domingo, 15 de fevereiro de 2015

DF - Brasília - o cerrado e seus passarinhos

30/10/2014 (quinta-feira)


Desde julho/2014 que eu vinha pensando em ir para Brasília, queria rever os grandes amigos que lá deixei desde 2003, quando me mudei para São Paulo. 

Assim que surgiu a oportunidade eu me programei para ir. Queria aproveitar também para ver os bacuraus de lá e o famoso Tapaculo-de-brasília (Scytalopus novacapitalis). 

Reservei os primeiros dias para reencontrar os amigos. Esses reencontros são fantásticos e sempre nos reservam muitas alegrias. Um happy-hour ali, um almoço aqui, um café da tarde acolá e muita conversa jogada fora. Tem coisa melhor que isso?

Aliás, é algo que vou aproveitar para comentar aqui: Essa foi uma das viagens mais legais do ano. Primeiro porque pude matar as saudades da minha irmã de coração, a Laurinha. Também pude matar a saudade da turma de amigos que não via há muito tempo. E depois porque fiz uma das passarinhadas mais gostosas do ano. Só de ser no DF, lugar que foi meu lar durante tantos anos, já foi bárbaro.

João e Laura
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Reunião com as amigas Laura, Carla, Líbia e respectivos familiares
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Eu, Laura, Flavinha e família muito querida
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Eu, Haroldo, Silvana e João em pé - David, Marisa, Pedrinho e Ana Paula sentados
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

02/11/2014 – (domingo)


Havia combinado com a amiga Fernanda Fernandex sair passarinhar no domingo (02/11) e na segunda (03/11), tendo como guia o Jonatas Rocha. A gente tinha alinhavado a passarinhada pelo Facebook, mas faltavam alguns detalhes que só combinamos no sábado à noite. No domingo a Fernanda me apanhou e encontramos com o Jonatas na Flona Brasília.

Eu adoro o cerrado e sua vegetação exuberante. Sempre amei o cerrado,  mesmo quando nem me imaginava vir a ser uma observadora de aves. Sua flora e avifauna são riquíssimas. Geralmente a luz para fotografar é mágica e proporciona um festival de fotos espetaculares.

Fernanda e Jonatas
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Acordamos bem cedo e seguimos para o mato. O frescor e o aroma da manhã traziam um encanto sem igual. O corpo e a mente são tomados por um sentimento de tranquilidade x expectativa impossível de traduzir em palavras.

E lá vamos nós começarmos a “caça”. Munidas com nossas câmeras e pesadas lentes, lá estávamos, eu e Fernanda abaixadas atrás de uma moita a espera da nossa “primeira estrela”... Em poucos minutos o Jonatas colocou na nossa frente a Sanã-castanha (Laterallus viridis). 

Havia duas, uma era mais exibidinha e ficou desfilando de um lado para outro. São muito graciosas. 

Ela dava alguns passinhos, parava, nos espiava e atravessava correndo. Foi ganhando confiança e ficando curiosa e chegou a caminhar de mansinho em nossa direção. Depois corria e se escondia no meio do mato. Foi muito divertido.

Sanã-castanha (Laterallus viridis)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Seguimos nosso caminho e paramos para contemplar dois Papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta). É uma ave campestre que habita os capinzais altos, úmidos ou secos, a meia altura e se alimenta de insetos, vivendo em pequenos bandos. 

Encontra-se ameaçada por perda de habitat. Ficamos extasiados com a beleza e graça desses pequeninos. Além de fazermos muitas fotos bonitas, ficamos um tempão só observando o comportamento do que parecia ser um casal.

Papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Uma Corruíra-do-campo (Cistothorus platensis) não estava muito interessada em fazer poses para nossas lentes e ficou observando nossa movimentação de longe mesmo. A gente até “pediu” para ela vir mais perto, mas como ela não nos atendeu, deixamos de lado e a nossa atenção se voltou para o Canário-do-campo (Emberizoides herbicola). 

