quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A saga da sanã-de-cara-ruiva (Capítulos I, II)

Capítulo I - Quando você tem tudo para se sentir frustrada, só que não...

Um amigo seu, guia muito competente, descobre e registra uma ave super rara, em extinção e com poucos pontos registrados no Brasil. Você fica sabendo e resolve ir vê-la. Chama sua amiga para ir junto. Sabíamos que seria uma empreitada difícil, mas não impossível.

sanã-de-cara-ruiva (Laterallus xenopterus

21/03/2016 (segunda-feira)

Eu e a amiga Viviane de Luccia saímos de São Paulo na segunda pela manhã. Chegamos em Dourado no meio da tarde, com um calor pra não deixar Pantanal nenhum com ciúmes. Encontramos o amigo e guia Cal Martins, e lá fomos nós pro meio do brejo tentar ver e fotografar a sanã-de-cara-ruiva (Laterallus xenopterus). Ela vocalizou algumas vezes, mas não se aproximou, atribuímos à excessiva temperatura. Olhamos os dois ninhos, e não havia mais nada, as sanãzinhas já haviam se mandado com suas mamães para o meio do mato, sabe se lá aonde. Bom, tínhamos o dia seguinte. Seria mais certo encontrá-las nas primeiras horas da manhã.

22/03/2016 (terça-feira)

Todas animadas, 5:00 já estávamos de pé, prontas para ir atrás das princesinhas do brejo...Tchoc tchoc tchoc, faziam nossos pés chafurdando na lama do brejo, sumindo por entre as infindáveis poças e capins. Minutos depois, que pareceram uma eternidade, lá estávamos nós posicionadas aguardando para ver pelo menos o vulto de uma sanãzinha. Chamadas por play-black, uma delas responde bem pertinho, testamos a luz, fotometramos e nos posicionamos o melhor que podíamos. Eis que os primeiro movimentos no mato ao nosso lado direito revelam sua pequenina presença. Coração na goela, respiração presa, camisas ensopadas de suor, câmeras em posição, dedos em riste, era só esperar ela aparecer e disparar...e...

...e uma intrusa veio pelo lado esquerdo e espantou nossa princesinha...ah! Sanã-carijó, nem imagina a vontade que me deu de colocar você na panela. Por duas ocasiões a carijó fez a nossa cara-ruiva desaparecer nas entranhas do brejão. 

sanã-carijó (Porzana albicollis)

Tenta aqui, tenta ali, outro ponto, mais pra lá, mais pra cá. Sol subindo no horizonte, calor insuportável, insetos alados insanos por degustar um tiquinho do nosso sangue e... nada! Esgotadas todas as tentativas naquele local, decidimos ir para outro ponto, um pouco distante dali. Nada, nem uma resposta...será que a temporada acabou e elas foram embora? Como não existe muita informação disponível, ficou difícil prever o que podia estar acontecendo. 

Se mudássemos nossos compromissos podíamos ficar mais um dia. Voltamos para a Pousada e após alguns telefonemas, decidimos pernoitar mais uma noite e tentar mais um pouco. Ligamos para avisar o Cal, que estava dando palestras para crianças no âmbito de um projeto maravilhoso. Cal pediu que passássemos por lá que as crianças queriam nos conhecer. Tiramos um soneca até a hora combinada. O famoso sono da beleza. Depois seguimos para nos encontrar com o Cal e as crianças. Foi emocionante. Fizeram perguntas para nós duas, quiseram tirar fotos com a gente. Enfim, trabalho com crianças sobre a natureza sempre me deixa mexida por dentro. Aciona meu "modo manteiga".
 
A meninada, eu, Cal e Viviane
Cheias de energia, resolvemos tentar de novo. O caminho de lama no brejo já estava bem conhecido e batido por nós...já sabíamos até onde se apoiar para não afundar, além do mais, a fim de prevenir quedas, o Cal me ajeitou um cabo de vassoura para servir de apoio. Excelente ideia. Uma vocalização ali, outra acolá, e nossas esperanças aumentando. 

