domingo, 1 de abril de 2018

1° de abril - Dia da mentira - #sóquenaum

Hoje é um dia muito especial. Sim é comemorada a Páscoa! Feliz Páscoa para todos. Mas não é só por isso. É um dia que eu pensava que nunca chegaria. Que a minha lista de espécies de aves fotografadas ultrapassasse todas as barreiras que eu julgava impossível. 


Os 20 primeiros colocados no Wikiaves

É um dia que eu teria que fazer uma lista gigantesca das pessoas que me ajudaram a chegar aonde cheguei e agradecer um por um. Praticamente impossível. Por isso, sem incorrer em risco de esquecer ou desmerecer alguém, eu irei apenas mencionar os responsáveis pela chegada na reta final, ocorrida durante a última expedição que se encerrou na segunda próxima passada. Em breve essa viagem será minuciosamente relatada aqui no bloguinho.

Fotos feitas em Roraima e Amazonas
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De 08 até 18/Março/2018, eu percorri Roraima, guiada pelo grande Francisco Diniz, da Makunaima Expedições, que não mediu esforços para colocar 42 lifers na frente da minha lente, me dando a oportunidade de costurar com honras a bandeira daquele Estado no meu colete fotográfico. Em Caracaraí contamos com o apoio do guia local Paulo Gois, uma pessoa super prestativa. E o Francisco ainda me levou fazer um "country-lifer".


meus três coletes

Como foi a minha primeira vez em Roraima, ainda estava sendo possível encontrar muitas novidades e fazer uma quantidade expressiva de espécies exclusivas por lá. 

Já no retorno de Roraima, fiz um "pit stop" de 8 dias no Amazonas e fechei com o casal Vanilce e Luiz Fernando Carvalho, da Amazonas Birdwatching, um pacote específico para ver os bichos que compunham minha difícil lista de lifers. Sabia que sendo a minha quarta vez no Estado e tendo feito muitos lifers em Roraima, ia precisar dos esforços conjuntos do casal para encontrar e fotografar os complicados bichos que habitam aqueles biomas. 

E com isso obtive um número surpreendente de lifers. 23 para ser exato. Todos muito cascudos, como a Van gosta de dizer. Ainda bem que o casal não cobra por bicho cascudo e sim por diária. (ai, Silvia, num dá ideia kkkkk)

Nenhum dos 65 foi fácil. Alguns resultaram em fotos esplêndidas, outros em razoáveis borrões que, devido às condições extremas impostas pelas dificuldades na sua produção, não me envergonho de postar. Outros nem deram as caras, ou "mal" deram as caras ... kkkkk

É um resultado efêmero e torço por isso. Assim aumenta meu desafio e de todos que fotografam aves. Quem me conhece sabe que não viajo apenas em busca de lifers. Sim, também por lifers. Eles impõem objetivos e metas a uma expedição, direcionam os roteiros e os guias. 

Mas quem já me guiou pode dizer que não foi uma nem duas vezes que pedi para parar a fim de clicar um simples quero-quero ou uma corujinha-buraqueira. 

quero-queros em Boa Vista
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Só que é muito mais que isso. Viajo em busca de colecionar amizades, emoções, risos e alegrias na minha vida urbana um tanto quanto solitária. Eu espero que minha trajetória exitosa sirva de incentivo a todos os amigos e pessoas que amam a natureza e buscam viver suas vidas intensamente. 


Momentos de alegria durante a expedição Cascudos do Norte (RR e AM)

Para chegar aqui foi necessário muito estudo, planejamento, dedicação, disposição e superação, além de uma disciplinada poupança na Caixa (ter sido bancária por tanto tempo ajudou muito nesse quesito kkkk). 

E muita racionalidade na hora da tomada de decisões. Seja para escolher um roteiro ou decidir por esse ou aquele guia, levando em conta diversas premissas para que o custo x benefício fosse equilibrado. 

Dessa forma eu pude viver momentos incríveis dentro do Birdwatching. Desde apreciar a rolinha mais rara do Brasil até encontrar tão sonhadas aves como a jandaia-amarela ou o papa-formiga-de-topete

papa-formiga-de-topete (Pithys albifrons) e jandaia-amarela (Aratinga solstitialis)
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São incontáveis os momentos que senti os olhos cheios de água, o coração descompassado e acelerado e as pernas bambas. Também colecionei momentos de erros, dor, desespero e frustrações, que aprendi a superar e ainda me serviram de lição para driblar os episódios ruins da vida.

