Você deve estar se perguntando, cadê os posts das últimas viagens antes dessa... calma, não deu tempo de terminar ainda. Tem vários começados, uma hora consigo concluir e postar tudinho. 😁💚🍀😁💚🍀
Mas a minha última expedição, tão especial quanto as anteriores, merece ser postada já, pois ela foi um marco na minha vida. Aconteceu de uma forma muito inusitada, diferente de tudo o que estou acostumada.
cardeal-do-xingu (Paroaria xinguensis) Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Tempos atrás eu e amigo Vitor Piacentini conversamos sobre expedições científicas, das quais eu poderia participar como fotógrafa. Falamos sobre captura e coleta de aves para estudos e eu disse que não me sentia confortável em presenciar uma.
E já explico o porque disso. Durante o festival de São Francisco Xavier em maio desse ano, eu criei coragem para falar sobre um acontecimento da minha infância, onde um pardalzinho foi crucial para moldar um pouco do meu jeito de ser, pensar e ver as coisas.
Apesar de ser uma fortaleza para certas coisas, para outras sou manteiga derretida purinha. Veja abaixo algumas das telas da minha apresentação.
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Esse acontecimento sempre me fez acreditar que eu não tinha emocional para participar de um trabalho que envolvesse a coleta de aves, mesmo que isso implicasse em trazer conhecimento para a Ciência Ornitológica, da qual sou grande beneficiária, uma vez que fotografo aves compulsivamente.
Mas na vida nada acontece sem um porquê e nossos traumas de infância estão nas nossas mãos para serem superados.
Vitor assistiu a minha apresentação naquele dia e entendeu um pouco mais da Silvia que ele pouco conhecia. Então veio com uma nova proposta. Dessa vez uma expedição para colaborar com as pesquisas e estudos de uma mestranda sua. Ele explicou que haveria trabalho com uso de rede, captura, entre outras ações necessárias. A decisão de participar ou não estava nas minhas mãos.
Já falei sobre uma conversa que tive com o Vitor em outro post. Vou repetir um trecho aqui e deixar o link caso se interesse em ler. Se o fizer, vá direto ao subtítulo A nova lista das espécies do Brasil.
"...Perguntei, feito criança, um porquê atrás do
outro, queria saber porque não, porque sim, enfim, como funciona. Em suma, ele me
resumiu que o pesquisador para conseguir material, tem que ir a campo, fazer
viagem, repetir em outros locais, buscar novas populações, conseguir dinheiro
para sequenciamento genético, etc. E muitas vezes é preciso viajar para museus
no exterior com vistas a comparar o material já disponível.
Tudo isso? Pensou que era simples ganhar um lifer?
Muitas vezes os cientistas têm que ficar uma semana ou
duas no campo, pois nem sempre encontram a ave. Ou encontram, mas não conseguem
gravação da voz que precisavam. Além disso, às vezes é necessário repetir o
campo em outras estações do ano. Ou conseguem gravar, mas não conseguem
coletar. Daí tem que renovar as licenças todas, ir atrás de liberar
autorizações, tentar conseguir mais dinheiro pra repetir o campo, tomar paulada
nas redes sociais por tentar fazer trabalhos robustos que envolvem coleta. Às
vezes o museu recebe material na coleção, mas não tem taxidermista e aí é
preciso contratar alguém de fora. Na maior parte das vezes esses estudos ou
parte deles são custeados pela "Fundação Meu Próprio Bolso de Apoio à
Ciência" (referência ao bolso do próprio cientista ou seu orientador),
especialmente num país que não valoriza a Ciência."
Lembrando dessa nossa conversa, estava aí a oportunidade para conhecer de perto como são realizados essas pesquisas, ajudar um estudante e tentar superar meu trauma infantil.
Em suma, foram esses os motivos do porque eu resolvi participar dessa Expedição: gostar de ajudar pessoas, de explorar novos lugares, de viajar e da possibilidade de poder incluir uma nova espécie de ave na minha Bird Life List *.
*Uma Bird life list" ou "lista de vida de observação de aves" é uma lista de todas as
aves que um observador já registrou. Muitos observadores são extremamente
dedicados e buscam alocar tempo e recursos apenas para manter sua lista em
constante crescimento. Veja mais ->> aqui.
Enfim, era pegar ou largar.
