sexta-feira, 8 de julho de 2016

Canastra - Lá vem o pato, pataqui, patacolá. Quá-quá

23/06/2016 (quinta-feira)

No dia 23 eu e o amigo Norton Santos resolvemos ir ver o pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) na Serra da Canastra. Pegamos estrada o dia todo. E eu e o Ruber Ramphocelus (meu Duster) mandamos ver. No caminho apanhamos o guia e amigo Geiser Trivelato, que mora em Jacutinga/MG. Ficamos hospedados no Hotel Chapadão da Canastra em São Roque de Minas, lugar muito legal da nossa amiga Renilda Dupin. À noite jantamos um delicioso surubim com queijo canastra no Recanto do Surubim, cujo prato estava fazendo parte do Festival Gastronômico do Queijo Canastra. Delicioso. Ainda passamos no supermercado para comprarmos lanchinhos para o dia seguinte.

Geiser, eu e Norton
24/06/2016 (sexta-feira)

Acordamos cedo, dia lindo, frio mas com muito sol se anunciando. Tomamos café numa padaria que abre às 6 horas da manhã e seguimos para o PARNA Canastra. 


Após esperar o portão abrir fomos direto para Casca D’Anta, parte alta. Mais ou menos direto, porque havia muitas coisas lindas no caminho e um luz fenomenal. 

galito (Alectrurus tricolor)
pomba-galega (Patagioenas cayennensis)
tico-tico-de-máscara-negra (Coryphaspiza melanotis)
Destaco a gentileza e simpatia dos guarda-parques na Portaria 1, Senhor Jairo e Senhor Gaspar, que nos atenderam na chegada nos dias que estivemos lá.
Portaria nº 1
Infelizmente, o Parque só abre às 8 da manhã e demora-se uma hora, pelo menos, pra chegar no hot point. E na mesma hora chegam juntos os turistas com cestas de piquenique, falando alto, com som ligado. Poucos são os que vem realmente curtir o sabor da natureza. A maioria é pura farofagem para fazer "selfie". E, no final do dia, quando chega perto da hora mágica de fotografar, você tem que correr para sair, pois o parque fecha às 18 horas.

Antes tivéssemos uma documento instituído como nas UC em São Paulo, que permitem a entrada e saída em horário especial dos observadores de aves (PORTARIA NORMATIVA FF/DE Nº 236/2016), Portaria esta que dispõe sobre procedimentos para realização da atividade de Observação de Aves nas Unidades de Conservação administradas pela Fundação Florestal. 

Com isso, ficamos sujeitos a fotografar em horários que nem sempre são próprios para registrar as aves. Mesmo assim, percebe-se que o Parque é muito bem cuidado e um dos mais bonitos que já visitei. 

Além do pato, a gente também queria ver outros bichinhos e principalmente o lobo-guará, mas nos contentamos em ver uma manada de veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus).


Chegando na cachoeira, montamos nossa campana e ali permanecemos. Fizemos vigília de quase 7 horas, com direito a lanche frio e água, banquinho e blind e MUITA PACIÊNCIA. E a vigília nos custou o dia todo e nada do pato. 


De chuva de formigas gigantes caindo da árvore ou subindo na gente, nos lanches, no equipamento, a cochilo sentada no banquinho, assim o dia se passou. Toda hora medíamos a luz onde a gente esperava que o bendito pato aparecesse e NADA, nadica de nada.


Com o pensamento devaneando, olhávamos por onde ele deveria aparecer e nem um risquinho na água. Só lembro da gente brincar "foca no pato, foca no pato" e era essa imagem que me vinha na cabeça.

25/06/2016 (sábado)

Dia seguinte, mesmo esquema. Amanheceu nublado e muito frio. Neblina a toda prova. 


Cheguei a prometer que iria (e ainda vou) beijar a estátua do São Francisco na boca, caso o "pato-fanfarrão" aparecesse. A estátua fica no começo do parque na parte alta, mas como eu só fotografei o pato na parte baixa, indo embora pra casa, fica aí a promessa em aberto. Foto abaixo do amigo Flávio Guglielmino.

Foto by Flavio Guglielmino
Na portaria, enquanto aguardávamos o portão abrir, com o estômago cheio de borboletas pulando, ficamos clicando uns bonitinhos que ficam por lá esperando migalhas de pão ou biscoito. Tinha até um belo roedor fazendo pose.

