamentar, pois iria deixar de fazer seis lifers cascudos, um passeio deliciosamente recheado de muitas risadas e histórias pra contar e o pior: ia deixar de me conhecer melhor e derrubar o mito que se formou ao meu redor.

Lifers da Leila:
papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis)
andorinha-de-dorso-acanelado (Petrochelidon pyrrhonota)
curiango-do-banhado (Hydropsalis anomala)
bacurau-de-rabo-branco (Eleothreptus candicans)
socoí-vermelho (Ixobrychus exilis)
papa-lagarta-de-asa-vermelha (Coccyzus americanus)

Mas o mais bacana foi saber de tudo isso durante a nossa viagem. E para completar, ela escreveu isso pra mim depois que chegou na casa dela:

Ao som do bem te vi e do vento insistente tento aqui relembrar onde essa história começou. E sim foi com um convite completamente inesperado que me deixou em uma saia justa: ir ou não ir? Eis a questão. Se eu não for por causa dos comentários que já tinha ouvido acerca dela nunca iria saber se seria ou não verdade. Se eu fosse corria o risco de desperdiçar meu tempo, dinheiro e humor e nunca iria saber quem ela é de fato.

Na duvida resolvi arriscar. E como diz o ditado: quem não arrisca não petisca!!!
E confesso que ouvir meu coração foi a melhor decisão que tomei porque pude constatar o quanto estava errada na opinião que tinha formada a respeito dela!

Hoje aqui quero te pedir sinceras desculpas por ter feito um  julgamento sem bases.
Te conhecer pessoalmente foi incrível e agora posso dizer sem medo de errar que você é uma pessoa maravilhosa. Uma princesa! Alegre, espontânea, focada! Uma passarinheira profissional mas que sabe levar tudo com leveza e alegria. Que soube superar seus desafios sem em um momento sequer ficar de mau humor. Ao contrario: de riso farto foi seguindo em frente.

Hoje o que tenho a dizer é que mesmo que não tenha mais a chance de passarinhar com você aprendi grandes lições de vida e a mais importante de todas é de não fazer pré-julgamentos. Primeiro conhecer, conhecer....e continuar a não julgar mas sim tentar entender o porque e tolerar pois somos seres imperfeitos.

Obrigada Silvia Princesa por ter me dado essa oportunidade. O único problema agora é que tive que abrir mais uma caixinha no meu coração pra te colocar lá. E esse lugar agora é só seu💖 Fique com  Deus querida e seja muito muito feliz porque você merece!

Já está me imaginando em lágrimas né, pois acertou em cheio. Não é todo dia que a gente recebe um feedback honesto e verdadeiro desses.


E mesmo antes de ler esse feedback dela, escrevi isso no Facebook quando cheguei:

8 de novembro às 07:24
#Bomdia 🍃🌷😎
O destino tem umas coisas muito loucas. De repente por obra dele, vc se vê passarinhando com um pessoa que até então conhecia muito pouco. E descobre que essa pessoa é encantadora. No desenrolar da viagem de 3 dias e 1812 km parecíamos amigas de infância. De buraqueiras a espécies ameaçadíssimas, aventurando-se sob chuva, poças d'água intermináveis e muitos risos, encerramos ontem uma passarinhada mega feliz. Eu só tenho a agradecer essa amiga por ter me acompanhado nessa louca aventura com o guia e super amigo Cal Martins até Uberaba. Eu sinto que ganhei uma irmã, da qual me orgulho muito. Obrigada Leila Esteves. Espero poder repetir aventuras como essa muitas vezes.🐦🌷🍻😋💚🍃

E para finalizar esse assunto, vou deixar um poema de Bráulio Bessa - Do Lado Esquerdo do Peito (para Milton Nascimento)



Ah! Tá! Você entrou aqui para saber como foi a viagem, né? Então Vamos lá.