Enfim, hoje acordei "oficialmente" como a número um do Wikiaves. Sou a segunda mulher no Brasil a ocupar esse posto. Agradeço a todos (sem exceção) que estiveram ao meu lado, que torceram por mim, de corpo presente ou na forma virtual, por meio das redes sociais. E, principalmente, todos que me guiaram ou me deram suporte nesses anos todos. 

Cada bate papo, cada comentário, cada "like", serviu como uma xícara de café. Me deu ânimo e incentivo para ir sempre em frente. Dessa forma, todos, sem exceção, sintam-se abraçados por mim neste momento especial em sinal do meu agradecimento.


     


E por fim, um agradecimento mais do que especial ao Reinaldo Guedes, proprietário do Wikiaves, site que tanto adiciona à ciência quanto proporciona imenso conhecimento aos observadores de aves, permitindo que pessoas como eu atue como cientista cidadão.

E já vou deixando um recado, não perca o Avistar 2018, que começa na sexta dia 18 de maio no Butantã. Eu e as Birding Ladies teremos muitas histórias interessantes para contar.

Para finalizar um vídeo sensacional da amiga querida Keyla Fogaça, com uma música sobre a Amazônia.



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segunda-feira, 5 de março de 2018

A rolinha da esperança (Columbina cyanopis)

Desde que o ornitólogo Rafael Bessa divulgou seu fabuloso encontro ocorrido em junho de 2015 com a Rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis), espécie criticamente ameaçada de extinção e que ficou 75 anos sem registros e por isso já figurava como provavelmente extinta na natureza, fiquei esperando e sonhando com o momento em que eu iria registrá-la. (leia um resumo da história do Rafael aqui

Rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis)

Sabia que seria uma emoção muito forte, que ia demorar até que toda estrutura fosse montada para sua proteção, uma vez que era sabido que elas viviam num paraíso muito frágil. Após árduo trabalho, a SAVE Brasil (Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil) conseguiu adquirir a área onde as rolinhas vivem atualmente. Elas agora têm uma reserva com seu nome. Graças a uma parceria da SAVE Brasil com a Rainforest Trust, uma área de 593 hectares foi adquirida para proteger os campos rupestres, habitados pela espécie.


*(Atenção: todas as imagens desse blog são protegidas pela lei dos direitos autorais, não use sem permissão expressa - Do not use without express authorization - Protected images ©)

Eu descrevi o encontro com um pequeno poema, que resume a overdose de sentimentos que tomou conta de mim.
  

Ave da esperança

"Teus olhos me convidaram a te conhecer, a passear pelo azul mais azul de todos os azuis,
tão profundo como a cor do mar. 
Assim eu te encontrei, pequeno ser. 
No ar a magia do alvorecer, o perfume das flores e a pureza de todas as águas. 
Encanto de viver. 
Ave da esperança, meus olhos lacrimejaram, jorraram promessas, 
envolveram minha alma numa alegria sem fim...
Como num ensaio de paixão, meus medos naufragaram sem explicação...
Uma magia me contagiou, pura energia, emoção, comoção...
E com um grande salto no coração, cantei de alegria, 
fiz desse dia uma inesquecível poesia. 
Suspiro profundamente e aguardo a noite escura, 
enquanto vagueia a minha loucura, para meus olhos fechar 
e no macio do travesseiro com teus olhos poder sonhar!" SFL


Fotos da rolinha usadas na montagem do amigo Ciro Albano

Antes de prosseguir assista este vídeo compartilhado pelo amigo Eduardo Gomes contendo uma canção feita especialmente para a rolinha 
É DAQUI, BOTUMIRIM 🎶 música de Bernardo do Espinhaço, Denisar Mota e Robson Veloso 📹 imagens de Paulo T G Pinto, Antonio Pivanti e Eduardo Gomes 🎬 vídeo de Paulo T G Pinto, TICO TICO TV 🎖 Colaboraram: Prefeitura Municipal de Botumirim, Geisy Faria, José André Oliveira  www.TicoTico.TV


   

Mas vamos aos detalhes da viagem:

Sou apoiadora da SAVE, contribuindo com uma pequena anuidade para auxiliar nos custos de manutenção dos projetos de conservação. Os apoiadores são chamados de Amigos da SAVE. Periodicamente recebemos um e-mail informando sobre as ações da organização. 