Só que nada! Já escurecendo, desistimos. No retorno ao carro, meio no lusco-fusco, uma linda fêmea de pica-pau-de-topete-vermelho (Campephilus melanoleucos) nos proporcionou um delicioso espetáculo, batendo no tronco como fazem os machos da espécie. 

pica-pau-de-topete-vermelho (Campephilus melanoleucos)
Após observar esse comportamento e registrar um bacurau (Hydropsalis albicollis), retornamos para a pousada e saímos comer uma pizza. Uma das melhores pizzas que comi nos últimos tempos. Pizzaria Ki Delícia, guarde esse nome, é uma delícia mesmo.
 
bacurau (Hydropsalis albicollis)
23/03/2016 (quarta-feira)

Certas de que era nossa última chance, pelo menos por enquanto, acordamos novamente bem cedo e lá fomos repetir tudo de novo. Havia chovido de noite, e o brejo estava com mais água. O Cal todo preocupado, pois queria muito que a gente visse a bichinha, nem que fosse fugazmente, não mediu esforços. Tenta aqui, tenta ali, uma resposta longe, e lá vamos nós tentar nos aproximar. 

Cal e Viviane posicionados
Numa dessas o Cal desceu para ver se ela estava próxima de um ponto legal e a Viviane resolveu cortar caminho até o ponto. Eu ia logo atrás dela com minha bengalinha improvisada. Quando ia tocar o chão com ela, o que eu vi me fez quase parar de respirar. A Viviane acabara de passar por cima de uma cobra, sorte que ela não  pisou, nem eu. Consegui parar a tempo e quase sem voz, disse: "Ups, tem uma cobra aqui!" O Cal veio correndo e disse, é uma cascavel... A bichinha quietinha, enrolada que estava ali ficou, acho que mais assustada que a gente. Ficamos fascinadas por ela, fotografamos e tudo o mais. O Cal pegou meu cabo de vassoura e a retirou do caminho com calma, ela desapareceu rapidinho por entre o mato, acho que feliz da vida por ficar longe daqueles humanos esquisitos e nós dela.




Cascavel

O sol já havia subido, o calor pegava forte e a princesinha nada...ainda tentamos vê-la num outro ponto, mas não foi possível. Mesmo assim, levei um pouco das belezas do local no meu cartão de memória.



acauã (Herpetotheres cachinnans)

Levamos o Cal para a casa dele, nos despedimos, e voltamos pra casa. Um sentimento estranho se apossou de mim. Havia uma certa frustração por não ter sequer visto a bichinha. Por outro lado, foi uma viagem tão gostosa, tão cheia de companheirismo, de tranqüilidade, que não tinha porque reclamar. Passarinhos, a gente sempre terá oportunidade de ver em algum momento, agora renovar a amizade, ah! Isso não tem preço! Obrigada Viviane e Cal, pela deliciosa companhia. E Cal, obrigada por insistir e não nos deixar desistir. Ainda virão muitas aves para a gente festejar.

Fim do primeiro capítulo!


Capítulo II - Quando você repete todo o roteiro e as coisas acontecem...

Em julho o Cal havia me informado que a bichinha tava dando mole de novo. E eu não conseguia tempo para ir vê-la, pois estava com viagens uma atrás da outra. Em outubro eu sabia que teria algumas janelas para ir vê-la. Sete meses se passaram e muitos amigos conseguiram fotografar a sanãzinha. Então eu e o Cal agendamos. Infelizmente a amiga Viviane não pode me acompanhar. O meu amigo Marco Silva pediu para ir junto e lá fomos nós.

17/10/2016 (segunda-feira)

Segunda-feira logo depois do almoço, lá vamos eu e o Ruber Ramphocelus (meu carro vermelho-sangue) apanhar meu amigo Marco Silva na SAVE em Pinheiros. Saímos um pouco atrasados, o que foi lógico, pois eu errei o caminho umas três ou quatro vezes. Sim, eu uso GPS, mas meu cérebro é meio desbussolado eh eh eh (não chego a confundir esquerda e direita como um certo amigo, mas entro sempre no lugar errado ou passo direto o que é pior ainda kkkkkkkk). 