Eu clicando dois bicos-de-pimenta (Saltatricula atricollis) - por Norton Santos
bico-de-pimenta filhote (Saltatricula atricollis)
bico-de-pimenta (Saltatricula atricollis)

Mas nada do pato. Quase surtei. Achamos que muito provavelmente o casal visto estava chocando, pois é comum patrulharem o seu território até o poço todos os dias e nesses dois dias nem voando passaram.

A pedra do pato
Tédio total, com T maiúsculo. Uma coisa engraçada é a forma como o nosso cérebro administra o tédio. Eu, que tenho o espírito mais inquieto que conheço, nos momentos que ficava sentada, fotografava com o celular (que não tinha sinal nenhum), fazia "selfie" da minha "cara de copo d'água morno", achava até folhinhas estranhas ao redor para fotografar.

Enquanto o pato não vem... 


Quando ia ao banheiro, fotografava todas as florzinhas e passarinhos que encontrava pelo caminho. Fome já nem tinha mais, dá lhe comer besteira para não deixar a pressão baixar.






bico-de-veludo (Schistochlamys ruficapillus)
maria-preta-de-penacho (Knipolegus lophotes)
E sábado é dureza, começam a chegar pessoas, que se aproximam e sem mais, perguntam o que estamos fazendo. Lógico chega um bando de gente "normal" e vê uns "alienígenas" camuflados, focando num sei lá o quê, óbvio que querem saber de que mundo viemos e porque estamos ali. 


Lembro que uma senhora se aproximou de mim e perguntou o que eu fazia. Expliquei com a maior paciência do mundo, que esperava um pato, que ele era raro e só tinha ali, que vim de longe pra fotografá-lo, mas que não tinha tido sorte. Aí ela perguntou? "A gente atrapalha?", com um SIM desenhado na testa com letras garrafais e tinta fluorescente eu respondi calmamente: "Não, imagina...ele é meio arisco a barulho e muito movimento, mas ele virá, mesmo assim!" Aí a moça deu um grito para o marido que ia botando os pés na água. "Saí daí agora se não o pato não vem". Silenciosamente eu ri muito, mas agradeci demais e desejei um bom dia a eles. 

Mas diante do contexto, quem quer vai atrás, mudamos de ponto. O Geiser procurou um mais silencioso, onde, após andar em uma picada no meio do mato, esta nos levava à beira de um lindo lugar, e nem assim, NADA! Nada de pato voando, nadando, passando rapidinho, dando tchauzinho, nada de nada. Até a água do pato eu já estava fotografando.

Vista do novo "point"
...água do pato...
Hora de sairmos, pois demora até chegar na portaria e ninguém queria ser advertido. Fomos embora amargando mais um fracasso, mas sempre com a esperança de "amanhã ele aparece". 

O engraçado é que a cabeça começa a cansar e nos pregar peças. Estava vendo passarinho em tudo quanto é lugar. Esse tinha até rabinho.


Terminamos o dia com um lindo por do sol. E aproveitei para clicar o meu "Ruber", que valentemente aguentou os trancos e barrancos, buracos, subidas e descidas do Parque. 



26/06/2016 (domingo)

No domingo, amanheceu sol, mas de repente nublou, somente no meio do dia voltou a abrir de novo. Mudamos a estratégia. Fomos para a Cachoeira do Fundão. Tivemos que contratar um 4x4, pois o Ruber (meu Duster) não daria conta de chegar lá. O Vagner Freitas nos conduziu com maestria pelas ladeiras íngremes, buracos incontáveis, rios e pedras. Um frio de gelar os ossos, um lugarzinho ruim de ficar. Mais vigília e nada de pato, nem aqui, nem acolá. 

Local da vigília 

Eu já estava sentindo a insanidade tomar conta de mim. De repente me vi completamente fóbica no meio de um buraco na mata fechada, em silêncio, esperando pelo Senhor Pato. O duro era cruzar com gente mostrando foto e dizendo, cliquei ele na quarta na Casca D’Anta, ou então, ontem no Fundão.


Falando em cruzar gente, de repente, já voltando para  a portaria, paramos para clicar uns bichinhos pelo caminho, com a finalidade de erguer um pouco o astral...

Adicionar legendabandoleta (Cypsnagra hirundinacea)
gibão-de-couro (Hirundinea ferruginea)
E aparece no caminho um carro, com uma mocinha afoita dentro dele acenando para mim. Eu pensei: "será que conheço? É gente do facebook, só pode!". Sim, era o amigo Alessandro Abdala e a Camila Machado com dois turistas (que tinham fotografado o pato e filmado de celular no dia anterior). Parecia até deboche do pato-fanfarrão com a gente. Camila veio me abraçar e disse que ela e a Denise Cardoso eram muito minhas fãs. Fiquei super feliz. Fiquei achando que eu era muito mais do que eu achava, um verdadeiro exemplo de perseverança e determinação para as Birding Ladies. E assim, meu dia terminou, com um belo por do sol, coroado por pessoas amigas.

