Compramos coisas num supermercado local para nosso café da manhã, porque íamos sair bem cedinho no dia seguinte. Depois fomos nos encontrar com o Francisco Hipólito "POLO" Ávila. Polo foi o organizador da nossa estadia em Tabatinga e nossa ida e volta da Reserva Palmari.
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Arquivo pessoal Vanilce Carvalho |
Tim-tim!!! E que comecem os "trabalhos"...🍻🍺🍻🍺
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Voltamos para o Hotel assim que terminamos o jantar, pois no dia seguinte teríamos que madrugar para sair em busca de "penosinhos" raros.
Dia 15/12/2022 – quinta-feira
Acordamos bem cedinho. Ao amanhecer já estávamos navegando numa lancha em direção a uma ilha do Rio Solimões, que fica no município de Benjamin Constant. Quarenta minutos depois chegamos ao local onde íamos começar nossas buscas.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho |
O amanhecer nos brindou com seu "ouro", anunciando o que vinha a seguir. O dia estava lindo. Era um suspiro atrás do outro.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
A gente não via a hora de começar a encontrar as aves listadas como prioridades. E, assim que desembarcamos, foi dada a largada oficial. Fomos caminhando pela trilha, super antenados. A Ansiedade resolveu ir ao meu lado e não me deixava um minuto sequer. 😂😂😂
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Não comecei clicando aves, mas sim uma borboletinha identificada como
Yphthimoides maepius por especialistas e um primata, ou melhor, um gracioso mico-de-cheiro, identificado como
Saimiri cassiquiarensis ssp. macrodon.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Depois fiquei atenta aos
future-lifers e
city-lifers (subespécies e primeiros registros para um munícipio no Wikiaves, respectivamente). E lógico, com o coração na mão, fiquei aguardando os
lifers (primeiros registros para minha lista pessoal). O Luiz Fernando não poupou esforços para a gente registrá-los.
Foram sete novos primeiros registros para o município. Como eu já disse, nem sempre consigo fazer um fotão, mas o que importa é atuar como cientista-cidadã e contribuir com dados para a conservação do meio ambiente de um determinado local.
Deixo aqui um quadro com o resultado dos city-lifers que fiz em Benjamin Constant na nossa primeira manhã de passarinhada: urubu-de-cabeça-amarela, periquito-testinha, beija-flor-de-veste-preta, acauã, trinta-réis-grande, periquito-de-cabeça-suja e japu-pardo.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
A manhã nem tinha começado direito, mas a festa sim. Esta já tinha começado pra valer. Um dos nossos primeiros "target" (objetivo/alvo) resolveu dar sinal de vida e o Luiz Fernando com muito jeito e competência nos mostrou um belíssimo casal de capitão-de-coroa (Capito aurovirens). 🤜🤛
É uma das famílias de aves mais lindas das nossas florestas. Esbanja charme com suas cores vibrantes e deixa nossos dedinhos que já são nervosos mais frenéticos ainda. 😅😅😅
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Uma meia hora depois veio a segunda espécie nova, uma raridade maravilhosa, de encher o "zóio" e os cartões. É um dos mais belos da família
Thamnophilidae, que eu adoro. Mas nem sempre dão moleza pra gente. Falo do elegante
formigueiro-liso-do-solimões (
Myrmoborus berlepschi). 🐜👀📸💾
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Mais um tempinho e outro dos nossos bichinhos dos desejos compareceu. Era o
picapauzinho-creme (
Picumnus castelnau), uma minúsculo e encantador serzinho, que nem se importou com nossa presença, pois estava mais preocupado com o seu café da manhã.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Em menos de duas horas de caminhada e buscas eu já tinha listado três espécies novas e muito desejadas.
No caminho cruzamos com dois estudantes de biologia coletando plantas para estudos. Vanilce logo os reconheceu por conta do material que carregavam.
Eles ficaram encantados com o nosso hobby e pediram pra tirar uma foto com a gente. Taí Joabson (@joabdeveza99) e Iran Maciel Borges (@maciel_borges), os registros feitos pelo Luiz Fernando do nosso encontro.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Bom, da lista de novas espécies de Benjamin Constant, extraída do site Wikiaves, faltavam três apenas. Estava achando tudo muito fácil. Mas a saga estava só começando. Enquanto a gente "
varria" a área fui clicando de tudo, passarinho, florzinha, mariposa, borboleta, fungos...
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Mas o destaque ficou mesmo para uma charmosa criatura, que se mexe de forma muito graciosa: uma Preguiça-Comum (Bradypus variegatus). Ela deu um show pra gente.
Antes todo passarinho fosse colaborativo para as fotos como ela e possibilitasse registros em tudo quanto é pose. Mas sabemos que não é bem assim, né? 😂😂😂😂
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Enquanto eu ia me distraindo, o Luiz estava concentrado tentando achar um desses três bichinhos:
ariramba-vermelha (
Galbalcyrhynchus leucotis),
joão-de-bico-pálido (
Furnarius torridus) e
sabiá-da-várzea (
Turdus sanchezorum).
A ariramba a gente ouviu algumas vezes vocalizar bem longe, o último nem sombra, mas o do meio, ah! o do meio ... 😂😂😂😂
Quando o Luiz Fernando disse que tinha ouvido ele vocalizar, eu logo pensei: "esses 'joãos' nunca dão mole nem facilitam a nossa vida de fotógrafo, se eu fizer um biquinho dele já vai estar valendo."
Pera! Mas esse joão não é um synallaxis (que parece ter pacto com o demo), é só um primo do joão-de-barro, vai ser tranquilo.
Tolinha eu! Mal sabia que um casal de capiroto tinha incorporado nesses dois joão-de-bico-pálido, que apareceram no nosso caminho.
Não sei porque "cargas d'água" ambos resolveram nos "trolar". Eles atravessavam de um lado pro outro que nem foguetes, e só paravam no escuro, cheio de galhos, e por um Zeptosegundo apenas, ou seja por 0,000 000 000 000 000 000 001 segundos.
Nós tentamos de tudo, tudo mesmo, para conseguir uma foto razoável, mas não deu. Fiz uma única foto bastante sofrível. Das cinco fotos da espécie que tem no Wikiaves, fora a minha, uma foi feita no Peru e as outras quatro se referem a dois únicos avistamentos, um em setembro de 2020 e outro em maio de 2022.
Eu queria ter tentado mais vezes e feito uma boa foto, mas a chuva forte inviabilizou outras tentativas.
Logo que chegamos ao topo da torre, não demorou muito, ouvimos um bater de asas e recebemos a visita da arara Laurinha, que veio se aconchegar e pedir cafuné.
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1ª foto Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 2ª foto Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho |
Fiz muitas fotos nessa manhã, mas o destaque ficou mesmo para o capitão-de-bigode-limão (Eubucco richardsoni), tivemos que nos deitar no chão para conseguir fazer a foto no limpo. Mas graças ao Luiz Fernando que descobriu o buraquinho perfeito - a maioria dos lugares tinha galhinhos ou folhas na frente, deu fotão de quadro.