Chegamos em Dourado no fim do dia, apanhamos o Cal e fomos dar uns giros pelo mato. O primeiro desespero e barbeiragem da "pessoainha" aqui tem que ser contado. Fui tentar fotografar um curió e a câmera nada de disparar...Só um aparte, eu uso ela no modo total silencioso, nada de avisos sonoros. Desesperada, quase chorando, tiro bateria, desconecto lente, uma, duas, três vezes, olho configurações e nada...E o pior, desta vez não levei câmera reserva. Aí o Cal falou, "olha, tem uma luz piscando na frente dela". Dã!!!! Era o self-timer de 10 segundos ligado. A última vez que usei foi em casa para registrar minha nova cor de cabelos...Fica a dica: por mais experiente que você seja, não esqueça de verificar o óbvio, pois errar é humano, esquecer é mais ainda...kkkkkkkkkkkkk. Resolvido o "problema", partimos pelo mato afora, ou seria mato adentro?

O Cal, sempre muito competente e explorador nato, descobriu um novo ponto da sanã. Ela cantou a um metro e meio da gente, no meio do mato fechadão. O Marco pirou só com o som. Mas como não havia um corredor, ela não se mostrou. Fiquei com a sensação de "déjà vu" (já visto) ou melhor "déjà vécus" ("já vivido"). Como já não havia mais luz, nem insistimos. O Cal preparou um corredor para o dia seguinte, caso o ponto onde ela estava aparecendo não desse resultado.

Já escurecendo partimos em busca de outros bichos que eram objetos dos nossos desejos. A saracura-lisa (Amaurolimnas concolor) e o joão-corta-pau (Antrostomus rufus). O Cal se embrenhou pra ver se encontrava a saracura num poleiro, mas a arredia ave não permitiu aproximação. Ficou para uma próxima. Saímos em busca do joão-corta-pau. 

No primeiro ponto, outro "déjà vu". Ele cantava, cantava, mas embrenhado numa cortina verde intransponível, e de repente, sumiu mato adentro. Seguimos em frente, já sentindo as primeiras gotas de chuva, oriundas de um dia extremamente quente. O Cal ouviu e ao invés de tentar atrair o bicho pra borda, entramos na mata atrás dele. Pimba! Pousadinho, calmo, pedindo para ser fotografado. Há anos venho tentando fotografar esse bichinho, icônico para mim. Desta vez obtive sucesso, graças aos esforços e competência do amigo e guia Cal Martins, que nos colocou a poucos metros dessa belezura. Tão perto a ponto de ter que reduzir o zoom da lente 100-400 mm pela metade.

João-corta-pau (Antrostomus rufus)
João-corta-pau (Antrostomus rufus)
Primeiro dos objetivos dessa viagem estava cumprido. Começou a chover, mas eu sabia que no dia seguinte o tempo seria bom. Dormimos com o cheiro e barulho de chuva.

18/10/2016 (terça-feira)

Acordamos cedo, tomamos café, apanhamos o Cal e seguimos para o ponto em busca da rara sanãzinha. Sim era o mesmo ponto dos dias 21 e 22/03. Aquele lugar difícil de andar, mais alagado do que nunca, devido à forte chuva noturna, mas com maiores chances de foto boa. Por volta das 6h00 horas já estávamos lá, lembrando que desde o dia 16/10 é horário de verão... 6=5. Colocamos o blind, nos posicionamos e nos preparamos. 

... amanhecendo o dia...

E ... nada...nem um pio...que desespero...será que não ia conseguir de novo? Respira e conta até 9.999. Mas relaxa, que ainda tem história.

Resolvemos mudar de ponto. No caminho, ainda fiz uma bonita foto do arredio-do-rio (Cranioleuca vulpina).
 
arredio-do-rio (Cranioleuca vulpina)
E lá seguimos para o ponto da tarde anterior. Chegamos lá quase 7h30 da manhã. Já a postos, blind instalado, play-back e muita expectativa. Enquanto esperávamos, observávamos encantadoras tesouras-do-brejo (Gubernetes yetapa), um namoro de beija-flor-de-bico-curvo (Polytmus guainumbi) e belas borboletas. Isso nos distraia da angustiante espera. 


tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa)
beija-flor-de-bico-curvo (Polytmus guainumbi)
tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa)
Começamos a ouvir duas sanãs vocalizando ao redor da gente. Tão perto, mas tão perto, que parecia que a qualquer momento iriam passar por debaixo das pernas da gente. Blind? Pra que? Uma delas vocalizou a menos de dois metros nas nossas costas...como se tivesse "zoando" da gente... mas sempre embrenhadas...

...e as horas passando...