Num desses e-mails, enviado em 18/01/2018, intitulado SAÍDA ESPECIAL PARA OS AMIGOS DA SAVE BRASIL - ROLINHA-DO-PLANALTO, a coordenação do projeto dizia assim:" 2018 é o Ano das Aves, como vocês já sabem. Vamos começar este ano então comemorando com uma passarinhada mais do que especial e exclusiva aos Amigos da SAVE Brasil? ...Após o lançamento do projeto junto à comunidade, promoveremos uma saída especial aos Amigos da SAVE Brasil para serem os primeiros observadores a terem a oportunidade de conhecer a rolinha-do-planalto. ... Aos interessados em participar desta atividade, por favor confirmem impreterivelmente até o dia 29 de janeiro..."

Eu nem li o anexo pra saber detalhes... eu apenas respondi:  "Eu confirmo minha ida."

Com os participantes definidos, um dos colegas criou um grupo no WhatsApp para trocarmos informações. A ansiedade ganhou nome e sobrenome ali, a maioria já se conhecia, mas novas amizades foram se formando ali e a partir dali. Combinamos voos, reserva de hotel, passarinhada extra, porque passarinheiro que se preze não se conforma em ir lá "só pra ver a rolinha"...

Arte by Eduardo Gomes com uma foto minha da rolinha, só acresci o "Eu fui"

A fim de aproveitar para conhecer melhor a região pedi a um amigo que estava envolvido no projeto e estaria nos guiando lá, o Bruno Rennó, se ele poderia esticar a guiada na região, e ele respondeu que não poderia e me encaminhou a outro colega, o Marcelo Lisita Junqueira. Contatei o Marcelo e ele me reencaminhou para o Lucas Alves, passarinheiro da região, que devido a uma impossibilidade de agenda me colocou em contato com o Manoel Freitas, que também por estar cuidando de uma exposição de fotos, me passou para o Eduardo Gomes. E assim, ganhei 4 novos amigos. Isso sem contar o João Marques e o Santiago, com quem fiz amizade por intermédio deles quando estive lá. Estava então "tudo definido e nada confirmado". kkkkkkk, A única certeza que eu tinha é que ia querer ver a rolinha.

22/02/2018 -  quinta-feira

Saí de São Paulo pela manhã na companhia da amiga Tietta Pivatto. Estava de penteado novo e já ia levando uma foto com o look da rolinha no celular.

Eu e Tietta no aeroporto 

O transfer do hotel nos aguardava no aeroporto de Montes Claros. Fomos direto para o Hotel Monte Rey, onde, chegando lá, contatei os amigos de Montes Claros. Um pouco depois da gente, chegaram os amigos Daniel Perrella e João Menezes. A amiga Claudia Rodrigues chegou também, ela viera sozinha de carro de Belo Horizonte.

Lucas me respondeu dizendo que não poderia nos acompanhar, mas conseguiu autorização para entrarmos no Parque Estadual da Lapa Grande onde seguimos eu, Tietta, Claudia, Daniel e João Menezes com o novo amigo João Marques, indicado pelo Lucas. Fomos muito bem recebidos pelos funcionários do Parque, que é belíssimo.

Tietta, eu, João Marques, João Menezes, Daniel Perrella e Claudia Rodrigues

Assim que chegamos pudemos ver bandos de Periquito-da-caatinga (Eupsittula cactorum). Fomos por uma trilha até uma linda caverna, onde avistamos de longe um gavião-de-penacho e como já era tarde voltamos para o hotel.