04/11/2018 - Domingo

Eu e Leila saímos de São Paulo depois do almoço e fomos direto para a Eco Pousada em Dourado, onde D. Ana, a proprietária nos atendeu muito cordialmente.


À noite lanchamos no Bar do João Coxinha, um lugar bem transadinho com chopp artesanal e tudo.


Fomos dormir e só lembro que o vento estava açoitando as árvores violentamente durante a madrugada. Entre o sono pesado e a lucidez eu pensava como ia estar o tempo na manhã seguinte.

Poucos dias antes, o amigo José Dionísio Bertuzzo havia me alertado sobre o risco de atolamento no local do bacurau, mesmo com carro 4x4. Agora pensa, meu Ruber (Duster) é 4x2. E como dizem por aí: segura na mão de Deus e vai.

05/11/2018 - segunda-feira

Acordamos 4:30h e, após um delicioso café servido pela d. Ana, fomos apanhar o Cal. Para não perder o costume, errei umas três vezes o caminho até a casa dele, e numa das vezes passei até em frente e não me dei conta.

Seguimos pra Itirapina, local que eu estivera outras vezes sempre com um calor infernal, de passar mal. Mas não dessa vez. Estava friozinho, até pedia uma blusinha. Um vento forte cortava o ar. Fiquei só imaginando se isso iria atrapalhar ou não o encontro com o primeiro dos nossos alvos.

Quando chegamos em Itirapina - Cal, eu e Leila

Eu estava torcendo para tudo dar certo e o papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis) aparecer dessa vez. Andamos pelo meio do cerrado e o Cal achou ter ouvido uma resposta do bichinho, porém nem sombra dele. Bateu uma sensação de déjà vu, que nem faz ideia.

Vai ver que era só um tico-tico-do-campo (Ammodramus humeralis) nos confundindo. Andamos por outras bandas e nada. Enquanto o Cal procurava o "pmc", eu e Leila, além das flores, clicamos outros bichinhos como o galito (Alectrurus tricolor), carcará (Caracara plancus), batuqueiro (Saltatricula atricollis), bico-de-veludo (Schistochlamys ruficapillus) e a guaracava-de-barriga-amarela (Elaenia flavogaster).

Aves em Itirapina

Flores em Itirapina

O Cal resolveu acreditar em seus ouvidos e seguir seus instintos. Retornamos ao local onde iniciamos, e após alguns minutos, quem apareceu? O "pmc", finalmente. Quase não acreditei, e de repente, entre um clique e outro, lágrimas desceram pelos meus olhos e eu comentei isso com o grupo. Só lembro do Cal, entre risos, virar pra mim e dizer: deixa pra chorar depois, se concentra nas fotos".

Foi o que fiz. E o bichinho, embora não tenha se aproximado pra uma foto de quadro, era muito mais lindo e menor do que eu tinha imaginado. E até cliquei ele numa florzinha, pena que tinha galhinhos na frente. 


papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis) - sem crop à esquerda e com crop à direita

Cara de felicidade depois de clicar o pmc

Objetivo atingido, seguimos nosso caminho até Uberaba onde o próximo lifer nos aguardava. No caminho nos divertimos nos postos de gasolina buscando red-ball-lifer, ou seja clique de passarinho em uma cidade para ganhar um pontinho vermelho no mapa pessoal do Wikiaves. Muito bate papo, risos e brincadeiras tomaram conta dos nossos espíritos durante os nossos deslocamentos. Viagem mais divertida impossível.

Chegamos em Uberaba e fomos almoçar num lugar super gostoso chamado Restaurante D'Familia. Ao final da refeição, descansamos em redes embaixo das árvores.

Eu by Leila Esteves

Eu e Cal by Leila Esteves

Eu e Cal checando as redes sociais by Leila Esteves 

Em seguida o Cal nos conduziu direto ao local onde fica o famoso bacurau-de-rabo-branco (Eleothreptus candicans), só que esse iríamos tentar ver apenas quando escurecesse.