O Ka também encontrou outro buraquinho de onde a Van fez foto, mas não vi a foto dela ainda. Pena que não registramos o making-of da gente deitado no chão da torre, de tão concentrados que estávamos. 🤣🤣🤣
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Fizemos muitas aves bonitas e interessantes por ali tais como: gralha-violácea (Cyanocorax violaceus), pipira-de-máscara (Ramphocelus nigrogularis), japu-pardo (Psarocolius angustifrons), saí-amarela (Dacnis flaviventer), chora-chuva-preto (Monasa nigrifrons), bem-te-vi-de-cabeça-cinza (Myiozetetes granadensis), urubu-preto (Coragyps atratus), xexéu (Cacicus cela) e anu-preto (Crotophaga ani). Veja a sequência no quadro abaixo.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Uma coisa que não esqueço, logo ao chegar no alto da torre, ainda com um pouco de neblina, a primeira coisa que eu disse para o grupo foi: "tem um socó-boi pousado no alto daquela árvore ali". E disse isso apontando com convicção, sério. Óbvio que o café não tinha feito efeito ainda (nem lembro se já tinha tomado ou não).
Os meus parceiros olharam de binóculo (só eu não levei o meu) e pasmem, era apenas um japu-pardo. 😁😁😁😁 Riram de mim até dizer chega. Que vergonha! 😂😂😂😂
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Lá pelo meio da manhã resolvemos sair de barco em busca dos primeiros
lifers. Foi um dia glorioso, onde tudo saiu nos conformes, ou quase, né Luiz Fernando? 😁😁😁😁
Um pouco antes de subirmos no barco, fiz meu primeiro lifer, um casal de papa-capim-de-caquetá (Sporophila murallae) bem no capinzinho na beira do rio. Eu desejava muito vê-lo, haja vista que irá compor a segunda edição do meu fotolivro "Papa-capins do Brasil - Diga não às gaiolas".
Da subfamília Sporophilinae com seus trinta e três papa-capins (Lista CBRO 2021), agora só me faltam quatro: papa-capim-de-coleira, estrela-do-norte, caboclinho-do-pantanal e cigarrinha-do-norte.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Navegamos por um tempo até chegar ao local da nossa passarinhada. Para chegar das margens até a trilha dentro da floresta tínhamos uma subidinha enlameada e escorregadia, só de olhar dava uma agonia danada. Dava vontade de ser teletransportada ou carregada no colo.
Então o grande Ka desceu, colocou alguns galhos para serem pisados e foi nos orientando por onde pisar, depois de me encorajar, segurou minha mão e foi me içando até eu me sentir em segurança.
Em alguns momentos ele dizia: "apoia o seu pé no meu". Isso fazia com que meu pé travasse no dele e não escorregasse. Ou então ele dava pisadas fortes no barro e pedia que eu pisasse onde ele tinha preparado um degrauzinho com sua pisada forte.
Ele fez isso até o último dia. Tanto ele quanto Vanilce e Luiz Fernando, nunca me deixaram sem apoio.
Além do Ka para me apoiar, eu tinha um "Ka-jado" 😅😅😅😅. O cajado da foto abaixo foi preparado pelo Ka especialmente para mim e se tornou quase parte do meu corpo durante as caminhadas, subidas e descidas, ou saídas e entradas no barco. Ficamos tão íntimos que deu até vontade de trazer ele para casa comigo.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Mas... sempre tem um mas ... 😆😆😆😆😇 desculpe-me rir quando eu me lembro da cena. Ainda dentro do barco, enquanto Vanilce nos alertava sobre a instabilidade da lama e para tomarmos muito cuidado, Luiz Fernando foi logo pulando para fora e assim que pulou e deu um passo, escorregou e afundou na lama com equipamento fotográfico, binóculo e tudo mais.
E aí eu fiquei apavorada só de pensar em como eu ia fazer para subir ali e chegar até o começo da trilha incólume. E pior, pensava na volta, quando estaria cansada e teria que descer por esse sabão até o barco.
Nessa hora eu não sabia se ria ou se chorava. Então depois que estávamos todos a salvo no começo da trilha, paramos para descansar um pouco. Aí eu só ria, isso porque não tinha sido comigo. 😅😅😅😅
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E lá fomos nós caminhando por terrenos quase "
incaminháveis". Íamos bem devagar e com cuidando, ouvindo a floresta e prestando atenção no chão e na trilha que ora fazia com que nossos pés sumissem dentro do mar de folhas que já foram secas um dia ou então dentro da água, nas partes alagadas. Só ouvia o Ka dizer:
vem por aqui, vai por ali. Afffff!
Fui clicando uma coisinha aqui, outra ali. E logo após eu encontrar um lindo coração verde recebi uma notícia maravilhosa do Luiz Fernando: meu segundo lifer do dia tinha vocalizado.
Plagiando a grande Elba Ramalho: "Oi, tum, tum, bate
coração / Oi, tum, coração pode bater /Oi, tum, tum, tum, bate coração /Que eu
morro de amor com muito prazer." 🎵🎵💓💗
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Sim, eis que chega no escuro, numa brenha danada, o formigueiro-de-cauda-preta (Myrmoborus melanurus). Apesar de não ser colorídio como os "capitães", até que deu foto legal.
Só lembrando que "fotometrar" ave escura no escuro é um "parto". E ainda mais quando você tem menos que milésimos de segundo para isso, em um terreno instável que torna cada passo uma provação.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
O mais engraçado foi quando estávamos num local que tinha um bando misto e minha lente deu de cara com algo alaranjado, num "
lampejo de conhecimento combinado com desconhecimento", gritei:
piranga,
piranga, me referindo aos bichinhos migratórios como sanhaço-de-fogo, sanhaço-escarlate, sanhaço-vermelho, que tem essa palavra no nome científico. 🙃🙃🙃🙃
Aí com a ajuda dos especialistas presentes, refiro-me ao Luiz e Vanilce, foi me informado que "era só um flautim-ruivo (Schiffornis major)", e que eu já tinha ele de Novo Airão/AM. Pensa na minha cara naquela hora. Até o bichinho olhou pra mim com aquela carinha de "como assim, eu, um sanhaço?" 😅😅😅😅
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Pouco tempo depois veio o terceiro
lifer do dia, uma
garrincha-cinza (
Cantorchilus griseus). Pensa que deu mole? Já viu alguma garrincha dar mole? Que nada, o local era pouco amigável, cheio de galhos, inclusive muitos caídos no chão.
E como se não bastasse ela ficar longe e atrás dos galhos, quando se aproximava era sempre de costas e de forma mal-educada. 😆😆😆😆
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Mas com um pouquinho de paciência, vai dali, vai daqui, pula pra li, pula praqui, eu consegui a primeira foto no limpo, embora de longe. Nada que um "crop" razoável não resolva.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Aí veio o quarto
lifer do dia. Daqueles que eu chamo de
marronzídios e digo que são todos quase iguais e impossível de fazer uma foto razoável: os
arapaçus.
Ah! os arapaçus! São sempre muito rápidos, da cor dos troncos, se escondem nos últimos andares da floresta, quase sempre no escuro, o que nos obriga a usar ISO super alto, gerando uma quantidade absurda de ruídos.*
*Na ausência de luz suficiente, tendemos a abusar do ISO pra conseguir fazer pelo menos um registro. Esse aumento na sensibilidade do sensor (ISO alto) ocasiona bastante ruído, que culmina por granular a imagem e comprometer sua qualidade.
Meu lifer era o arapaçu-ocelado (Xiphorhynchus ocellatus). O Luiz é especialista nessa família e conhece cada detalhe, cada pintinha da maioria deles. Conseguiu me mostrar, com sua calma peculiar, onde o bicho estava ou para onde ele provavelmente iria, até que eu conseguisse fazer um registro apresentável.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Deve estar se perguntando, só viram isso? Nãooooooooooo. Teve mais alguns bichinhos dignos de nota, com destaque para o
picapauzinho-dourado (
Picumnus aurifrons), o
arapaçu-riscado (
Xiphorhynchus obsoletus),
guarda-várzea (
Hylophylax punctulatus) e o
solta-asa (
Hypocnemoides maculicauda).