Periquito-da-caatinga (Eupsittula cactorum)

Chegavam nesse momento, oriundos da terra da rolinha, os amigos Albert Aguiar, Bruno Rennó, Carlos Gussoni e Marcelo Lisita. Lanchamos juntos no próprio hotel. Lucas Alves veio nos conhecer pessoalmente, junto sua esposa Stefania e a sua encantadora filhinha Letícia. Na cidade, porém em outro hotel, estavam os amigos Wagner Nogueira e Fernanda Fernandex.

o happy hour começando - foto by João Marques

23/02/2018 - sexta-feira

Acordamos cedo e seguimos para o Parque Estadual da Lapa Grande. A turma estava grande: eu, Tietta Pivatto, Cláudia Rodrigues, Eduardo Gomes, Albert Aguiar, Bruno Rennó, Carlos  Gussoni, Daniel Perrella, Marcelo Lisita, João Marques, João Menezes e Brad Davis. 

a turma toda

Conhecemos trilhas bem bacanas. Com a ajuda da galera consegui dois lifers bem legais, embora não fosse com fotão: Arapaçu-de-wagler (Lepidocolaptes wagleri) e Piolhinho-do-grotão (Phyllomyias reiseri). Ainda fiz fotos bonitas da Coruja-buraqueira (Athene cunicularia), do Arapaçu-beija-flor (Campylorhamphus trochilirostris), Rapazinho-dos-velhos (Nystalus maculatus) e Tico-tico-de-bico-amarelo (Arremon flavirostris), entre outros.


Enfim, chegara a hora de seguirmos rumo à Botumirim, a terra da rolinha. Nessas alturas, todo mundo já havia chegado. Nós fomos de ônibus fretado e os guias foram com o Albert, de camionete.


Eu, Vitor Valentini, Tietta Pivatto e Lorena Patrício

Na pequena Botumirim, ficamos hospedados na Pousada Campina da Serra, da simpática d. Marilda (tem wi-fi, viu?), lugar muito simples, porém ainda não preparado para receber tanta gente. No entanto sobrava acolhimento.

Pousada Campina da Serra

À noite no restaurante Trato Fino da Nezinha e do Nego, simpáticos moradores da cidade (lá tem um maravilhoso arroz com pequi, coisa que a-do-ro!!!), decidimos os grupos. Quatro grupos, quatro guias:

Grupo 1 - Marcelo Lisita Junqueira:
Eu, Tietta Pivatto, Fernanda Fernandex, Claudia Rodrigues e Lorena Patrício
Grupo 2 - Carlos Gussoni:
Marco Guedes, Odair Villela, Evaldo Cesari, Cassiano Terra, Francisto Tatit e Marco Antônio.
Grupo 3 - Bruno Rennó:
Adilson Marques, Alexandre Gualhanone, Wagner e Susana Coppede, Wilson Lucheti e Zé Edu.
Grupo 4 - Wagner Nogueira:
Vitor Valentini, Guto balieiro, João Menezes, Brad Davis e Daniel Perrella

O contato entre os grupos seria feito por meio de rádio. Nessas alturas o contato podia ser alienígena, espiritual, por sinal de fumaça, ninguém estava nem aí, a gente só queria ver a rola. Apesar da ansiedade que tomara conta de todos nós, o bom humor e as piadinhas corriam soltas.

Eu e Claudinha com uma geladinha pra relaxar

 A galera toda

Voltamos cedo pra pousada, e o cansaço me venceu. Dormi feito anjo. Sonhando com o dia seguinte. E no sonho eu só ficava pensando como seria o momento que a rolinha ia estar na minha frente.

Sonhando com a rolinha... 

24/02/2018 - sábado

Acordamos cedo e após o café da manhã, eis-nos à caminho do encontro tão esperado. O pessoal foi de ônibus e eu fui de carro com a Fernanda.

Teve que ser ônibus escolar, preparado para o barro, poças e buracos do caminho kkkkkk

Eu e a Fernanda

Era atormentada por dúvidas e as borboletinhas na barriga não paravam de pular. Parecia que estavam em pleno carnaval. Lembrei da minha adolescência, quando marquei meu primeiro encontro com um boy do colégio. Pensa num buraco no estômago! Sacoleja pra cá, sacoleja prá lá, nem selfie eu consegui fazer direito. Não sei como não vomitei, tamanha era a fissura dentro do mim. Bom, consegui chegar inteira na Reserva e segui com meu grupo, a pé, por uma trilha em busca da princesinha de olhos azuis.


Grupo do Marcelo, o mais bonito de todos kkkkkkk

Cantavam centenas de passarinhos, tem-farinha-aí, chorozinho-da-caatinga, choca-do-nordeste, guaracavas, periquitos, mas nada da rolinha.