O dia estava cinzento, com a estrada toda encharcada. O Cal era meu navegador e a Leila o "zequinha". *Sempre tive curiosidade de saber porque usavam o termo "zequinha" para designar o caroneiro nas trilhas de rally. Dizem que é por causa do macaquinho que ia escondido no porta malas do carro Mach 5, do desenho Speed Racer.

Poças d'águas enormes e assustadoras me deixaram apreensiva. Algumas eu passei sem medo, outras pedi arrego e retornei. O Cal baseado em sua experiência, ia me dizendo: vai firme, vai pelo meio, pelo canto direito, esquerdo, ou então, volta que não vai dar. Muitas vezes, descia do carro e caminhava pelas poças para ver como estava a profundidade e a firmeza. Eu fiquei orgulhosa de mim, porque o medo desses lugares assim sempre me assombrou, mas fui tirando de letra. Foi uma tarde muito intensa. 

Cal e Leila

De perdiz (Rhynchotus rufescens) fujona à ninho de coruja-buraqueira (Athene cunicularia), de cochicho (Anumbius annumbi) embaixo de chuva ao papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta) fotogênico, de galito (Alectrurus tricolor) bem distante à tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa) de encher o quadro, o dia foi passando. Muitos Sporophilas (cabloclinhos e parentes) pelo caminho ganharam nossa atenção. 


Passamos a tarde rindo e fazendo palhaçada, além de é lógico, ficar comendo muitas besteiras que compramos pelo caminho. Eu sempre digo, Minas é pra gente fazer regime de engorda, é muita coisa gostosa pra comer (ia dizer besteira aqui, mas me contive kkkkkkkk).

A chuva ora dava trégua, ora vinha com tudo, mas no final da tarde, fomos presenteados com um lindo arco-íris.

Um presente do céu (com o celular)

Um presente do céu (com a tele)
Cal, Leila e eu
Aqui tinha uma corujinha, ia ser "a foto", mas ela voou antes ... 

Só sei que quando anoiteceu (a câmera não foi acertada para o horário de verão nem a dona dela kkkkkkkkk) e nos dirigimos mais perto do local onde iríamos ver o segundo target da viagem, chovia muito e as poças só aumentavam, alguns lugares estavam intransponíveis, o carro rabeava, patinava e haja braço.


Deixei muito piloto de rally no chinelo (brincadeirinha). Durante o dia já era ruim, imagina o sufoco à noite. Mas quando você tem um super guia, com cartas na manga, é melhor não duvidar. Tudo sempre dá certo.

Foto by Leila Esteves

Ficamos rodando e o Cal procurando pares de "zoinhos" brilhantes no mato com a lanterna. E pimba, um par de olhinhos, e lá vai a gente correndo pelo mato cheio de morrinhos escorregadios, debaixo de chuva. E num é que havia um bacurau pousadinho num galho. Porém não era o Eleothreptus candicans. Era o curiango-do-banhado (Eleothreptus anomalus). Todo molhado e encolhidinho, fez pose bonita pra foto. Era lifer pra Leila e fiquei muito feliz por conseguirmos um bichinho tão calminho e próximo para clicar.

curiango-do-banhado (Eleothreptus anomalus)

Continuamos nossa saga e mais um par de olhos chama a atenção do Cal, parecia uma fêmea do Eleothreptus candicans, mas era outro Eleothreptus anomalus. No terceiro par de olhos, eu disse pro Cal, vou ficar no carro se for o E. candicans você acena com a lanterna e eu vou. A Leila concordou e não desceu também. Era só um bacurau-tesoura.

Roda, roda, roda, e o Cal resolveu passar num outro ponto que conhecia. E a gente molhada, suja de barro, cansada, mentalmente afetada (eu estava num ponto que confundia direita com esquerda). Resolvemos ficar no carro enquanto o Cal procurava o danado.