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E cheios de alegria, nós voltamos com sorrisos de orelha a orelha, felizes como crianças em véspera de Natal. Eu com
quatro espécies novas no meu cartão e Vanilce com
nove no dela.
Hoje em dia, com 85% da Lista CBRO 2021 já registrada, eu considero que cada "lifer" meu vale por cem.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho |
Ao chegarmos, fomos direto para o refeitório, onde um grande "
bafafá" nos aguardava. Havia uma cobra verde nos caibros da área de serviço, bem no alto. Era grande, porém inofensiva. Eu estava sem a câmera e aí só deu foto de celular. Ela foi identificada no iNaturalist como
Chironius exoletus ou
cobra-cipó.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Já era meio da tarde e o Luiz Fernando sugeriu a gente descansar ou ficar na torre até escurecer para tentarmos o meu quinto
lifer do dia. Fui para a torre na esperança de surgir alguma novidade.
Por lá vimos o pequeno Tuque, um filhote de tucano-de-papo-branco (Ramphastos tucanus), também resgatado, que vive tal qual a Laura, a arara-canindé, livre, mas ao redor da sede e não se afasta muito do local. Detalhe, ainda está aprendendo a voar.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Também vimos xexéu (Cacicus cela), caraxué-da-várzea (Turdus debilis) que torci muito para ser um sabiá-da-várzea (Turdus sanchezorum), mas, infelizmente não era. E ainda tinha muitos japus-pardo (Psarocolius angustifrons) e urubus-preto (Coragyps atratus) tentando se secar.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Aproveitamos e fizemos uma selfie da nossa turminha. Na foto Ka, Van, Luiz e eu.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
A noite enfim chegou e lá fomos nós caminhando pelo escuro, com lanternas e muitas expectativas. A minha quinta nova espécie do dia era uma há muito desejada.
Lembro dessa ave ter "dado mole" em Manaus em 2015, em um ninho que foi monitorado pelo amigo Marcelo Barreiros e muita gente foi lá para registrá-la. Não tive condições financeiras de ir na época e fiquei sem vê-la até essa oportunidade.
Porém o dia tinha chegado. Nessa noite a emoção foi de amolecer as pernas. Nunca esperei que o urutau-ferrugem (Phyllaemulor bracteatus) fosse estar pousado no limpo, na altura dos olhos e sem galhinhos na frente, lógico que na hora só lembrei da querida amiga Daniela Maia, quando ela um dia descreveu o cenário ideal para um fotógrafo clicar uma ave. 😅😅😅😅
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E embora tentássemos ver e registrar inhambus, nenhum se dignou a dar as caras para a gente. Muito cansados, retornamos e só paramos para clicar um
sapinho-ponta-de-flecha: pequenino no tamanho, porém gigante em beleza e veneno.
Como li em um site: "Com sua deslumbrante coloração, o sapinho venenoso
Ameerega trivittata avisa seus predadores que, talvez, tê-lo como uma refeição pode ser uma péssima ideia." (Fonte: Wikiparques) 😄🐸😄🐸😄
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E assim fomos dormir, depois dessa comprida jornada, que estava só começando.
Dia 17/12/2022 – sábado
Acordamos cedo e partimos para a nossa próxima trilha. Fomos de barco, levando o café, preparado pelo Ka. Navegamos tranquilamente, sem pressa, fazendo algumas fotos pelo caminho, tanto da gente quanto das aves às margens do rio Javari.
Com destaque para um jovem
gavião-preto (
Urubitinga urubitinga), um dos vinte e sete
city-lifers que acrescentei à lista do município de Atalaia do Norte no Wikiaves - Clique
aqui para saber quem são eles.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares
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Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares
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O desembarque e a subidinha - bem íngreme foi tão tenso e intenso como no dia anterior, mas fomos com muito cuidado, persistência e paciência.
Chegando lá, fomos recompensados com um café super gostoso, ovos cozidos, torradas, algumas frutas e lógico, não podia faltar os "patacones".
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Começamos a caminhar super animados e não demorou muito para o nosso primeiro alvo comparecer. Se não fosse os meus amigos serem experts, eu diria que tinha um monte de chupim (Molothrus bonariensis) ao meu redor. 🤣🤣😂
Bem diferente do chupim, essa era uma ave bem rara, com poucos registros feitos em território brasileiro. Meu dedinho nervoso não economizou.
O bando de
iraúna-velada (
Lampropsar tanagrinus), super agitado e barulhento, não parava quieto e eu tinha que ser paciente, pois desejava fazer um fotão da espécie. E acho que deu certo. Hoje a minha foto ocupa a capa como a melhor foto da espécie no site Wikiaves. Clique
aqui para ver.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Depois caminhamos um pouco e encontramos uma bela
maria-leque (
Onychorhynchus coronatus), já registrada por mim em três Estados diferentes, mas nenhum deles foi fotão. Continuo sem fotão, pois uma folhinha resolveu entrar na frente e impossibilitar uma foto de quadro. 🤣🤣🌿 Que folhinha mais intrometida!!!!
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Outro dos nossos alvos era o
formigueiro-grande (
Akletos melanoceps), que eu havia tentado no Acre e não havia conseguido. Era quase certo de vê-lo por ali, mas teríamos que atravessar por um local bastante alagado.
Só de pensar, meu coraçãozinho se apertava todo e o medo se instalava modo full / extreme. O Ka sempre ia na frente pra testar a segurança. Retrocedia para me resgatar e na hora de atravessar eu recebia todos os cuidados dele e da Vanilce. Dois seres munidos de uma coragem e solicitude invejáveis, de tirar o chapéu. 😍🥰😍🥰
Abaixo o registro feito pelo Luiz, do Ka e Vanilce me apoiando para passar para o outro lado, andando por cima de um tronco semi-submerso.
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Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho |
Mas ... sempre tem um mas, porém, contudo, contanto, entretanto ... Estávamos caminhando animados e quando íamos prosseguir até o formigueiro-grande (Akletos melanoceps) e ariramba-violácea (Galbula chalcothorax), nossa ida foi interrompida por um forte temporal.
Retiramos nossas capas das mochilas, ensacamos os equipamentos e as mochilas e seguimos rapidamente até um abrigo que o Ka conhecia e ali nos escondemos, ou quase, porque os meninos ficaram na chuva. O abrigo era pequeno demais para mais de duas pessoas.
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Arquivo pessoal Vanilce Carvalho |
Durante a chuva fiz essa foto do Luiz sob as folhas das árvores tentando se esconder da chuva. Parecia um monge saído das profundezas das florestas. Ou um personagem de um filme que poderia ser chamado de "The Green Ghost" (o fantasma verde). 😆🌧☔💚
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Abaixo, os dois meninos molhados a espera da chuva cessar. A preocupação do Ka era com a outra equipe que estava nas trilhas por lá, cujos caiaques estavam junto do nosso barco.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Depois que a chuva diminuiu um pouco, vimos nas cercanias do acampamento improvisado, muito no alto e quase fora do alcance das nossas lentes um
piuí-verdadeiro-do-leste (
Contopus virens), migrante da América do Norte, que vem invernar aqui no Sul.