O lugar...ah! o lugar, esse merece um capítulo só pra ele. É um jardim do paraíso, cheio de flores, muita água, um solo diferenciado de tudo que já vi. Confesso que nunca estive em nenhum lugar parecido. Ora me parecia um cerrado, ora uma campina, ora uma campinarana. Não sou expert nesse assunto, mas em se tratando de avaliar e registrar os detalhes da beleza do local, aí é comigo mesmo. E as flores, nossa!!! Desde as minúsculas até as do tamanho de uma mão. Sem palavras, acho até que cliquei mais espécies de flores do que de passarinhos. Ao amigo Manoel Freitas, de Montes Claros, agradeço muito por me descrever antecipadamente as belezas naturais da região, me incentivando a prestar atenção nas flores, como se eu já não fizesse isso sempre! rs rs rs 

o bioma

flores e mais flores

mais um pouquinho de flores

E falando em flores, olha só o que fazia  o time do Marcelo antes da rolinha dar as caras ...


Mas voltemos à rolinha. Quase 8 da manhã. De repente ouvimos a vocalização dela bem longe, aí o rádio toca. Nisso o Gussoni, próximo da gente, informa que eles estavam com uma na mira. Seguimos até lá o mais rápido que podíamos. Nos juntamos ao grupo dele. E assim que o Marcelo nos mostrou ela, mesmo longe, bem longe, disparamos as primeiras fotos para garantir.

a primeira foto

Depois conseguimos nos aproximar, melhorar as fotos e apreciar mais a sua beleza. Ficamos clicando a bichinha no poleiro, tentando nos aproximar o máximo sem causar estresse. Imagina, uma dúzia de pessoas tentando o melhor ângulo, buscando enquadrar ela no limpo. Mas num é que deu certo, todo mundo conseguiu uma boa foto da bonitinha.

as fotos mais bonitas daquela manhã histórica

Quer ver as fotos dela no meu perfil no site Wikiaves?
Então clique aqui

todo mundo clicando a rolinha 

eu clicando a rolinha - by Evaldo Césari.

Realmente ela é de outro planeta. É a delicadeza em pena. Demanda um cuidado maior no que se refere a sua proteção e de seu habitat. Oxalá a população local e o governo entendam isso e preservem o tesouro que tem em mãos.

Saí do mato, abracei o Marcelo e senti as lágrimas escorregarem pelo meu rosto. Não teve como segurar ...

Eu ainda em lágrimas, com Marcelo e Fernanda

Hoje se me perguntarem qual o momento mais marcante na minha vida de passarinheira, sem dúvida nenhuma foi este. Não existem palavras que definam os sentimentos numa ocasião como essa. Talvez a emoção do primeiro beijo na boca explique um pouco o que foi essa turbulência no coração, esse tremor nas pernas e essas lágrimas escorrendo pelo rosto.

olha só o tamanho do sorriso... nem cabia na boca...
Rolinha no cartão, isso não tem preço

Fomos informados que os outros dois grupos também haviam obtido êxito. O Albert ficava indo e voltando de um grupo para o outro, vendo se estava tudo nos conformes, uma vez que nem sempre os rádios pegavam. Obrigada, Albert, por tudo.

Eu e Albert Aguiar, o coordenador do Projeto Rolinha-do-planalto

Ainda percorremos algumas trilhas em busca delas, sem sucesso, no entanto fizemos fotos de outros bichos bonitos como chorozinho-da-caatinga (Herpsilochmus sellowi), beija-flor-de-garganta-verde (Amazilia fimbriata), bagageiro (Phaeomyias murina), guaracava-de-topete-uniforme (Elaenia cristata) e choca-do-nordeste (Sakesphorus cristatus), além de muitas flores e paisagens. Por volta de meio dia, eu resolvi retornar à cidade para almoçar.


Fernanda me deixou na pousada e voltou para buscar mais pessoas, de repente Albert lembrou que tínhamos que fazer a foto do grupo. Ele me ligou e combinamos que ele voltaria para nos buscar, para que eu e outros amigos não ficássemos de fora de tão histórica foto (essa vai para a posteridade: primeiro grupo de observadores formado para ver a rolinha).

a foto oficial (com a ausência de alguns participantes que voltaram mais cedo) by Albert via self-timer

Antes de voltar para a foto deu tempo de postar uma imagem da rolinha com o look preparado antes. Com direito a olhinho azul e tudo mais.