O combinado era o Cal fazer círculos com a lanterna. E lá estávamos nós duas no maior bate-papo, falando de criaturas, bonitinhos / ordinários, princesos e pacotinhos de amor, quando círculos luminosos se sobressaíram do meio do mato.

Pensa duas loucas correndo, cada uma com sua lanterna e câmera, pisando o mato cheio de buracos, morrinhos e muitos espinhos... eu juro, só vi isso na volta, porque na ida, eu parecia um zumbi disparado. Quase tomei um tombo feio, mas me equilibrei e parti disparada, transpondo a "trancos e barrancos" o que faltava para chegar ao ponto. Pareciam quilômetros intermináveis. Só pensava em chegar antes do bichinho empreender fuga.

E cheguei. Lá estava o bichinho, com sua cauda branca reluzindo na noite. Brilhando feito joia no escuro devido às gotas de chuva nas suas peninhas. Lindo, o mais lindo de todos, a meio metro do chão, pousado num galhinho. Paradinho, pronto pra ser clicado por Silvia Linhares e Leila Esteves. Fizemos até selfie depois de clicar o bichinho e conferir as fotos.

bacurau-de-rabo-branco (Eleothreptus candicans)

Eu e Leila e o bacurau-de-rabo-branco (Eleothreptus candicans)

Eu me senti agraciada. Procurei um superlativo de felicidade aqui pra descrever mas não há tradução para um momento desses. Só sei dizer que a sensação do suor sob a capa de chuva, o cheiro de chuva, do mato molhado ainda, a tensão de como configurar a câmera o melhor possível, o brilho nos olhos e o tremor das pernas ainda estão presentes quase uma semana depois.

Feliz com o resultado voltamos pra cidade onde paramos pra comer numa lanchonete já por volta de 23:30h. Eu estava tão passada que estacionei o carro mal e porcamente. Rimos muito disso. Até registrei isso. Em seguida fomos para o Hotel Camaro, local de atendimento prestativo e muito confortável. Dormi feito anjo.

Foi um dia tão intenso que não parecia que tínhamos saído de madrugada de Dourado. Parecia que estávamos passarinhando fazia mais de 3 dias.

Passa por todas as poças d'água do mundo e estaciona mal pra caramba... só eu mesmo kkkkkk

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e-Bird - Itirapina/SP 
e-Bird - Orlândia/SP 
e-Bird - Uberaba/MG 1 
e-Bird - Uberaba/MG 2 

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06/11/2018 - terça-feira

Acordamos cedo e, após o café, seguimos para Sacramento, onde o Cal sabia pontos do nosso terceiro alvo: o andarilho (Geositta poeciloptera). No caminho um quiriquiri (Falco sparverius) de encher o quadro animou o dia. A chuva cessara e em pouco tempo, o andarilho já estava no meu cartão. Eu não fiz fotão padrão Instagram, mas ficou super legal. Missão dada, missão cumprida, como disse a Leila.

No caminho três lindas curicacas (Theristicus caudatus), algumas noivinhas-branca (Xolmis velatus) e muitos pintassilgos (Spinus magellanicus) fizeram nossa alegria.


Demos um chego rápido no Parna da Serra da Canastra. Infelizmente nossas pretensões de explorar o Parna, talvez avistar um lobo-guará, foram abortadas devido a uma enorme cratera cheia de água, impossibilitando nossa passagem. O jeito foi estacionar e andar um pouco.


Nenhum passarinho se apresentou pra uma boa foto. Mas as florzinhas... ah! As florzinhas! Quanta poesia me inspiraram... E que paz!!!!

A Canastra é linda



Dali seguimos para a cidade de Conquista tentar um lifer para a Leila, o estrelinha-preta, que não apareceu. Fiz red-ball-lifer e fotos do Ruber Ramphocelus (Duster), que estava IMUNDO!