Eu registrei essa espécie pela primeira vez em Manizales, na Colômbia, durante a
X Feria de Aves de Sudamérica em novembro de 2021 - clique
aqui para saber como foi minha participação nesse evento.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Como a chuva ia e vinha e o céu continuava ameaçador, além da fome que tinha se instalado pra valer em nossos estômagos, resolvemos abortar a passarinhada e retornar ao barco.
Ao chegar lá, aguardamos a outra equipe retornar da trilha por onde a gente tinha vindo. Foi um verdadeiro filme de terror conseguir descer a ribanceira escorregadia para chegar na borda do rio e entrar no barco.
A outra turma ia voltar para a pousada remando os caiaques, para aliviar o peso cederam todos os seus lanches para nós, inclusive algumas latinhas de cerveja. E lógico, não faltaram "patacones". Foi uma festa, depois do sufoco que passamos.😁🍌🍌🍌😁
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho |
Abaixo a galera dos caiaques indo embora e a gente feliz que só. Só a cervejinha e o
patacon já foram suficientes para apaziguar nossos estômagos judiados. 🤪😜😛🤭😋
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Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho |
Nas fotos abaixo "impliquei" com o gesto do Luiz Fernando e pedi para ele fazer o gesto do Mr. Spok de Star Trek. Significa vida longa e próspera 🖖🖖🖖😁. Detalhe eu sou "trekker" até embaixo d'água.
Mas reparem nas botas dele, o tanto de barro para chegar até o barco. Foi extremamente difícil descer o escorregadio caminho. Nem precisa dizer porque adorei beber a cervejinha a hora que entrei no barco. Foi bem relaxante.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Mas já passava das dez horas da manhã e eu já podia tomar cerveja (entendedores entenderão, né Vanilce? - 😂😉🍺⏰)
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Ainda se recuperando da intensa e molhada manhã, Luiz e Ka decidiram nos levar, na parte da tarde, por terra firme, não tão firme assim como vocês irão ver, para tentar encontrar o raro dançarino-de-crista-laranja (Heterocercus aurantiivertex). 🙃😁😁🙃
Eu fiquei muito feliz por evitar novos embarques e desembarques por lugares escorregadios. Tolinha, mal sabia eu que a trilha não ia ser nenhum corredor de shopping.
Até chegar no local, uma planície que costuma alagar (não sei se várzea ou igapó), fomos caminhando por um sobe e desce sem fim, onde havia lugares alagados, passagens aquáticas precárias, sem qualquer ponte a não ser alguns troncos amarrados.
Abaixo Vanilce e Luiz avaliando a passagem sobre as águas. Mas em que pese eu ser uma pessoa muito medrosa, (rainha do drama, como diz um amigo meu) confiava plenamente nos meus amigos e companheiros de aventura, ou será melhor chamar eles de meus algozes (brincadeirinha 😆😆😈😈🤣🤣)
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Não, não olhe pra minha carinha cansada abaixo, mas para a vegetação atrás de mim. O chão aí era instável, cheio de buracos e galhos cobertos por folhas. Era preciso tomar muito cuidado. Foram mais de 5 horas para percorrer os 3 km de ida e volta.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Voltamos ao escurecer sem nem sombra do nosso alvo, o
dançarino-de-crista-laranja (
Heterocercus aurantiivertex). Mas tivemos pelo menos duas compensações.
Primeiro avistamos um vulnerável e minúsculo primata. O sagui-pigmeu (Cebuella pygmaea), também conhecido como sagui-leãozinho. É a menor espécie de símio conhecida, medindo apenas cerca de 15 centímetros de comprimento (excluindo os outros 15 centímetros de cauda). Pesa apenas 130 gramas. (Fonte: Wikipedia)
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E também pude ver a freirinha-de-coroa-castanha (Nonnula ruficapilla) novamente. Meu único registro dela tinha sido feito bem de longe no Acre há 8 anos (2014).
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Retornamos mortos de cansaço, eu pelo menos estava mortinha. Mas sabia que um banho gelado (não tem água quente na pousada) iria me reviver, com certeza. Drácula ia ficar morrendo de inveja de mim. 🤪🤣🤣🤣🧛♂
Dia 18/12/2022 – domingo
Mais um dia com possibilidade de muita chuva. Dia desses, respondendo o amigo capixaba
Hilton Monteiro Cristóvão - que todos chamam de tio Hilton - um dos poucos que eu sei que lê essas minhas postagens gigantescas na íntegra e ainda comenta item a item, falei isso sobre as chuvas em Atalaia do Norte:
"Tio Hilton, chovia todo dia, e cada dia era uma
surpresa, chovia pela manhã, abria sol a tarde, ou o inverso, ou chovia à noite
e sol cedo ou não, teve um só dia que choveu o dia e a noite toda. Mas tinha
torre para nos distrair quando a gente não saia e, quando a chuva nos pegava no caminho, nosso guia de lá montava uma
barraca em minutos."
Já saindo para a trilha, eu registrei o mutum-cavalo (Pauxi tuberosa), mais um agregado resgatado por lá. Também vive livre, mas como foi chocado numa comunidade por uma galinha, ele pensa que é uma. 😆🐔🐣
Durante nossas refeições ele ficava perambulando pela cozinha como as galinhas fazem, tentando ciscar coisas pelo chão ou por cima de mesas e armários. Mesmo assim continua uma ave imponente, rara e muito bonita.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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O mutum-cavalo no refeitório Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E assim começou o dia, chove, para, chove, para. Num desses intervalos, Vanilce cheia de charme, fez pose para minhas lentes.
E toca atravessar pelas pontes improvisadas. Benditos "ka-jados". Nessa travessia, usei dois ao mesmo tempo. Eu me sentia uma verdadeira
funambulista *. 🤪🤣🤣🤣
* Funambulista é quem pratica o funambulismo - arte circense que
consiste em equilibrar-se, caminhando, saltando ou fazendo acrobacias, sobre
uma corda bamba ou um cabo metálico, esticados entre dois pontos de apoio.
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Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho |
No caminho paramos pra tomar um cafezinho e comer umas besteirinhas. Ô coisa boa. Cafezinho nas trilhas é indispensável.
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Arquivo pessoal Vanilce Carvalho |
Depois de buscar algumas aves pelo caminho, tentando encontrar as choquinhas que eram nossos "
targets" do dia, tivemos chuva forte em dois momentos, o que nos
obrigou a se
abrigar até que parassem.
Ka, mais preparado que no dia anterior, abriu sua mochila, retirou uma lona e montou uma improvisada barraca, tudo isso em minutos. E nesse dia a água veio com tudo, caiu forte pra valer. Espia só o vídeo depois da foto a seguir.
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Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho |
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares
Almoçamos debaixo da barraca, sob forte chuva. Fiquei sentada na minha "super banqueta, levíssima, que sempre carrego pendurada no meu cinto (aquisição no site Ali Express). Um luxo só.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Em relação às aves, embora com fotos não à altura das protagonistas, fiz três
lifers. Quando se trata de ave rara, qualquer registro está contando.
No quadro abaixo na parte de cima os três lifers: choquinha-de-garganta-carijó (Epinecrophylla haematonota). tangará-de-coroa-amarela (Chiroxiphia regina) e limpa-folha-riscado (Automolus subulatus).