Retornamos ao mato por volta das 16 horas, quando a chuva que caiu após o almoço deu uma pequena trégua. A parte da tarde foi fraca, tivemos um encontro, mas em seguida voltou a chover. As bichinhas não estavam colaborativas.

Com chuva e tudo

Marcelo ainda procurou por todos os cantos, sem sucesso. Acredito que elas traspassam por um portal e mudam de dimensão, isso explicaria os 75 anos de desaparecimento. Só pode rs rs rs Retornamos à pousada, ainda assim, felizes feito crianças que ganharam o brinquedo tão desejado no dia do natal.

Marcelo buscando pelas rolinhas ...

"Os olhos perdiam-se ao longe, buscavam um tesouro,
deixando para traz a tempestade...
dando ao reencontro um gosto de novidade,
pequena columbina, onde você estaria?
Seu voo curto lhe denunciaria.
Eu e minhas vontades você confundiria,
Entre rir, chorar ou pular, nem tive tempo de pensar...
Mas foi ali, entre as flores se abrindo, palmilhando sobre as areias brancas,  entre águas cristalinas, que eu a avistei pela primeira vez.
Foi com muita alegria, que vi seus olhos turquesas minha vida enfeitar
E em seguida pude, em paz, apreciar o sol no horizonte se deitar." (SFL)

o horizonte botumirense

Voltamos pra cidade e fomos no Trato Fino jantar e comemorar o sucesso do dia. Vestimos a camisa pela rolinha. (camiseta com ilustração feita pela Lorena, aquela mocinha ao lado do Bruno de bermuda xadrez). Lógico que o Brunão, tendo que abdicar da indefectível camisa xadrez, tratou logo de providenciar uma bermuda kkkkkk

Wilson Luchetti, eu, Tietta, Claudia, Lorena, Bruno e Gussoni

o brinde

e o que não faltou foi história pra contar...

25/02/2018 - domingo

No domingo voltamos lá para ficar umas duas horas antes do retorno a Montes Claros. Infelizmente não consegui fotos bonitas.


a nova "religião" da Fernanda

Aprendendo com a amiga... kkkkkk

Já era hora de retornar para a pousada, só que eu não queria ir embora, queria ficar mais, muito mais. Por isso conversei com Albert e Marcelo no sentido de permanecer em Botumirim mais um tempo uma vez que minha passagem de retorno a São Paulo estava marcada apenas para o dia 28.  Se autorizado, eu poderia fazer novas tentativas no domingo e na segunda de manhã. A segunda à tarde estava reservada para o amigo Ciro Albano.

E durante a manhã ainda registrei outros bichinhos e muitas flores.

Arapaçu-de-cerrado (Lepidocolaptes angustirostris)

O pessoal foi embora e permanecemos eu, Claudia, Marcelo, Wagner e Fernanda. Lanchamos e descansamos no alto de uma pedreira, e pasme, tinha rede funcionando...Ah! Bendita rede, como você ajuda o tempo passar !!! rs rs rs

enquanto a rolinha não vem...

uns dormem, outros ficam à toa jogando conversa fora (foto by Marcelo)

na pedreira para ver se víamos a rolinha enquanto lanchávamos


E tinha rede...
E por fim, encontramos uma rolinha pousada e vocalizando. Conseguimos fazer fotos dela bem bacanas.

E deu melhoraifer de rolinha ... 
Fomos almoçar e comemoramos o achado. Chegando na pousada, logo que entrei no nosso quarto, tinha um bilhetinho de despedida das meninas, amei. Foi muito bom mesmo, Tietta e Lorena. 

Claudia, Wagner, Fernanda, Marcelo e eu "bebemorando"


Após o almoço eu, Albert Aguiar, Cláudia Rodrigues, Wagner Nogueira, Fernanda Fernandex, Marcelo Lisita, Brad Davis, João Menezes, Carlos Gussoni e Bruno Rennó seguimos até a Mata do Engenho no sítio do Sr. Gilson. É um lugar bem bacana, pessoal muito simpático. Ganhamos bolo de fubá quentinho e um delicioso suco de maracujá fresquíssimo pra arrematar o dia. 