Lá no fundinho, Leila e Cal buscando o estrelinha-preta

Escrevendo meu nome no carro, by Leila Esteves

Dado o adiantado da hora pegamos rumo pra Dourado, só parando para comer e abastecer.

Chegamos no final da tarde e não havia vaga para nós duas na Eco Pousada, então dormimos no Hotel da Katia, tão bom quanto, embora ambos sejam bastante simples. Eu e Leila fomos ao Bar do João Coxinha, que era só virar a esquina, onde tomei um chopp, comi umas guloseimas e batemos muito papo. E ainda corujamos no caminho até o bar . kkkkkk

Uma corujona... qual a espécie?

Quando cheguei no hotel, tomei um banho quente, cai na cama e desmaiei.

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e-Bird - Sacramento/MG 
e-Bird - Conquista/MG 

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07/11/2018 - quarta-feira

Acordamos bem cedinho, tomamos café, pegamos o Cal (desta vez não errei o caminho) e fomos para Boa Esperança do Sul tentar um lifer da Leila, o socoí-vermelho (Ixobrychus exilis). Bichinho raro e difícil. Enquanto ela e o Cal aguardavam o bichinho responder e se mostrar, eu fiquei clicando os bichinhos ao redor. Fui clicando tudo que via e fiz uma listinha considerável.

A freirinha (Arundinicola leucocephala) e a maria-cavaleira-de-rabo-enferrujado (Myiarchus tyrannulus) vão até virar quadro de tão lindas que estavam. De quero-quero (Vanellus chilensis), coruja-buraqueira (Athene cunicularia) à picapauzinho-escamoso (Picumnus albosquamatus), nada escapou dos meus olhos e ouvidos atentos.


Enquanto isso o Cal e a Leila entraram no brejo em busca do socoí, e depois de um tempão, lá vem eles sorridentes, socoí-vermelho (Ixobrychus exilis) checked. Tão bom ver essa expressão feliz no rosto de alguém. Nos abraçamos e fomos rodar em outros cantos.

Cal e Leila atrás do socoí-vermelho
E olha a foto da Leila Esteves no meio dessa brenha toda que ela e o Cal entraram.

Em busca do suiriri-cinzento (Suiriri suiriri) e papa-lagarta (Coccyzus melacoryphus), encontramos um ninho de quiriquiri (Falco sparverius) no alto de um poste com dois "menininhos quiriquiri" nele. Foi o momento mais terno depois do ninho das corujinhas no primeiro dia.


Mas o show mesmo ficou por conta de duas seriemas (Cariama cristata). Bravas com a nossa presença na localidade, se inflavam toda e partiam em nossa direção, como se isso fosse nos assustar. Foi hilário demais. E rendeu boas fotos.


Retornamos à Dourado onde procuramos o papa-lagarta-de-asa-vermelha (Coccyzus americanus), lifer para a Leila também. Ele respondeu bem, mas não saiu da brenha, deu foto mais ou menos, mas deu.

Já na cidade, fomos levar o Cal em casa e aproveitamos para tomar um café oferecido pela mãe dele. Nem dava vontade de ir embora. Despedimos e picamos a mula, como se diz no popular. No caminho viemos conversando muito, parecíamos amigas de infância.

Paramos num Graal, após lancharmos, já na saída do posto, vimos umas coisinhas muito fofas. Uma família de corujinhas - coruja-buraqueira (Athene cunicularia). Lá fomos nós fotografar as corujinhas, o que sempre causava muita surpresa na Leila, cada vez que eu parava para isso, porque ela nunca imaginou que Silvia Linhares fosse capaz de parar para bichinhos comuns.