Nesse dia ainda rolou cabeça-branca (Pseudopipra pipra), rabo-branco-amarelo (Phaethornis philippii) e papa-formiga-de-bando (Microrhopias quixensis), aves emblemáticas das matas amazônicas.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Um bando de uru-de-topete (Odontophorus stellatus) surgiu na trilha, mas só consegui gravar o som, tentamos tudo para uma fotinha, mas nada. Sem um "bird hide" *, torna-se quase impossível fazer um registro de espécie como eles.
*Abrigo, muitas vezes camuflado, usado para observar a vida selvagem, especialmente aves, de perto.
Retornamos para a pousada assim que a chuva deu um tempo. Cheguei cansada. Estava "
só o pó". Enquanto respirava um pouco, fiquei assistindo o Luiz e o Ka jogarem uma partida de ping-pong. Quem ganhou? Não lembro, mas juro que queria ter esse pique deles.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Depois subimos até o topo da torre e conseguimos fazer umas fotos bem bacanas do casal de
anambé-branco-de-máscara-negra (
Tityra semifasciata),
pipira-de-máscara (R
amphocelus nigrogularis) e
bem-te-vi-de-cabeça-cinza (
Myiozetetes granadensis).
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E mais um dia se foi, me colocando a refletir um bocado. Fiquei com gosto de quero mais e com uma única certeza no pensamento: o de estar vivendo a vida intensamente, como deve ser. Isso encheu o meu coração de esperanças, acreditando sempre que dias melhores sempre virão. Bastou olhar para a imensidão do céu a minha frente e pensar porque o
verde* é chamado de esperança. 💚💚💚
*
Significado da cor Verde: representa as energias da natureza, esperança, liberdade, perseverança, segurança e satisfação. É a cor mais harmoniosa e calmante de todas. O verde acalma e traz equilíbrio ao corpo e ao espírito. A sua utilização em momentos de depressão e tristeza pode ser reconfortante e estimulante para o equilíbrio do ser humano. (pesquisa Google)
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E assim, dei boa noite para o dia e fui dormir ouvindo os sons da floresta e da família de estrangeiros do quarto ao lado orando em conjunto numa língua não identificada. A voz que mais se destacava era a de uma criança pequena, sempre atrasada em relação aos demais. E assim, ao som do mantra repetitivo dessa família, caí nos
braços de Morfeu.* 💤💤💤🥱
*Cair nos braços de Morfeu é uma expressão popular que pode ser interpretada como o desejo por adormecer num sono profundo. Esta expressão se originou a partir da figura mitológica do deus grego Morfeu, conhecido por ser a personificação dos sonhos.
Dia 19/12/2022 – segunda-feira
Os dias estavam passando rápido. Nesta segundona, levantamos, avaliamos o tempo e Luiz decidiu que dava para ir tentar o formigueiro-grande (Akletos melanoceps). Eu disse que queria muito aproveitar para ver a ariramba-violácea (Galbula chalcothorax) também.
Ele me explicou que para chegar até ela, haveria um pedaço da trilha debaixo d'água, com esta indo até as coxas. Primeiro pensei que daria para colocar um shortinho e ir de chinelinha. Aí lembrei que estava na Amazônia e não num rio ou praia qualquer. Isso seria totalmente inviável e respondi que iria até lá e me decidiria quando chegasse e avaliasse o local. ❓❔🐟🐍🐢🐠🐋🐊
Navegamos até onde começava a trilha e dessa vez eu subi tranquila, já estava perdendo o medo de escorregar, nessas alturas do campeonato.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Fomos caminhando até chegar onde tinha o "santo" abrigo que nos protegeu da chuva no último sábado (dia 17). Ali por perto vimos um bando misto com aves pequenas bem no alto, mas não eram as que nos interessavam (saíra-de-barriga-amarela, beija-flor-estrela, choquinha-do-purus, choquinha-de-bico-curto ou choquinha-de-cauda-ruiva)
.
Mesmo assim, as que estavam ali foram registradas e passaram a compor o banco de dados do município, entre elas a saíra-ouro, juruviara e saíra-beija-flor.
Caminhando um pouco mais acabei cortando o rosto num espinheiro atrevido que resolveu, sorrateiramente se posicionar na minha frente oculto por traz de uma folha. Sangrou um bocado, mas após os preciosos cuidados da Vanilce, que fez um curativo, seguimos em frente. 🩸📍📌🥵🤪🙄😭
Mais na frente chegamos num roçado onde havia um pé de manga carregado. O Ka apanhou algumas para a gente. Vanilce ao descascar uma delas com seu canivete, fez um belo corte no dedo, que sangrou muito também.
Mais uma com curativo. Olha aí a importância de se ter guias preparados, que tem material de primeiros socorros na mochila. 🩹🌡💉✂🤕🥴😷
Abaixo as duas "curativadas". Mas que as mangas estavam boas, ah! estavam! Alguém lembrou de fotografar as mangas? Nãooooooo!
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Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho |
Como eu já mencionei, as trilhas da Reserva são bastante suscetíveis a alagamentos, o que dificulta bastante caminhar com segurança, mas em compensação brota cada fungo dos troncos e do chão, que dá licença, não tem como não parar e registrar.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Mas o desafio estava só começando. Abaixo as duas
maluquinhas buscando registrar um dos
lifers mais esperados: o
formigueiro-grande (
Akletos melanoceps).
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Arquivo pessoal Luiz Fernando Carvalho |
Funciona assim, você começa a buscar um bom ângulo e tenta se posicionar. No caso a ave e o ambiente eram escuros e o deslocamento para uma melhor aproximação era inviável devido ao terreno ser cheio de obstáculos. E por fim, dificilmente as aves colaboram, e quando o fazem, um galhinho ou folhinha entram na frente e roubam a cena.
E quando você olha e ela está no limpo, uma folha mais próxima garra o foco e causa um halo na sua imagem. Ou sua câmera * está tão velha e desgastada que o botão de foco não te obedece de jeito nenhum.
*AVISO IMPORTANTE: vendo um rim para adquirir minha futura mirrorless e lente RF. 😂🤪📷
Quando o momento tem tudo para dar uma foto linda, outro galho atrevido atravessa sobre o bico. Veja tudo o que acabei de falar no quadro abaixo:
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Você está quase desistindo quando a ave finalmente se dispõe a pousar no limpo, sem galhinho nem folhinha, mas como eu disse sempre tem um "mas" ... mas como o sol ia e vinha, onde ela pousou tinha sol e sombra juntos, e a câmera não conseguiu (culpa da sujeitinha por detrás dela 😂🤪📷) fotometrar direito. Só rindo ao lembrar desses sufocos que a gente passa. 😆
Quase ... por muito pouco, não deu foto perfeita. Talvez um flash de preenchimento pudesse ajudar, só que não. Aprendi a duras penas que bichos amazônicos são fóbicos e não se deve usar flash nunca. Mas enfim, formigueiro "checked".
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Nesse dia fizemos mais coisas. Vou falar um pouco das outras aves e deixar a
cerejinha do bolo para o final.
Duas aves migratórias e difíceis pintaram nesse dia. Falo do piuí-boreal (Contopus cooperi) e do piuí-verdadeiro-do-leste (Contopus virens). O segundo acabou propiciando um ensaio com muitos momentos no baixo enquanto caçava seus insetos.