Bastante exibido, não parava de posar para nossas câmeras. Foi um momento muito descontraído e gostoso. Ainda avistamos e registramos a Maria-cavaleira (Myiarchus ferox), o Tempera-viola (Saltator maximus), o Bico-chato-de-orelha-preta (Tolmomyias sulphurescens). Nenhum era lifer para mim, mas eu adorei contemplar pelo caminho tamanha variedade.
 
Canário-do-campo (Emberizoides herbicola)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mais um pouco e eis que surge um Tucão (Elaenia obscura), desses que eu brinco, não tem cor de nada e a identificação é fogo. Se não estiver acompanhada de um bom guia, ou não gravar a vocalização, esquece, nem gaste clique. 

Mas esse foi especial. Cantou, se exibiu, se aproximou sem receio da gente. Acho que as aves da Flona são todas muito amigas do Jonatas. Parecem vir reverenciá-lo quando ele aparece. Sorte nossa.
 
Tucão (Elaenia obscura)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Sorte mesmo, pois não demorou muito tempo, sabe quem o Jonatas nos mostrou? Ele, o cinzentinho, pequenino, irriquieto, mas tão desejado e esperado. Com vocês a estrela do cerrado: Tapaculo-de-brasília (Scytalopus novacapitalis). Para tranqüilizá-lo, eu e a Fernanda nos sentamos no chão e nos mexemos bem pouco. 

O local era bem escuro, quase uma caverna vegetal...eh eh eh , comecei com ISO 2000, mas depois um raio de sol iluminou o palco do bichinho e pude ir baixando. Ficamos bastante tempo por ali, e o bichinho estava nem aí para a gente, estava forrageando e de repente cantou, cantou tanto que até o Jonatas ficou abismado...lógico que isso me custou uns carrapatinhos nos tornozelos..."ossos do ofício" rs rs rs ...
 
Tapaculo-de-brasília (Scytalopus novacapitalis)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Tapaculo-de-brasília (Scytalopus novacapitalis)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Tapaculo-de-brasília (Scytalopus novacapitalis)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Foi uma manhã divertidíssima. Paramos para um descanso e aproveitamos para fazer um lanchinho básico no meio do mato. Após esse pit-stop, seguimos por vários lugares procurando aves interessantes, mas o ponto alto da nossa passarinhada ainda estava por vir: os bacuraus. 

No meio da nada, embrenhada no mato, achei uma toalha rosa e o Jonatas disse: é do Júlio Silveira, ele perdeu quando veio aqui...morremos de rir da toalha rosa e pelo fato de tê-la achado...e assim, vamos colecionando histórias.
 
Eu, Fernanda e Jonatas
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Eu, Fernanda e Jonatas
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Jonatas e a toalha do Júlio Silveira
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Porém tínhamos que esperar escurecer. Enquanto isso, um casal de Sanhaçu-de-fogo (Piranga flava) nos deixou de queixo caído ...O cerrado é mesmo uma caixinha de surpresas.
 
Sanhaçu-de-fogo (Piranga flava) - macho
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Sanhaçu-de-fogo (Piranga flava) - fêmea
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Até a Coruja-buraqueira (Athene cunicularia) mostrou toda sua fotogenia nesse dia. E antes que as luzes da tarde nos abandonassem, um Chibum (Elaenia chiriquensis) e um Tico-tico-de-máscara-negra (Coryphaspiza melanotis) me fizeram ficar saltitante de felicidade. 

Afinal os dois eram lifers para mim. A luz estava muito ruim, o lusco-fusco não é bom para fotografar aves. Com flash ou sem ele, é um desafio conseguir uma foto boa. Mas era o que tinha para o momento.

Coruja-buraqueira (Athene cunicularia)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Tico-tico-de-máscara-negra (Coryphaspiza melanotis)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Já escuro, hora de ir atrás dos bacuraus. Porém, um pouco antes, avistamos no alto de uma árvore um ninho de Acauã (Herpetotheres cachinnans) com filhotes. Não quisemos assustá-los, então só fizemos umas duas fotos e seguimos nosso caminho.
 