Pegamos um belo congestionamento em Campinas o que nos fez chegar um pouco mais tarde do que prevíamos em São Paulo. Ah! São Paulo, que amo apesar de tudo, embora seu trânsito me deixe o estômago revirado. Pronto. Carro sujo na garagem, pronto para o próximo crime. Ficará me aguardando até eu voltar da próxima viagem. Kkkkkkkkkkk

Congestionamento na Paulista, quase em casa...
Na garagem, conferindo os Km rodados
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e-Bird - Dourado/SP 
e-Bird - Santa Bárbara D'Oeste

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Termino com uma foto de borboleta que significa para mim leveza, liberdade e transitoriedade!!!!




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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

CE - Um pulinho ali em Paracuru pra ver "30R"

Lições de vida que aprendo durante minhas viagens.


Seguindo os conselhos de um grande jornalista e apaixonado incondicional da natureza, meu novo amigo Davi Abreu, de Fortaleza, vou continuar a escrever muito e sempre com o coração, porque quem se der ao trabalho de ler, vai conseguir enxergar bem mais do que um simples relato informativo de viagem. Vai me conhecer um pouco mais porque o que escrevo é o reflexo do que sou. Então vem comigo pra mais uma aventura letrada.

os "Humanlifers" como diz meu amigo Anderson Sandro de Xinguara/PA

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

PA - Carajás e suas lindas aves

Essa expedição para Parauapebas, região de Carajás, estava prevista fazê-la já fazia um bom tempo. Acho que desde 2016 quando recebi um convite de amigos e não tive como ir. Sabia que tinha bichos bacanas pra ver por lá, mas sempre vinham outros compromissos que impediam a sua realização. Aos poucos ela foi tomando corpo e finalmente aconteceu.


Todos que me conhecem sabe que eu adoro curtir três momentos de uma viagem: o antes, o durante e o depois. Desde os primeiros contornos, o planejar, o sonhar, e depois materializar tudo isso, até tratar as fotos e escrever o relato sobre o dia-a-dia da viagem.

É difícil falar de uma expedição sem lembrar os momentos que a antecederam. Essa viagem à região de Carajás/PA, que começou dia 02/08/2018, era tipo uma "viagem gezuismeodeozmesalva", sem roteiro predefinido, aliás sem quase nada definido, o que me angustiou até o último momento antes de entrar no avião. Cheguei a pensar em cancelar. Mas quem conhece minha teimosia, sabe que eu ia “pagar” pra ver. Ignorar, deixar quieto, "xápralá", é o que de melhor podemos fazer nessas horas. Tinha tudo pra não dar certo. Mas antes que você desista de ler, saiba que essa foi uma das melhores viagens que já fiz.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

PA - Expedição Mãe-de-taoca-arlequim - De Santarém à Itaituba no Pará

Embora com atraso, segue o relato, que estava escrito pela metade, sobre a "Expedição Mãe-de-taoca-arlequim",  realizada no período de 31/10 a 12/11 de 2017.  Em geral demoro 7  a 8 dias para finalizar um post de viagem, desta vez foram 7 ou 8 meses ... apenas...rs rs rs


mãe-de-taoca-arlequim (Rhegmatorhina berlepschi

Quando surgiu a ideia de passarinhar pelo Pará, a “moda” no meio era ir para Parauapebas, desejo que ainda irei realizar em 2018. Conversando com o amigo ornitólogo Pablo Cerqueira (Pinima Birding Brazil) , durante o Avistar 2017, falamos sobre o endemismo Belém e sobre Santarém/Itaituba. Sabe aquele friozinho na barriga que dá só de imaginar conhecer um lugar pouco explorado das nossas florestas, pois é, foi o que senti na hora. Pedrinhas de gelo pareciam saltitar atrás do meu umbigo. Minha câmera foi dominada por um assanhamento sem fim. Todo dia eu era obrigada a ouvi-la dizer: “E aí, mamis, decidiu quando vamos?” rs rs rs

sábado, 9 de junho de 2018

Como ser e viajar mais leve. Da teoria à prática.

