sexta-feira, 8 de abril de 2011

Olhar e não ver

por  Helio de La Pena

Há cerca de dois anos levei meu filho, na época com sete anos, para um passeio no Jardim Botânico do Rio. Não era um passeio qualquer e sim um encontro de observadores de aves.

Como toda criança, João curte bichos. Achei que iria gostar de ver uns pássaros e aprender um pouco sobre eles com ornitólogos e apreciadores de penosas. O efeito foi maior do que imaginava. O garoto passou a se interessar profundamente pelo assunto. Tornou-se frequentador assíduo deste encontro, me levando à tiracolo. Nos aniversários, ao invés de carrinhos ou bonecos, pedia binóculos, máquina fotográfica, gravador de som, todo o equipamento necessário para se tornar um observador de pássaros profissional.

Acompanho abismado essa turma. Eles não se interessam apenas pelos pássaros coloridos e vistosos, desses que cantam tão bem que poderiam concorrer – e vencer – um American Idol. Não, eles se encantam com uns bichinhos mirrados, de penas cinzas, de visual muito sem graça. Às vezes não conseguem ver a pequena ave, no meio de galhos e folhagens, mas se satisfazem ao ouvir seu canto, só de saber que ela está ali. Esse povo, João inclusive, desenvolve uma incrível capacidade de enxergar pássaros onde eu mal enxergaria um hipopótamo pousado. Reconhecem as espécies pelo ninho ou pelo cocô encontrado.



Essa paixão do meu filho me leva a caminhar pela floresta da Tijuca às seis da manhã. Já convenceu a família a ir à Amazônia, ao Pantanal e recentemente à Galápagos. O inusitado nessa história não são as viagens maravilhosas que fizemos por conta disso. Mas a transformação do meu dia a dia. João não precisa ir longe para observar os pássaros. Não precisa nem sair de casa. Basta chegar na janela e ali ficar pacientemente olhando as árvores, os fios, o céu. Dali a pouco está me mostrando um bem-te-vi, um beija-flor, um tucano, papagaios das mais variadas espécies. E eu crente que na minha rua só tinha pardal! Chegou ao cúmulo de afirmar que havia uma coruja num parque do Leblon. Achei um exagero, pensei em levá-lo a um terapeuta, até que me apresentou o canto da coruja gravado no seu aparelhinho.

Sempre achei que esse papo de que a gente aprende com os filhos fosse balela. Mas é a pura verdade. Aprendi com o João que a  Natureza está viva e presente a nossa volta, é uma questão de estar atento. A inspiração pode estar na sua janela, basta correr atrás.

por  Helio de La Pena
Fonte: Blog Assim uma Brastemp
publicada em 17/03/2011

2 comentários:

  1. Muito legal o testemunho!! Uma vez contagiado pelas aves vc não de descontamina nunca mais!
    Abç
    Amarildo Jordão

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  2. Excelente!!! No meu ponto de vista é isso que vai acabar com o trafico de animais, temos a OBRIGAÇÃO de mostrar para nossas crianças que ave se vê livre na natureza e não é difícil, basta olhar... Como o Edson Endrigo já disse, quando se esta no transito parado (e eu digo: e ficar xingando o carro da frente pq ele não anda) observe as arvores, as bordas dos rios, sempre tem alguma coisa pra ver, um gavião planando no alto, peneirando...

    Minha sobrinha (4anos) essa semana viu um pardal voando na casa dela e disse pra minha irmã: "MÃE VOCÊ VIU AQUELE GAVIÃO?! Vou falar pro tio Demis tirar foto."

    Meus amigos chegam animados pra mim e fala "CARA LEMBREI DE VOCÊ, VI UM PASSARINHO MUITO DIFERENTE" é nessas e outras que vamos passando a mensagem, as pessoas começam a observar mais e a perceber que não é preciso prender o bicho pra vê-lo ou ouvi-lo.

    Grande abraço amiga!!! ;)

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