Acauã (Herpetotheres cachinnans)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

O primeiro a ser localizado foi o Bacurau-de-rabo-maculado (Hydropsalis maculicauda), de acordo com o Jonatas, o mais difícil deles. Ele deu baile, foi de um lado para o outro, fazendo a gente se deslocar muito. 

De repente o Jonatas localizou seu poleiro. Fomos chegando com jeitinho, sempre orientadas pelo Jonatas e ficamos muito pertinho do bichinho, coisa mais fofa do mundo. Foi emoção demais.
 
Bacurau-de-rabo-maculado (Hydropsalis maculicauda)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Seguimos para o segundo, num ponto onde o Jonatas disse que era território do Curiango-do-banhado (Hydropsalis anomala). Esse nem teve graça (brincadeirinha). 

O Jonatas localizou-o, iluminou e nos aproximamos o tanto que quisemos, sem molestar o bichinho,  lógico. Foi tão fácil e rápido que nem acreditei. Mais um fofinho para a coleção.
 
Curiango-do-banhado (Hydropsalis anomala)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Fernanda e eu e o Curiango-do-banhado (Hydropsalis anomala) by Jonatas
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

No retorno, o Jonatas avistou um Bacurau-chintã (Hydropsalis parvula), que também era lifer para mim. Paramos e sob sua orientação chegamos do ladinho dele. Fizemos uma foto mais linda do que a outra. Cheguei perto de 22 horas ou mais na casa da minha querida amiga Laura. Dormi feito anjo.
 
Bacurau-chintã (Hydropsalis parvula)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

03/11/2014 – (segunda-feira)


Na manhã seguinte, seguimos para o Altiplano, um local no Lago Sul muito legal de passarinhar. Fomos recebidos pelo canto melodioso da Corruíra-do-campo (Cistothorus platensis), no entanto ela só ficava longe ou na contraluz, mas pelo menos melhorei o registro do dia anterior.
 
Corruíra-do-campo (Cistothorus platensis)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Em seguida o Tapaculo-de-colarinho (Melanopareia torquata) permitiu que fizéssemos fotos lindas.
 
Tapaculo-de-colarinho (Melanopareia torquata)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

O objetivo inicial seria o Bacurauzinho (Chordeiles pusillus) e esse não decepcionou. Sob a luz matinal do topo do morro, ele permitiu uma aproximação emocionante.
 
Bacurauzinho (Chordeiles pusillus)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Depois, descemos o morro e fomos até a parte baixa tentar mais aves. Algumas aves responderam bem, outras nem tanto. O Chibum (Elaenia chiriquensis) apareceu e pudemos, então, fazer fotão dele. Desta vez com luz bem bonita. O Campainha-azul (Porphyrospiza caerulescens), cujo azul encanta só de olhar, deu um show a parte.
 
Chibum (Elaenia chiriquensis)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Campainha-azul (Porphyrospiza caerulescens)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Seguimos para uma matinha e vimos algumas espécies bacanas. Um Fruxu-do-cerradão (Neopelma pallescens) chegou tão perto que não cabia no quadro da lente 300 mm e eu tive que me afastar. 
 
Fruxu-do-cerradão (Neopelma pallescens)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Estrelinha-preta (Synallaxis scutata), como todo synallaxis tem um gênio danado, adora ficar embrenhado. Ele apareceu rapidamente, sempre se escondendo, mas acabou me dando o gostinho de fazer foto, somando mais um lifer


Estrelinha-preta (Synallaxis scutata)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

O belíssimo Tico-tico-de-bico-amarelo (Arremon flavirostris) também queria participar da festa e veio ver o que estava acontecendo. Já estava passando da hora do almoço e resolvemos voltar. No caminho a Guaracava-de-topete-uniforme (Elaenia cristata) mostrou sua linda crista para nossas lentes.

Tico-tico-de-bico-amarelo (Arremon flavirostris)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Guaracava-de-topete-uniforme (Elaenia cristata)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

De repente num fio, pousadinha, uma Peitica-de-chapéu-preto (Griseotyrannus aurantioatrocristatus) – eita nome científico grande - que era lifer para mim. 