Hoje quando terminava de arrumar mais uma mala de viagem, “viajei em pensamentos” ... passei, como num filme, pelos vários momentos de transformação que eu sofri com o passar dos anos. E isso se refletiu até no meu modo de arrumar mala para viajar. Meu coração ficou mais leve, embora o corpo mais pesado kkkkkk. Ainda bem que a mala acompanhou o coração.



Eu me recordo da época que eu ia viajar a trabalho (Caixa Econômica/MZ - Brasília), mesmo que fosse para ficar um dia, eu tinha que levar uma mala com pelo menos dois a três pares de meias finas, pares de sapatos extra, várias roupas que combinassem e um monte de tranqueira. As unhas, sobrancelhas, cabelos, tinham que estar impecáveis. Eu vivia estressada para dar conta de tudo. Com agenda de trabalho lotada, pouco tempo sobrava para diversão. O resultado foi um assustador AVCi. Hoje, felizmente, 99,9% superado.

domingo, 3 de junho de 2018

SP - Passarinhando com os amigos pós-Avistar 2018

Esse ano, como eu disse no post anterior, recebi quatro amigos em casa que vieram para participar do Avistar Brasil. A Jeanne Martins Nascimento (Cuiabá/MT), grande amiga e irmã de coração de longa data (nos conhecemos ano passado em abril, mas tenho certeza que essa amizade transcende encarnações, pois sinto que a conheço a muito tempo), o Gabriel Bonfá, capixaba de Linhares, que foi meu grande parceiro no 1º Birding Photo Challenge, promovido pela Reserva Natural Vale e os mineiros Luiz Fernando Matos (que hoje reside em Canaã dos Carajás/PA) e Fábio Morais Giordano (BeHagá) que eram amigos virtuais e se tornaram amigos na vida real desde então.

Para mim essa foi a foto da viagem toda. Tem coruja, lua, então tem poesia. 
A coruja e a lua
"A coruja despertou, cantou a beleza da lua na noite clara que se formou.
O dia era passado, passado também foi o seu amor, 
pois, a lua se havia minguado com medo de sentir dor. 
Pobre lua...Não sabe que a coruja lhe segue fase por fase, 
temendo que se esconda ou  fuja pelas esquinas que dobram ruas nas movimentadas cidades...
Mas a lua segue em sua sina rodando o mundo que roda também, 
Ilumina a noite e a todos fascina mas sua liberdade não dá a ninguém. 
Chora a coruja em seu canto noturno, pois, sabe que ama o amor que não tem..."(autoria: Aisha)

Minha missão pós-Avistar era acompanhá-los em uma passarinhada por alguns dos meus lugares preferidos do Estado de São Paulo. Preparei um roteiro com muito carinho e esmero para que vivessem momentos inesquecíveis. Troquei ideia com os guias, recebi indicações de amigos, pesquisei hotéis, estudei os trajetos e finalmente cheguei num roteiro factível e que pudesse encantá-los.

terça-feira, 29 de maio de 2018

SP - Avistar Brasil 2018

O Avistar Brasil é o maior encontro de observadores de aves das Américas, reunindo num só espaço ornitólogos, fotógrafos, ornitófilos, biólogos, enfim, todos aqueles que amam as aves e a natureza. Acontece uma vez por ano no Ibutantan/SP. Conta com diversas atrações: entre elas muitas lojinhas de produtos de interesse dos observadores, estandes com informações sobre destinos para passarinhar, workshops, palestras, cursos e atividades para todas as idades. Das treze edições participei de seis. Duas delas como palestrante solo. Nas demais com o quadro das Birding Ladies, onde conto com amigas para montar a apresentação.


O mais gostoso do Avistar é o reencontro com os amigos. Muitos dos que conhecemos só pelas redes sociais, acabam se tornando amigos de "carne e osso". Os três dias passam muito rápido, nem sempre conseguimos participar das atividades que nos interessam, já que muitas são simultâneas. Mas todos os momentos somam conhecimento e trocas. E é isso que conta.