Eu me recordo de estar com o pensamento abstraído, desejando ardentemente que ela me desse uma única chance...e deu...de repente, estava completamente distraída e ela atravessou o tunelzinho na frente dos nossos olhos, nos deixando sem ação. Sabe aquele verbo-palavrão que começa com p e termina com u...sim isso mesmo, saiu uma baita palavrão dos meus doces lábios...Mas a espera e a paciência é tudo, poucos minutos depois, lembrando que já eram 9:04:16h, ela apontou a cabecinha no túnel. 

sanã-de-cara-ruiva (Laterallus xenopterus
Clic clic clic, foco meia boca, zoom reduzido pra ter toda a visão do buraco, mas vamos que vamos. E na rapidez de um raio (durou exatos 2 segundos) ela atravessou e embrenhou de novo. Mas curiosa que só, ainda voltou mais duas vezes passando muito rente ao começo do túnel, dificultando a visualização. Enfim, devidamente registrada. E pensa em três sujeitinhos extremamente felizes... sim ... nós estávamos com sorrisos de orelha a orelha ...   
 
sanã-de-cara-ruiva (Laterallus xenopterus
sanã-de-cara-ruiva (Laterallus xenopterus

Esse bichinho é ameaçado de extinção. Não foi fácil. Graças aos conhecimentos e talentos do amigo Cal Martins, pude fazer essas fotos, não são as melhores fotos do mundo, mas a satisfação de ver a bichinha sob a mira da minha lente, foi imensa. Ela é L-I-N-D-A !!!!!!
 
sanã-de-cara-ruiva (Laterallus xenopterus
Bom, objetivos da viagem atingidos, resolvemos comer salgados ao invés de almoçar e aproveitar a tarde em Itirapina. E lá fomos nós, com vistas a encontrar o papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis). Eu amo o cerrado de paixão, é meu bioma preferido, mas ô lugar quente e seco. Andamos um bocado atrás do bichinho, sob um sol escaldante, mas nem sombra. Nem sombra literalmente, nem dele, nem para refrescar a cabeça. Estava clicando um bico-de-pimenta (Saltatricula atricollis) e senti meus braços afrouxarem, minha vista turvar e minha cabeça rodar. Insuportáveis 43°. Hora de voltar e ligar o ar condicionado do carro.

bico-de-pimenta (Saltatricula atricollis)
No carro, já recuperada do forte calor, decidimos dar uma passadinha em Ribeirão Bonito. Dois bacuraus-norte-americano (Chordeiles minor) nos esperavam para um clique...e de brinde um casal bastante agitado de suiriri-de-garganta-branca (Tyrannus albogularis) fez festa para as nossas lentes.
 
bacurau-norte-americano (Chordeiles minor)
bacurau-norte-americano (Chordeiles minor)

suiriri-de-garganta-branca (Tyrannus albogularis)
suiriri-de-garganta-branca (Tyrannus albogularis)
Deixamos o Cal em casa, onde um cafezinho delicioso servido pela mãe dele me reanimou totalmente e me deu forças para fazer os 300 km de volta pra casa. No caminho de volta, um belo temporal e muitas árvores caídas ao longo da estrada fizeram eu vir bem devagar, mas sossegada, cansada e muito feliz.
 
Retorno com chuva, eu e o Ruber, by Marco Silva
Pronto! Metas realizadas com sucesso, termino a saga da sanãzinha, agradecendo os preciosos amigos que participaram do Capítulo I e II comigo, Viviane e Marco Silva. Um destaque especial ao meu querido amigo Cal Martins, que além de amigo é um guia excepcional, do tipo que gosto, que usa play-back com moderação, não abusa dos bichinhos e ama as aves acima de qualquer coisa. Quem ama protege. Até uma próxima.

Cal Martins, Eu e Marco Silva by "Sorria"
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3 comentários:

  1. Uma bela história. Parabéns Silvia e a todos os participantes dessa saga.

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  2. Amiga, vc é muito danada! Que memória é essa, pra lembrar de todos esses detalhes? Tô muito feliz de vc ter conseguido dessa vez! Parabéns! Feliz também de ter participado dessa saga! Pena que foi só do primeiro capítulo..sniff... O segundo rendeu bastante heim? Até a próxima aventura, companheira!

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