Nem saí do carro e fiz fotão. Ainda tive que aguentar a Fernanda zoando comigo. “Como pode alguém que tem mais de 800 espécies clicadas não ter essa peitica”...uai...acontece...
 
Peitica-de-chapéu-preto (Griseotyrannus aurantioatrocristatus)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Na volta do Altiplano, seguimos para a Praça dos Cristais no Setor Militar Urbano. Existe um espelho d'água lá, com garças, socós, biguás, savacus e mais legal que isso, no buritizal ao seu redor, centenas de andorinhões-do-buriti fazem seus ninhos.

Logo na chegada, cliquei duas Marias-faceira (Syrigma sibilatrix) de forma magistral. Ô bichinho bonito. Havia muitas Garças-branca-grande (Ardea alba), Biguás (Phalacrocorax brasilianus) e um belo Sabiá-do-campo (Mimus saturninus).
 
Marias-faceira (Syrigma sibilatrix)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Maria-faceira (Syrigma sibilatrix)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Sabiá-do-campo (Mimus saturninus)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Ver os Andorinhão-do-buriti (Tachornis squamata) foi muito interessante. Os andorinhões entravam nos ninhos e saiam feito foguetes. Foi um final de passarinhada memorável. Com aquela luz de fim de tarde do planalto central. E Santa Clara não me decepcionou. Chuva? Só depois da passarinhada terminar.
 
Andorinhão-do-buriti (Tachornis squamata)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Andorinhão-do-buriti (Tachornis squamata)
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

A sinergia do nosso pequeno grupo, tanto o de Ilhabela que fui alguns dias antes (link aqui), quanto esse de Brasília mostrou como isso ajuda a atrair as aves. Não basta só um bom guia e um local legal. 

Lógico que isso é imprescindível, mas as boas energias ajudam muito na busca e encontro das aves. Elas parecem sentir que o ambiente não é tenso, é amigável, sei lá, quem sabe Freud explica lá do além. (risos)

Jonatas, Fernanda e eu
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Jonatas, Fernanda e eu
arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

O Jonatas Rocha é um guia muito tranquilo e atencioso, além de muito competente. Eu, ele e a Fernanda Fernandes passamos dois dias passarinhando e rimos muito das nossas trapalhadas...Até a próxima!!!



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SP - Ilhabela e a minha primeira coruja-preta

28 e 29/10/2014  


Eu estava alucinada para fotografar a Coruja-preta (Strix huhula). Era uma necessidade ornitológica obsessiva-compulsiva... rs rs rs ... Os prováveis lugares para encontrá-la eram Brasília, onde já tinha uma viagem programada e Rio Claro/SP onde o amigo Gustavo Pinto vinha registrando essa maravilhosa espécie. Em relação à Brasília, o guia Jonatas Rocha havia me antecipado que desde fevereiro que ela não era avistada.

A notícia pior foi quando o amigo Gustavo contou que, por ações inadequadas de algumas pessoas que visitaram o local sem autorização, os dirigentes do Parque em Rio Claro proibiram a visitação noturna. Fiquei extremamente chateada. Passaram-se alguns dias e o Gustavo me passou uma mensagem informando sobre o achado do nosso amigo e guia Demis Bucci em Ilhabela. Ele localizara a Coruja-preta (Strix huhula) naquela localidade. Entrei em contato imediatamente com ele e programamos a nossa ida para lá.

Lancei o convite no Quero Passarinhar e dois amigos, de pronto, responderam interessados. Marcamos de ir na terça-feira (28/10/14) com volta na quarta. Trabalhei pela manhã, saí depois do almoço e fui com o Demis, sua esposa Aline e a pequena Sofia encontrar com o resto do pessoal, os amigos Rosemarí Júlio e Aluisio Ferreira.
 
Demis, Eu, Aluisio e Rosemarí - by self timer Demis

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

BA - Parte 9 - Tour Nordeste 2014 - Reserva Serra Bonita - Camacan/BA


08/10/2014 (quarta-feira) Boa Nova/BA para Camacan/BA 

Foram quase 250 km e perto de quatro horas de viagem de Boa Nova/BA para Camacan/BA. O mais engraçado foi um local em frente aonde paramos para almoçar em Camacan: uma Pousada chamada Beverlly Rios... muito criativo.