Deu pra fazer umas fotinhos bem legais, no entanto, só de bichinhos comuns. Mas três eram municipal-lifer pra Botumirim: pia-cobra (Geothlypis aequinoctialis), piolhinho (Phyllomyias fasciatus) e vite-vite-de-olho-cinza (Hylophilus amaurocephalus), o que por si só garante a importância do registro dos bichinhos. E tem mais, eu nunca tinha visto uma ariramba se espreguiçar. Adorei. 

Na foto, suiriri, ariramba, vite-vite-de-olho-cinza e pia-cobra

a galera fazendo pose...quem vê... pensa...adivinha quem é o cara de camisa xadrez rs rs rs
Achou!!! Galera feliz e muito alto astral

...buscando passarinhos 

a casa do Sr. Gilson

Eu e a pequena Ana Lívia

Albert fazendo carinho no cavalo. Este até fechou o olhinho.

O Rander Felipe, filho do seu Gilson, voltando feliz com o binóculo do Marcelo a tiracolo. Esse é um dos momentos mais importantes da nossa jornada: encantar a nova geração, cooptando esforços futuros para a conservação.



No fim do dia, Albert e os meninos foram para Montes Claros, onde iriam pernoitar antes de seguir viagem até São Paulo.

26/02/2018 - segunda

O dia anterior teve um final de dia e começo de noite super lindo, estrelado e com lua.


Mas de madrugada desabou o mundo, atrasando nossos planos de passarinhar na Mata do Lobo pela manhã. Mas não desanimamos. Assim que a chuva deu trégua, nós seguimos para lá.

Claudia, Eu, Marcelo, Fernanda e Wagner

Fizemos fotos bonitas e algumas espécies vim descobrir depois que eram os primeiros registros fotográficos no Wikiaves para Botumirim.

arapaçu-verde, choca-do-planalto, enferrujado e formigueiro-do-nordeste

Municipal-lifer no Wikiaves pra Botumirim: arapaçu-verde (Sittasomus griseicapillus), choca-do-planalto (Thamnophilus pelzelni), enferrujado (Lathrotriccus euleri) e o belo formigueiro-do-nordeste (Formicivora iheringi).


espécies adicionadas por mim para a cidade de Botumirim no site Wikiaves

Passamos a manhã toda explorando essas belas matas. Voltamos mais de 13 horas. Almoçamos e Wagner e Fernanda partiram para o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu.

Passei uma mensagem para o Ciro Albano e ele me passou sua localização, pelos nossos cálculos, ele chegaria por volta das 17 horas. Então daria tempo do Marcelo levar eu e Claudia para ver mais uma vez a rolinha. Só que não. O Ciro estava hiper ansioso e chegou "voando baixo". Com seu assentimento, combinamos de ir todos juntos, eu, Claudia, Marcelo, Ciro e o casal de estrangeiros (fotógrafo Mike Dansenbaker e a observadora de aves Lee Hung).

E lá fomos nós, sob um lindo céu tingido de azul e nuvens brancas, ainda com sol.

Claudia, eu, Ciro e Marcelo

Ciro e seus guiados

Depois de um tempo procurando, não demorou muito e ouvimos a rolinha, seguimos até ela, que não decepcionou. Deu pra fazer foto padrão Instagram e capa de livro. E o Ciro ainda me zoou: "Bem que eu disse que aquele bando de guias que estava contigo antes da minha chegada era muito fraco". Em tempo: pura brincadeirinha, somos todos um bando de amigos loucos por aves e que se gosta muito.

a foto do Ciro e os seus guiados clicando a rolinha e a gente afastado aguardando
a foto da foto by Marcelo

Depois de ficar um tempo num poleirinho, onde fizemos fotaça, eis que ela desce ao chão e anda numa pocinha, nos levando ao delírio. O Ciro até chorou. Ficamos todos emocionados. Confira abaixo o making of feito pelo Marcelo do momento exato.






Caminhamos mais um tempo e vimos caboclinho (Sporophila bouvreuil) e bico-de-veludo (Schistochlamys ruficapillus), ambos lifer para o casal Mike Dansenbaker e Lee Hung. Ainda cliquei muitas flores e um lindo entardecer coroou nosso dia.


Vi um reflexo na água e pedi para o Marcelo me fotografar. Adorei o resultado.