Embora Contopus signifique (grego) kontos = curto; e pous = pé; eu brinco que são aves "no topus", e não "con-topus", exceto nesse dia, que o Contopus virens resolveu nos presentear descendo até galhinhos baixos, na altura dos olhos, sem folhinha na frente. 🤣🤣🤣 Olha aí, Dani Maia, de novo.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Também vimos nos céus dois dos urubus mais raros de se avistar. Falo do
urubu-rei (
Sarcoramphus papa) e
urubu-da-mata (
Cathartes melambrotus). Para quem não sabe, amo os urubus e o jeito deles voarem e planarem no céu. Morro de inveja, isso sim.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Mas o mais legal foi fotografar o
papa-formiga-de-bando (
Microrhopias quixensis) do meu ladinho, quase sob meus pés, enquanto clicava o formigueiro-grande. Tomei até um susto achando que era o formigueiro.
Melhor ainda foi ter tido a oportunidade de clicar um belo e tranquilo rapazinho-carijó (Tamatia tamatia). Aliás, aqui cabe uma observação: quisera todo nome científico fosse fácil assim - eu lembro de tomate e pronto, tamatia-tamatia, quer coisa mais simples que isso? 😂🍅😉
Tem uns que nem consigo pronunciar, que dirá memorizar, como exemplo o Herpsilochmus stictocephalus ou Pseudocolopteryx acutipennis. Olha as dicas de mais nomes trava-linguas citados pela amiga Sarah Barros: Eleoscytalopus psychopompus, Griseotyrannus aurantioatrocristatus. E isso vai longe.
Eu lembro no Acre em 2019, junto com os amigos
Ricardo Plácido,
Fabio Olmos e
Robson Czaban. Era um tal de
Rhegmatorhina pra cá,
Rhegmatorhina pra lá, que vou ti contar. E aí eu comecei a me comunicar cientificamente com os três também, eu dizia, alguém ouviu ou viu a
Regina por aí? Em tempo: eu e eles nos referíamos à
mãe-de-taoca-cabeçuda (
Rhegmatorhina melanosticta). 😂😂😂
- Veja
aqui como foi essa expedição pelo PE Chandless.
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papa-formiga-de-bando (Microrhopias quixensis) e rapazinho-carijó (Tamatia tamatia) Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Nesse dia enquanto caminhávamos, o Ka nos alertou para algo pingando do alto de uma árvore. Olhamos para cima e pasmem: era uma cobra fazendo necessidades. Reparem na gotícula branca que sai dela. Pingaria sobre nossas cabeças se ele não tivesse nos avisado. Ia ser uma bela "
c-a-g-a-d-a". 🤣🐍💩
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Mais a frente montamos um acampamento para servir de base caso a gente decidisse ir ao outro lado do rio tentar ver a
ariramba-violácea (
Galbula chalcothorax). O Luiz bem que tentou achá-la do lado de cá do riozinho, mas nem sombra.
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Luiz comendo "patacon". Espia só. Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Vanilce Carvalho |
O jeito seria encarar os 50 ou 100 metros (nem sei direito quanto) por dentro d'água, uma vez que não tinha outro jeito. Se tivesse, o Ka teria achado. Ele bem que procurou uma outra saída, modo de dizer, pois só tinha uma entrada e o jeito era ir por dentro d'água até o ponto de sair e subir.
A decisão era minha, ou ia e tentava ver ou carregava esse peso como arrependimento pelo resto da vida. O que você faria no meu lugar?
Quem me conhece sabe que eu jamais ia desistir. Olhei o local, olhei, assuntei lá por dentro de mim: era "só" uma caverna de folhas com chão de água, um túnel melhor dizendo. Bom, boralá seja o que Deus quiser. E lá fomos nós. 😬😖
Quando comecei a afundar e a galocha começou a encher de água, e depois a água alcançou as coxas, eu dizia dentro de mim: respira e continua, respira e continua, num para. E o nobre Ka ia me segurando pela mão e me orientando com calma. Nessas alturas ele era meu príncipe e não mais o meu condutor. 😃🤪
Eu só seguia em frente, e o Luiz e Van atrás de mim. Minutos que pareceram horas sem fim se passaram. Então chegamos e o Ka soltou minha mão e pediu o celular da Van e fez as fotos a seguir. Já estávamos numa parte mais rasa e eu sorria, mas de alívio.
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Arquivo pessoal Vanilce Carvalho |
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Arquivo pessoal Vanilce Carvalho |
Enquanto escrevo, um soluço escapa de dentro de mim e as lágrimas começam a escorrer desenfreadamente pelo meu rosto. Tive que parar um pouco e esperar passar para continuar escrevendo. 😪😢😍
Aquele foi um momento tão emocionante, mas tão emocionante, que ao fechar meus olhos agora é como se eu estivesse lá. Lembro que minhas pernas tremiam, meu coração estava aceleradíssimo e eu mal respirava.
Meu corpo tinha estabelecido um combinado com a minha mente. Ele obedecia tudo o que o que ela lhe dizia ser possível fazer naquela hora. E ela dizia: respira, vai com calma, segue um passo por vez, você consegue, não tenha medo, você consegue, vai...,vai...vai, vai, vaiiiiiiiii, não pare, don't stop, no pares, मा निवर्तत. Até em sânscrito ela falava com ele nessas alturas. 🧐🙄😳😬🥺😣🤣
Mas lembrar da solidariedade e união do grupo em prol de me fazer registrar um passarinho do outro lado daquele túnel tenebroso não tem preço e me emociona às lágrimas. Recebia "empurrão" de todos os lados. Luiz e Van toda hora me perguntavam se eu estava bem. Ka ia com um olho à frente e outro atrás em mim. E ainda levaram minha câmera para eu ir mais tranquila. 😍🥰😘❤️💚🌺
Foi algo que nunca tinha experimentado na vida. Em parte foi uma superação do meu medo, meu pânico de lugares fechados, apertados, medo do que estava escondido sob aquele emaranhado dentro das águas turvas.
Não, meu leitor, você não faz ideia do que isso significou na minha vida. Quando der vou emoldurar essas fotos, pois elas mostraram muito mais do que qualquer um pode ver.
Mas enfim, sigamos, não parou por aí não.
Subimos até o local que para nossa surpresa, inclusive do próprio Ka, o ponto da ariramba havia sido roçado, de forma ilegal, lógico, pois a terra pertence à Reserva. Aí deu desespero, passar por tudo aquilo e a ariramba não estar por ali por causa da derrubada das árvores onde ela costumava ficar. Só me faltava essa! 🥵😡😖
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Depois desse choque, paramos para se ajeitar, tirar a água das galochas e ver se estava tudo certinho. Veja como foi isso no vídeo feito pela Vanilce logo abaixo.
Arquivo pessoal Vanilce Carvalho
E aí a expectativa... será que a ariramba estaria por ali ainda? Bora procurar, enquanto isso o sol ia secando a roupa.
Woo woo. 😀🥳😀🥳 Felizmente ela estava. Não demorou muito e fiz um registro dela bem longe, no alto e na contraluz. Depois de frente, no sol, mas mesmo assim muito longe. Com tantos troncos caídos estava impossível se deslocar e tentar se aproximar rápido de onde ela pousava.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Mas de repente ela deu chance de melhorar o registro, de ver suas cores ao sol, até o brilho no olho. No Wikiaves só tem registros dessa preciosidade em cinco oportunidades. Veja clicando
aqui.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Eu queria fazer uma fotinha de frente e sabe o que foi me dito?
"Silvia, precisamos ir porque vem água por aí e muita". Como o retorno era por dentro do "tenebroso túnel", o jeito foi "e
nfiar a violinha no saco" e voltar ao nosso pseudo-acampamento, que ficava uns 300 metros de onde estávamos.