Camila, eu e Alessandro
27/06/2016 (segunda-feira)

Triste, carinha abatida, cansada, acordei às 4 da matina na segunda. Era a última cartada, será que tínhamos alguma escondida na manga? Íamos, pela última vez, antes de voltar pra casa, tentar o bicho num camping. Era longe da cidade, passava por dentro de Vargem Bonita, lá pras bandas da Pousada Praia da Crioula. Paramos num pontilhão onde o pato costuma patrulhar e...n-a-a-a-d-a. Só pedras e neblina.


Chegamos no camping do Raul, ao lado do Bar da Sol, e descemos até a beira do rio. A ideia era montar campana e esperar. Resolvi ir ao banheiro, quando saí, só vi o Geiser me fazer sinal para ficar em silêncio e vir rápido. Havia dois patos nadando (um casal). Coração quase saiu pela goela. 

pato-mergulhão (Mergus octosetaceus)
Corri até o carro, peguei a câmera. Nem olhei a regulagem. Não tinha luz boa, nas primeiras fotos a velocidade estava 1/20. E o casal nadando. Aí só saiu borrão, subi apressadamente o ISO e danei clicar. Fiz muitas fotos. A mata da beirada era densa e eles iam para um lado e a gente acompanhava, eles faziam meia volta e a gente idem e quando eles iam sair na parte mais aberta, ... tcham tcham...voaram e não voltaram mais. 


O bom é que nesse lugar se pode chegar cedo, montar um blind e ficar esperando, mas eles já estavam lá e não deu tempo nem pra fazer xixi direito que dirá raciocinar o que fazer. Achei que um pouco mais de luz não atrapalharia de jeito nenhum. Eles são muito camuflados, todo o cenário tinha a cor deles, pelo menos onde os vimos, estava difícil cravar o foco sem ter contraste. 


Como diz o amigo Rogério Machado "Não é uma emoção de rasgar o coração???" - "ô Se é! Rasga desesperadamente o coração e a mente" rs rs rs.  Só senti isso com a Harpya, e com algumas corujas, ah! essas, sempre...chego chorar!

Veja o vídeo mostrando o lugar onde nós clicamos os patos, mas não foi na parte aberta, foi onde o Norton aparece, preste bem atenção.


Bom, não era bem o que a gente esperava (a gente queria era fazer uma foto do pato com luz mágica, pousado na "pedra", com pezinho vermelho à mostra, vestido pret-a-porter), mas me senti vencedora. Vencedora de mim mesma. O que eu extraí de toda essa experiência foi incrível. Nenhuma dinâmica nos prepara para suportar tamanha frustração tão bem quanto a observação de aves. Persistir e não desistir não é fácil. Levarei esse aprendizado para o resto da vida. A lição é não desistir nunca e sempre acreditar. Uma hora a vitória chega.

Olha a nossa carinha de felicidade após ver o pato...dava vontade de pular que nem criança. Agora a gente finalmente "empatou".





Vou acrescentar mais uma coisa. Somente a amizade e o companheirismo, aliados a muito bom humor é que faz a gente superar qualquer obstáculo. Obrigada Norton e Geiser por todos os momentos e pela força que um dava para o outro nos piores momentos, aqueles mais desanimadores, aqueles que dava vontade de dizer: "vamimbora".

O Geiser foi incansável em suas andanças ao redor do rio em busca do pato e muito perspicaz nas mudanças de estratégia. Acreditou e nos fez acreditar que seria possível. Geiser, em novembro vamos buscar o inhambu-carapé e o andarilho, tá? O que? Achou cascudo? Que nada, mole-mole.


Só pra finalizar, na volta ainda fiz mais duas fotos lindas. E quando vimos os periquitídeos (bando de jandaias-de-testa-vermelha) lembramos da nossa amiga Claudia Brasileiro que adora essa família graças às suas cores maravilhosas.

gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis)
jandaia-de-testa-vermelha (Aratinga auricapillus)


Próximo desafio: voltar ao Parna Canastra e produzir fotos lindas, de tudo, flores, paisagens, mamíferos, insetos e muitas, mas muitas, aves, inclusive o pato, para que eu consiga implantar o meu projeto de livro "As Brumas do Cerrado". Mas enquanto isso vamos ampliando as bolinhas no mapa do Wikiaves.




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