Beverlly Rios
Camacan é um município pequeno. Foi considerado na década de 70 um dos maiores produtores de cacau, mas, no entanto, a praga da vassoura-de-bruxa (Crinipellis perniciosa) devastou e destruiu sua lavoura no ano de 1989.

Parte 6 - Tour Nordeste 2014 - Estação Biológica de Canudos/BA


03/10/2014 (sexta-feira) - Canudos/BA

Pela manhã, ainda em Crato, a Claudia Brasileiro havia acordado com cara do Sloth dos Goonies. O Weber Girão, nosso amigo e um dos gestores do Projeto de Preservação do Soldadinho-do-araripe, indicou um médico amigo dele, Dr. Alexandre, oftalmologista, que receitou um colírio lubrificante e disse que mesmo ela estando uma monstrinha (palavras da Cláudia), o vírus tinha parado e não chegaria aos olhos.

Orientou que ela fugisse do sol, porque "senão ele poderia resolver brigar com o remédio (adora sol) e poderia deixar o rosto dela marcado". Ele garantiu que o pior já tinha passado e que a Cláudia podia continuar viagem. De acordo com ela, a pior parte foi abdicar da cerveja, disse que doeu mais do que o inchaço do rosto...bem ela mesmo rs rs rs.

Passamos o resto do dia todo nos deslocando em direção a Canudos, quase 400 km. No caminho (Abaré/BA) pude registrar o Pernilongo-de-costas-negras (Himantopus mexicanus) em solo brasileiro, pois eu tinha uma única imagem tosca feita na Flórida (EUA).


Pernilongo-de-costas-negras (Himantopus mexicanus)

Atravessamos o Estado de Pernambuco e chegamos ao nosso destino, a Estação Biológica de Canudos - EBC. Ficamos hospedados no Biodiversitas

A Estação Biológica de Canudos é uma reserva biológica particular, com área de 1477 hectares, localizada no sertão do estado da Bahia. Pertencente à ONG Biodiversitas, a reserva foi criada em 1989 com a finalidade de garantir a preservação da Arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari). 

É uma das espécies de aves menos conhecidas e mais ameaçadas de extinção no Brasil. Estima-se que atualmente existam apenas cerca de 450 indivíduos na natureza, além de 38 em cativeiro. Esta ave é endêmica da caatinga baiana, e encontra-se protegida na EBC. Ver último censo aqui.

O quadro de funcionários permanentes na Reserva inclui uma bióloga, responsável pela administração local da EBC, e três guarda-parques em tempo integral, cujas funções incluem a fiscalização da área e a coleta de dados biológicos sobre as araras. Estes quatro funcionários são pessoas nascidas em Canudos, o que confere à EBC maior integração com a comunidade local e maior acesso da população às informações sobre a espécie e a reserva.

Arara-azul-de-lear  (Anodorhynchus leari)

Parte 3 - Tour Nordeste 2014 - Serra do Baturité - Guaramiranga/CE


29/09/2014 (segunda-feira) – Partindo de Fortaleza para Guaramiranga/CE

Logo cedo o Ciro veio nos apanhar no Hotel e lá fomos nós, carregadas de muitas
malas e muita ansiedade, rumo à Serra de Baturité (que fica nos municípios de Guaramiranga e Pacoti). Guaramiranga fica a pouco mais de 100 km de Fortaleza.

A Serra de Baturité é uma formação do relevo cearense, também conhecida como Maciço de Baturité, localizada no centro-norte do Ceará. É uma das regiões de maiores índices pluviométricos do estado. Seu ponto culminante é o Pico Alto, o 3º maior do estado, com 1.115 metros de altitude, situado em Guaramiranga. 


Ficamos no Hotel Alto da Serra. É um hotel bem legal, com chalezinhos confortáveis, muita mata em volta, com aves muito legais no seu entorno.