Gente, e a chuva veio!!! 💦💧☔🌊⚡
Ao chegar na nossa base, rapidamente o Ka montou uma barraca e ficamos um tempão dentro dela. O Luiz tinha meia seca e ofereceu, mas ninguém aceitou. Só fiz respirar, tirar as galochas e as meias, torcê-las e colocar de volta.
Quando parou de chover voltamos para o barco, felizes e cansados, mas totalmente realizados. Eu e Van, as "
adesivadas", estávamos meio que "
anestesiadas" e ríamos por qualquer besteira. No fundo acho que a palavra que melhor se aplica é "
aliviadas". E pelo menos me sentia assim, além de aliviada estava plenamente realizada.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Toda a aventura desse dia durou 8 horas e 13 minutos (saindo do barco e voltando a ele), devidamente registrado pelo App eBird, além de um percurso total de 5.88km.
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Cansada eu? Um pouquinho! Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Aí foi só chegar e se aconchegar. Fomos comemorar com uma bela caipirinha no refeitório. Foi até difícil voltar para o quarto. Eu estava um pouco zonza, com os pezinhos trançando para subir os degraus. Confesso que não sei se foi por conta dos dois copos que tomei ou das intensas emoções do dia. 🍹😄🤪
Só sei que dava gosto somar as alegrias e conquistas da semana com os "parsas" de aventura. 🥰💝🥰
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Arquivo pessoal Vanilce Carvalho |
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E assim terminou o nosso dia, com um visual mágico, a chuva indo pros lados do Peru e deixando o céu azul para nós.
Mas... (olha o mas de novo) ao escurecer, Zeus, o deus das chuvas, assoprou as nuvens de volta para o nosso lado e choveu a noite toda.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Dia 20/12/2022 – terça-feira
Era nosso último dia de passarinhada na Reserva. Esse dia ficara reservado para tentar registrar as espécies que ainda tinham chances e que ficaram para trás nos dias anteriores. No nosso caso algumas choquinhas e o dançarino. 🐣🥚🕺🎵
Mas, (outro mas...😂) tinha chovido a noite toda e amanhecera chovendo ainda. Por causa disso deixei para acordar mais tarde, tomar café com calma e dar uma geral no meu quarto e na arrumação das tralhas, pois o dia de voltar seria o próximo.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
O mais engraçado foi quando saí na varanda do meu quarto para espiar como estava o tempo. Havia muitos passarinhos por ali, se deliciando na chuvinha fina. Um deles era a maria-te-viu (Tyrannulus elatus), ave que víamos e ouvíamos o tempo todo.
Lembrei que eu não tinha feito nenhuma foto legal dela durante a expedição. Vi a oportunidade para fazer isso da minha varanda, no limpo, na altura dos olhos, mas minha velha câmera resolveu dar piti de novo bem na hora e não focar de jeito nenhum.
Sorte que eu já vi a bichinha "bem vista" em outras oportunidades. Uma delas foi com meu amigo
Anderson Sandro em um delicioso fim de semana conhecendo a maravilhosa fazenda Porangaí em Xinguara/PA. Veja
aqui a foto no Wikiaves e o relato da expedição
aqui.
Aí fiquei brincando assim: "a maria te viu, só quem não viu fui eu." 😆👀😂🤣
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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minha varanda Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Mas fiz fotos legais dali do quarto. Destaque para a
pipira-vermelha (
Ramphocelus carbo),
bem-te-vi (
Pitangus sulphuratus) e casal de
bem-te-vi-de-cabeça-cinza (
Myiozetetes granadensis).
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Sem poder sair longe por causa da chuva, Luiz sugeriu ficarmos clicando nos arredores da sede, pois facilitaria se proteger. Fizemos isso, clicamos sentados e protegidos pelos longos corredores da pousada e até subimos ao topo da torre.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Luiz Fernando, eu e Vanilce no alto da torre Arquivo pessoal Vanilce Carvalho |
A grande maioria das aves, assim como eu, estava sonolenta, buscando se proteger da chuvinha que viera para refrescar um pouco (e encharcar tudo um pouco mais). 😂😂😂💦💦💦
Luiz Fernando logo avisou: um bando de tiribas-de-cabeça-vermelha (Pyrrhura roseifrons) pousou. Vi que uma delas havia pousado na folha da palmeira e ficou paradona. Eu fiquei achando que ela era a vigia do bando, que nada, a safada só fazia dormir tal qual a caburé (Glaucidium brasilianum) um pouco mais ao lado.
Aí uma companheira veio buscá-la e a levou junto com as outras, depois se foram todas. Mas enfeitaram e alegraram nosso dia chuvoso.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Apesar da chuva, o dia estava bastante aprazível e relaxante. E não tinha barro "escorreguento", nem cabaninha apertada para ficar aguardando a chuva passar. Eu podia ir e vir ao quarto, ir à cozinha, tomar café, estava tudo muito ótimo.
E olha só as belezinhas abaixo que alegraram nossa manhã. Havia lindas aves se alimentando por ali, ou simplesmente esperando a chuva passar, entre eles um casal espetacular de saí-de-perna-amarela (Cyanerpes caeruleus), um anu-coroca (Crotophaga major) e uma fêmea de capitão-de-bigode-limão (Eubucco richardsoni).
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E também não fez feio o pequenino e encantador
beija-flor-de-garganta-verde (
Chionomesa fimbriata), a elegante
gralha-violácea (
Cyanocorax violaceus), o curioso
sanhaço-do-coqueiro (Thraupis palmarum) nem o encolhido
urubu-preto (Coragyps atratus).
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Almoçamos e a chuva deu uma trégua, tínhamos duas opções: tentar as choquinhas ou o dançarino. Luiz, trocou ideias, primeiro com o Ka, depois comigo e me explicou que o Ka conhecia um caminho mais curto até o
dançarino-de-crista-laranja (
Heterocercus aurantiivertex). Iríamos de canoa até um local e depois andaríamos um "pouquinho" até adentrar a floresta.
Ok, tá decidido, bora lá. Parece bem factível. Mas...
Já viram que tudo em Atalaia do Norte tem um "mas" ... e não podia faltar um "mas" no último dia.
Chegamos rapidinho de barco e fomos aportar. O que tínhamos pela frente? Lama, lama, lama *, era só o que tinha nas margens e na entradinha até o nosso destino. Daquelas que escorrega antes mesmo de se colocar o pé nela. Nossos pés afundavam pra valer e ficavam colados na hora de andar. Equilíbrio nessa hora? Nem físico nem mental. 😅😅😅😅
*A lama é a classificação concedida para uma mescla de terra pastosa, água e argila. A partir daí, essa mistura de massa pastosa se transforma em lameiros.
Confesso que este trecho foi o mais difícil de passar de todos que já tínhamos enfrentados. Dava agonia só de ver o Ka testando os melhores lugares para pisar (tipo aqueles mangues "brabo" mesmo, só não tinha cheiro ruim). Até ele deu umas deslizadas.
Ele me tomou pelas mãos e foi me conduzindo bem devagar até me deixar em segurança numa área mais seca. E então voltou para ajudar a Vanilce e o Luiz Fernando. Eles disseram que não precisava. E vieram andando pé ante pé.
Eu comecei a rezar enquanto fazia algumas imagens. E olhe a sequência e depois o vídeozinho meia boca que fiz (assista até o final). Vai curtir muito.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares
A parte seca nem era tão seca assim, ainda mais depois de tanta chuva. Mas era "caminhável".