Eu by Marcelo com a câmera dele

a foto de ponta-cabeça - by Marcelo com meu celular

Retornamos, fomos jantar e nos despedir da Nezinha e seu Nego. Ciro seguiria de volta para a Bahia e eu e Cláudia para Montes Claros. Infelizmente peguei uma gripe com inflamação de garganta e não pude tomar minha última cervejinha em Botumirim.

De Ciro Albano para Fernanda Fernandex

Comemorando a rolinha uma última vez 

27/02/2018 - terça-feira

A viagem até Montes Claros foi bem tranquila, íamos voltar de ônibus, mas Claudia conseguiu com d. Marilda (da pousada) um rapaz pra nos levar de camionete. Almoçamos no hotel e ela retornou pra Belo Horizonte. Eu dormi a tarde inteira, não passarinhei como gostaria e à noite fui encontrar com os meninos: Lucas Alves, Eduardo Gomes e acabei conhecendo o Santiago.

Eles me alçaram a membro e "dinda" (madrinha) do Clube dos Observadores de Aves Norte de Minas, o que me deixou muito envaidecida. Ô turminha boa demais da conta, sô! Me senti mineira nessa hora. Pena que nessa noite nem o João Marques nem o Manoel Freitas puderam comparecer.



28/02/2018 - quarta-feira

No dia seguinte, voltei pra casa, carregando imagens na câmera e no coração daqueles anjinhos de olhos azuis. E muitos novos amigos. Tem melhor que isso?

Pensando cá com meus botões, lembrei da lenda da Phoenix. A vida longa da fénix e o seu dramático renascimento das próprias cinzas transformaram-na em símbolo da imortalidade e do renascimento espiritual.

A crença na ave lendária que renasce das próprias cinzas existiu em vários povos da antiguidade como gregos, egípcios e chineses. Em todas as mitologias o significado é preservado: a perpetuação, a ressurreição, a esperança que nunca têm fim.

Acho que nossa rolinha é nossa fénix e torço para que aquele ser minúsculo, doce e belíssimo possa continuar renascendo, não das cinzas, mas da esperança e fé dos homens de bem. E que ela supere todas as malvadezas dos humanos e consiga sobreviver por milhares de anos. Um viva aos de bem que estão auxiliando essa delicada ave a sobreviver.


Finalizando, quero expressar os meus agradecimentos a todos aqueles que, de alguma forma, permitiram que este sonho se concretizasse.

Não sei se as palavras serão suficientes e significativas de modo que eu posso agradecer da forma merecida. Mas é com todo o carinho do meu coração.

Obrigada Rafael Bessa, equipe da SAVE (em especial, Albert Aguiar, Marco Silva e Marcelo Lisita Junqueira), e todos os amigos que estiveram ao meu lado nas horas que estava completamente ansiosa ( ), na hora que eu me emocionei e chorei (), nas horas que reclamei do galhinho na frente  (), nas horas das milhares de selfies que eu pedia pra fazer com todo mundo( ) e, principalmente, nas horas de muitos risos e alegria. ( )

Vocês farão parte da minha história, para sempre. Obrigada por tudo! Olhando pra trás, jamais  imaginei que viveria isso que vivi nesses últimos dias. 

Deixo aqui um poema sobre as aves que vi em algum lugar da internet... 

"Era uma vez, quando as mulheres eram pássaros, havia o simples entendimento de que cantar ao amanhecer e cantar no crepúsculo era curar o mundo através da alegria. Os pássaros ainda se lembram do que esquecemos, de que o mundo deve ser celebrado". (Terry Tempest Williams)

Bom, aposto que, se você leu até aqui, está se perguntando como faz pra ir ver a rolinha. É só ler o quadro abaixo. As rolinhas tem uma equipe de anjos que cuidam dela. Sim, existe uma equipe multidisciplinar da SAVE, que trabalha em prol da sobrevida das bichinhas e conservação do seu frágil habitat. A SAVE adquiriu a área onde a rolinha se encontra, que em breve será transformada em Parque Estadual, oxalá seja muito em breve mesmo. Eu espero que aqueles que forem em busca de ver e registrar esse minúsculo ser tenham em mente que é preciso muito respeito, ética e cuidado devido à fragilidade da ave, seu estado crítico e seu ambiente altamente delicado. Só assim seus descendentes poderão ter o mesmo privilégio que eu e essa turminha.

Tá esperando o que... clique aqui e se torne um amigo da SAVE. Demorou!