Hotel Alto da Serra

Parte 2 - Tour Nordeste 2014 - Delta do Parnaíba/PI

25/09/2014 (quinta-feira) – Parnaíba/PI

Saí de Fortaleza com destino à Parnaíba/PI, pela Companhia Azul, e apesar do voo ter sido tranquilo, houve um atraso, graças à necessidade de esperar outro voo que faria conexão com o meu. Cheguei no meio da tarde e o amigo Fábio Vasconcelos já me esperava no aeroporto. Ele e a esposa, a simpática Lara, me levaram para conhecer a cidade e os arredores e, óbvio, passarinheiros fominhas como eu e ele, já saímos fotografando, e de cara fizemos um lifer para o Estado. Fotografamos um Mandrião-parasítico (Stercorarius parasiticus), voando bem alto.

Mandrião-parasítico (Stercorarius parasiticus)

Na cidade de Parnaíba fiquei hospedada na Pousada Aconchego Familiar, pousada domiciliar muito simples e com um pessoal muito atencioso.

Parnaíba é uma cidade muito encantadora. Sua população conta com mais de 150 mil habitantes, é segundo município mais populoso do estado, perdendo apenas para a capital Teresina. É um dos quatro municípios litorâneos do Piauí (além de Ilha Grande, Luís Correia e Cajueiro da Praia).

Porto das Barcas em Parnaíba

BA - Parte 8 - Tour Nordeste 2014 - Parque Nacional de Boa Nova /BA


07/10/2014 (terça-feira) - Boa Nova/BA

Boa Nova foi um dos lugares que mais gostei. Levantamos cedo com o destino já traçado. Iríamos conhecer o PARNA Boa Nova.

O Parque Nacional de Boa Nova tem 12.065 hectares e foi criado em junho de 2010 juntamente com um Refúgio de Vida Silvestre de 15.024 hectares, objetivando proteger uma importante área na transição entre a Caatinga e a Mata Atlântica. Por ser jovem, ainda carece de estrutura. Nele, podemos ir da caatinga mais seca à floresta mais úmida, passando pela mata de cipó, num percurso de apenas 15 km.

A floresta de altitude que fica entre estes dois importantes biomas é chamada localmente mata de cipó e nela vive uma ave rara e endêmica: o Gravatazeiro (Rhopornis ardesiacus).

A cidade de Boa Nova é pequena, limpa, bonita e aconchegante com um agradável clima de altitude. As opções de acomodação são simples. Apesar disso, nos últimos tempos, vem se consagrando como um importante destino do turismo de observação de aves.

Em Boa Nova um lugar extraordinário para visitar é o Lajedo dos Beija-Flores.


Lajedo dos Beija-Flores
Coroa-de-frade ou cabeça-de-frade (Melocactus Zehntneri)

Parte 1 - Tour Nordeste 2014 - Viagem colírio para os meus olhos e delírio para as minhas lentes

A Tour Nordeste é um pacote de viagem disponibilizado pelo guia ornitólogo Ciro Albano com a finalidade de observar aves, principalmente as endêmicas do Nordeste. Eu tive o prazer de compartilhar essa viagem com os amigos Rosemarí Julio, Claudia Brasileiro e Fernando Farias (apenas parte do roteiro), percorrendo o interior do Ceará e da Bahia.

Antes de iniciar o roteiro com o Ciro, dei uma "passadinha" por minha conta pelo Piauí para realizar um sonho antigo: conhecer o Delta do Parnaíba. 

Delta do Parnaíba

Quem me levou a navegar pelos intrincados canais do Delta foi o amigo Fábio Vasconcelos. Aproveitei para conhecer um pouquinho das aves piauienses. Serviu de tira-gosto e para deixar um gostinho de quero mais.

O bom de descrever as viagens no meu bloguinho é que sou obrigada a relembrar muitos detalhes, o que por si só, enseja uma "nova viagem"! Dividi o texto e fotos em 10 partes e em cada uma delas você encontra o link para as demais no final de cada postagem.