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Talvez por isso os fungos ou cogumelos (hongos como se diz em espanhol) haviam florescido e estavam belíssimos, merecendo a atenção da minha lente e quem sabe depois virar quadro.
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Desta vez quase consegui uma foto dos sonhos da
freirinha-de-coroa-castanha (
Nonnula ruficapilla), mas galhinhos e folhinhas "
enxeridas" entraram na frente da minha lente e não teve jeito, não teve MESMO! Bem que tentamos.
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E quanto ao dançarino,
10 X 0 para ele. Realmente nos "
deixou a ver navios". Depois disso o jeito foi voltar com a "
viola embaixo do braço"... haja ditado popular para descrever a nossa
desilusão com o bichinho. Mas ele está por lá e um dia quem sabe, eu volto e consiga fazer um fotão.
Antes de sair do local pedi uma última foto minha no lugar e meu desejo foi atendido pela Vanilce. Olha aí, eu e meu super "ka-jadinho".
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Continuando a saga, o jeito foi retornar, mesmo que isso significasse voltar pelo "barro colento", até chegar no barco. E lá fomos nós, andando lentamente, se segurando onde dava, sem nenhum acidente de percurso.
A chegarmos próximos à sede, a Vanilce chamou a atenção para uma linda bromélia. Na posição que eu estava eu via um coração desenhado pela natureza além da bela bromélia.
Talvez esse coração servisse para mostrar o tanto que a natureza esbanja amor, embora por vezes seja tratada com tanto descaso e desprezo pelos seres humanos. (juro, essa foto não é montagem, apenas sofreu um crop, não tem edição). 🌾💕💚
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E assim nosso dia terminou. Era hora de arrumar as malas. Nossa partida estava batendo na porta. Voltaríamos para Tabatinga no dia seguinte pela manhã.
Dia 21/12/2022 – quarta-feira
Eu sempre disse, o dia mais chato de uma expedição é o dia da partida. Homônimos a parte, isso sempre parte o meu coração. 😭💔
De acordo com o Luiz Fernando, nesse dia teríamos que estar em Tabatinga no máximo no meio da tarde, para deslocamento ao aeroporto e regresso para Manaus.
Nossa saída da reserva Palmari estava prevista para o início da manhã após o café. Tudo combinado com Ka, que nos levaria até lá de lancha.
Tomamos café com calma. Tinha pão com ovo, o salvador do mundo, frutas e muito café.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Após as despedidas de praxe, ainda deu tempo de fazer foto com o Felipe, o ornitólogo colombiano voluntário da Reserva.
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
E assim terminou a nossa passarinhada nessa região que é uma das mais inóspitas que já conheci.
Tchau Palmari, até qualquer dia. Harpia, faltou você nas minhas listas. Espero te encontrar na próxima. 👇
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Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares |
Como eu disse, Ka ia nos levar. Temendo a chuva, eu e Van fomos no banco do meio, mas não teve chuva desta vez. Nosso retorno foi super rápido.
Maravilha Silll, nada como algo roots!
ResponderExcluirObrigada querida Je. "Nóis é roots!"
ExcluirSempre um show de relato, uma experiência incrível !
ResponderExcluirObrigada meu amigo querido.
ExcluirTudo lindo d+ Silvinha!! Viajei no seu texto, como sempre viajo é claro!!! Qta aventura papai do céu! Bom d+, d+ d+ d+ !!!!! até deu vontade de ir lá, kkk. E nossa, deu fome também, qtas delícias... e qtas belezuras vc registrou meu deuzo! Parabéns novamente por sua determinação e coragem!
ResponderExcluirSuper obrigada meu querido Wagner. Fico feliz demais com seu comentário.
ExcluirSilvia minha querida, quanta superação e aventura. Um relato completo, didático e inspirador dessa incrível expedição. Eu tb já passei por muitos perrengues de saúde que me fazem refletir se vale a pena correr certos riscos mas a vontade de conhecer novos lugares e acrescentar novos penosos ao plantel acaba superando os medos. Obrigado por dividir conosco e nos fazer viajar nas suas palavras! A Van e o Luiz são excelentes e tb espero ter essa experiencia em breve e que no meu caso poderá significar a inclusão de algumas dezenas de bichinhos novos no meu álbum de figurinhas. Grande abraço, Hilton Filho
ResponderExcluirObrigada querido Hilton, fico feliz demais por você ter apreciado essa minha postagem.
ExcluirUau, que aventura!! Vou ter que ler novamente, digo, viajar novamente nas suas palavras. Incrível como vc consegue nos prender na leitura, é como estar juntos com vcs vivendo essa aventura. Parabéns pelos 15 lifers, pela coragem de enfrentar esse desafio de adentrar na floresta em busca de pequenos sonhos alados. Resta agora uma pergunta, o que ainda virá?
ResponderExcluirObrigada pelo retorno, meu querido amigo Eugenio. O que virá? Não faço ideia, mas nunca irá me faltar desafios, tenho certeza disso.
ExcluirÊ Silvita, que baita aventura. Parabéns minha amada amiga!
ResponderExcluirObrigada meu querido amigo. Fico feliz que tenha apreciado.
ExcluirQue aventura maluca, Silvia! Fiquei aqui morrendo de inveja. Seu relato e suas fotos ficaram sensacionais! Já quero ir nesse lugar! Um abraço do Ronaldo Francisco .
ResponderExcluirObrigada meu amigo Ronaldo. Foi mesmo uma aventura e tanto. Fico muito feliz que vc gostou.
ExcluirA sua foto com curativo no rosto foi a que melhor representou essa odisséia, um super parabéns!
ResponderExcluirMeus sinceros parabéns ao Luiz Fernando, à Vanilce, ao Ka e a todos que te ajudaram. Você descreveu as técnicas que o Ka usou para te apoiar colocando galhos para você pisar, a habilidade em montar uma barraca em poucos minutos, usar o pé para te apoiar e pisar forte no chão para criar uma escadinha.
Muito interessante você falar que a programação de sua viagem foi baseada na cheia do rio Javari.
Gostei de seus relatos sobre o cotidiano de Tabatinga e Benjamim Constant. Interessante essa confusão que o fuso horário causa em visitantes.
Em diversos trechos você mistura narrativa poética com suspense, que sempre terminam com uma boa dose de risadas,
acho sensacional isso e descreve em diversos trechos como a chuva amazônica encharca até a alma.
Aprendi o que é zeptosegundo.
Parabéns a homenagem que você fez a sua mãe D. Esmeralda encontrando um barco com esse nome.
Essa sua frase é ótima, parabéns!
"Ao menor sinal de carinho, retribua. A vida passa muito rápido pra deixar pra depois!"
Um forte abraço capixaba de Hilton Monteiro Cristovão, Vitória-ES
Obrigada meu amigo. Uma delícia ler seus destaques a respeito do que eu produzo. Fico feliz demais.
Excluir"Aprendi a duras penas que bichos amazônicos são fóbicos e não se deve usar flash nunca."
ResponderExcluirSilvia, muito interessante a sua dica, valeu!
"Um deles era a maria-te-viu (Tyrannulus elatus), ave que víamos e ouvíamos o tempo todo. "
Achei interessante você ter visto constantemente o maria-te-viu, e o cricrió (Lipaugus vociferans), não apareceu?
Parabéns por compartilhar esse conteúdo tão rico, além de permitir uma viagem sem sair de onde estou, disperta o ansei de querer conhecer o mesmo q vc vivenciou.
ResponderExcluir