O Nordeste

Famoso por suas praias, comidas bem temperadas e gente hospitaleira, descobri que o Nordeste não se resume a isso. E graças a essa Tour pude mudar o meu pensamento e conceito (melhor, "pré-conceito") e conhecer um outro lado dessa região. O sertão nordestino me era estranho, só o que eu via pela TV. Para mim resumia-se a seca e desolação. Hoje, percebo como estava errada. Existe seca sim, e muita, mas existem muitas outras belezas, raramente divulgadas. Eu atravessei o interior do nordeste em busca de aves e me deparei com um tipo de vida único nesse país. Pessoas valentes, sobreviventes de uma região difícil que, apesar de tudo, nos recebem com carinho especial. É um lugar de muita beleza e diversificação.

Lajedo dos Beija-flores em Boa Nova/BA
Chapada Diamantina / BA


Parte 7 - Tour Nordeste 2014 - Chapada Diamantina - Lençóis/BA


05/10/2014 (domingo) – Lençóis/BA
 
Em Lençóis ficamos hospedado na Pousada Casa da Geléia - os donos, Zé Carlos e Lia, pessoas super simpáticas, são amantes das aves e mantém comedouros e muitas plantas atrativas no quintal da pousada. Dá para ficar o dia todo fotografando só ao redor da piscina, sob as árvores e até da janela do refeitório. Mais uma vez deu vontade de ficar pelo menos uma semana no local. Sem contar que a cidade é encantadora. E o que dizer da Chapada Diamantina então...afff ...se prepara...


Os jardins da Pousada
Beleza de árvore no quintal da Pousada
A beleza da Chapada
O encanto histórico de Lençóis
Lençóis e suas estreitas e coloridas ruas

Parte 4 - Tour Nordeste 2014 - Quixadá/CE


30/09/2014 (terça-feira) Quixadá/CE 
 
Quixadá fica a pouco mais de 100 km de onde estávamos. A vegetação é bem diferente da verdejante Guaramiranga.


Vegetação em Quixadá/CE
Chegamos ao hotel Pedra dos Ventos por volta de 16:00h. O lugar é bem maneiro. Dá vontade de ficar uma semana pelo menos. Foi um dos hotéis mais gostosos de todos. O dono, Sr. Almeida, é super gente fina. 

Parte 5 - Tour Nordeste 2014 - Chapada do Araripe - Crato/CE – Barbalha/CE

01/10/2014 (quarta-feira) Crato/CE

Enfim, chegamos a Crato/CE, debaixo de uma
tremenda chuva. Foi um pouco cansativo, mais de 6 horas de viagem, pelos quase 350 km de distância. Em Crato, ficamos hospedados no Encosta da Serra Hotel

02/10/2014 (quinta-feira) Crato/CE – Barbalha/CE

A estrela desse dia seria nada mais nada menos do que o raro e lindíssimo Soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni) - O nome bokermanni é uma homenagem ao zoólogo brasileiro Werner Bokermann. A espécie está ameaçada de extinção. Foi descoberta em 1996 na Chapada do Araripe, Região Nordeste do Brasil. Segundos os seus descobridores, o soldadinho-do-araripe somente é encontrado nos municípios de Barbalha, Araripe, Crato e Missão Velha, todos no Ceará. Também é conhecido como galo-da-mata e lavadeira-da-mata.

 
Soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni)
A ONG cearense Aquasis vem trabalhando desde 2003 para sua preservação. Existe um Programa de Conservação de Aves Ameaçadas, elaborado para evitar a extinção da espécie.
A Chapada do Araripe é um sítio arqueológico localizado na divisa dos Estados brasileiros do Ceará, Piauí e Pernambuco. A Chapada abriga uma floresta nacional (1946), uma área de proteção ambiental (1997) e um geoparque (2006). A vegetação é bastante diversificada, apresentando domínios de cerradão (tipo predominante), caatinga e cerrado. 

A Floresta Nacional do Araripe-Apodi, mais conhecida como FLONA Araripe-Apodi, é uma unidade de conservação brasileira situada na chapada do Araripe. É um dos últimos redutos da mata atlântica no Nordeste.


Levantamos cedo e o Ciro nos levou por uma estradinha que tinha muitas aves bonitas. Ficamos pouco tempo, mas deu para fazer fotos belíssimas. Destaque para o Tiê-caburé (Compsothraupis loricata); Chorozinho-da-caatinga (Herpsilochmus sellowi) e Choca-do-nordeste  (Sakesphorus cristatus). Ficamos muito felizes quando o Bico-virado-da-caatinga (Megaxenops parnaguae) veio nos prestigiar.

BA - Parte 10 - Tour Nordeste 2014 - Reserva Veracel - Porto Seguro/BA - Santa Cruz Cabrália/BA

10/10/2014 (sexta-feira) – Porto Seguro/BA - Santa Cruz Cabrália/BA

A RPPN Estação Veracel é uma área de 6.069 hectares de mata nativa localizada entre os municípios de Santa Cruz Cabrália e Porto Seguro, no extremo sul da Bahia. Localizada no bioma Mata Atlântica, a aproximadamente 15 quilômetros do centro histórico de Porto Seguro. Está inserida no Corredor Central da Mata Atlântica, o que aumenta ainda mais a importância dessa área de proteção.


O Ciro procurando alguma ave ao redor do alojamento 
Estrada da Reserva 
Estrada da Reserva 

Reconhecida pelo IBAMA como Reserva Particular do Patrimônio Natural, a Estação Veracel obteve ainda o reconhecimento da UNESCO, como uma das Reservas de Mata Atlântica inscritas como Sítio do Patrimônio Mundial Natural. Confirmando desta forma, seu valor universal e excepcional de uma área natural que requer proteção para benefício de toda a humanidade. Desde 1992, a empresa Veracel Celulose S.A tem viabilizado vários estudos sobre a fauna e flora na RPPN Estação Veracel, os quais são realizados em parcerias com universidades, centros de pesquisa e organizações não-governamentais.

domingo, 30 de novembro de 2014

Vamos todos caboclar na luz mágica dos Pampas e nas Serras Catarinenses

Caboclada – é um substantivo feminino que significa grupo de caboclos ou ação/atitude próprias de caboclo. Mas para os "passarinheiros"  (aqueles que apreciam e/ou observam aves) tem outro significado. Significa fazer uma “tour” para observar determinadas espécies de aves conhecidas como papa-capins, também chamados de sporophilas ou caboclinhos. Sporo vem do grego sporus que significa "semente" e phila, que também se origina do grego, significa “que gosta”.

E como você faz para observar os papa-capins? É só procurar a Seledon Turismo, comandada pelo amigo Maicon Mohr, em parceria com o guia ornitológico Adrian Rupp, que eles disponibilizam um pacote de viagens chamado Caboclada.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

AC - as densas florestas de tabocas do Norte do Brasil

Em cada Estado do Brasil que eu fotografo pelo menos uma ave, eu me permito costurar a respectiva bandeira no meu colete fotográfico. Já posso colocar a bandeira do Acre. E o faço com honras, pois fotografei aves muito difíceis, tanto de encontrar como do próprio ato de fotografar. Depois explico isso melhor adiante. 

Foto by Silvia Faustino Linhares
O Acre sempre me pareceu mais distante do que ele realmente é. Mas após convite dos meus primos que moram lá e depois de tudo que pesquisei e confirmei durante a palestra do amigo Emerson Kaseker no Avistar Brasil 2014, tive a certeza de que o Acre seria o meu próximo destino e uma caixinha de surpresas.

domingo, 20 de julho de 2014

Represa Guarapiranga - Observação de aves programada pelo CEO - Centro de Estudos Ornitológicos

Andrea, Luiz Fernando, Chayene, Cibele,
Ernesto, Eu e a Tatiana no Linear Nove de Julho
Foto by meu celular por Robson Bento
Hoje eu acordei bem cedo e fui me encontrar com o resto do pessoal para percorrermos a orla da Represa Guarapiranga . O Luiz Fernando deu carona para a gente (eu, a Chayene Tomiuc e a Andrea Ferrari) no seu indefectível Monza. Lá fomos nós nos encontrar com a Tatiana Pongiluppi e o Robson Bento no Parque Linear São José.