Vitor tem uma sensibilidade enorme, o que me ajudou a enfrentar "essa provação" sem maiores sofrimentos ou constrangimentos. Em contrapartida pude conhecer e ajudar sua mestranda e um aluno de graduação a ampliarem seus conhecimentos e trazerem novos conhecimentos para nós, observadores de aves.
E nesse processo todo, minha amizade e admiração pelo Vitor, doravante chamado de Vitinho, só aumentou e ainda ganhei mais dois novos amigos do coração, Jaiane Oliveira e Davi Teixeira Campos Pereira.
A Expedição Paçoquinha da Sorte
A Expedição Paçoquinha da Sorte seria minha primeira expedição de cunho científico e eu fiquei bastante ansiosa e empolgada. A princípio iríamos eu, Vitinho, Jaiane e a Jeanne Martins, minha amiga e irmã de coração. Eu só pensava: "ai minha nossa, dois nomes tão parecidos, vou acabar enrolando minha língua, dando um nó no meu cérebro". 😆😆😆
Próximo a nossa ida, a Jeanne avisou estar impossibilitada de nos acompanhar. Ela nos ofereceu pernoite no seu sítio com vistas a facilitar a ida até nosso destino.
No início, nossa expedição recebeu o nome da ave, chave dos nossos interesses: Cardeal-do-xingu, espécie integrante da lista CBRO 2021, pouco conhecida e estudada, pouco avistada e fotografada. A Jaiane ansiava ampliar os estudos existentes sobre essa espécie da mesma forma como eu desejava registrá-la com minha câmera.
Essa espécie pode ser encontrada no leste do Mato Grosso, mais precisamente no rio Culuene (ou Kuluene) em Gaúcha do Norte e Canarana.
Nosso trajeto, feito com os pontos de gps no Google Maps |
O rio Culuene é o mais importante e caudaloso afluente do Rio Xingu, que é um dos principais rios da bacia amazônica.
O Culuene é um rio muito procurado para pesca esportiva. As belezas naturais da região também impressionam. É uma das poucas preservadas no Mato Grosso e possui fauna e flora riquíssimas.
Ele divide os municípios de Gaúcha do Norte e Canarana. A pousada onde nos hospedamos fica em Gaúcha do Norte, mas é só atravessar o rio e você já está em Canarana.
23/09/2022 - sexta-feira
Saí de São Paulo com um frio de 14 graus e um frio maior ainda na barriga. Cheguei em Cuiabá com um calor de 30 graus. Vitinho me pegou no aeroporto e seguimos lanchar. Depois fomos buscar seus alunos na faculdade. Lá chegando, ele me mostrou um pouco do laboratório onde trabalha. Em seguida fomos para a Chapada dos Guimarães, onde Jeanne e Mario Friedlander nos receberam com o carinho de sempre.
Vitor testemunhou minha saída da aeronave e fez e foto abaixo - a seta fui eu quem colocou para mostrar a minha "pessoinha" ali embaixo.
Abaixo eu e Vitor lanchando rapidamente, depois subindo para a Chapada dos Guimarães com os meninos e logo após, jantando na casa da Jeanne e do Mario.Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
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24/09/2022 - sábado
Acordamos cedo, tomamos café, demos umas voltinhas no quintal, nos despedimos e pegamos estrada.
Eu, Jeanne, Vitor, Davi e Jaiane Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
No caminho fui fazendo pequenas paradinhas para clicar uma ave em cada município, aumentando assim as famosas bolinhas vermelhas do mapinha do Wikiaves, as quais chamo de Red-Ball-Lifers. Ao todo foram 8 novos pontinhos. Como você pode ver, no lado leste do MT antes não havia nada até essa expedição. 🔴🐥🔴🐥🔴
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
No começo do nosso percurso havia pouca ou nenhuma mata ao redor da estrada, as fotos ficaram todas "cor de palha" e as aves pareciam ter aberto mão do colorido para combinar com a paisagem. Como a natureza é sábia, acredito que é uma forma de se proteger dos predadores, uma vez que sem mata ficam muito expostas.
A seguir alguns destaques das belas aves que registrei pelo caminho até Gaúcha do Norte: a pernalta ema (Rhea americana) em Campo Verde, fofíssimos filhotes de coruja-buraqueira (Athene cunicularia) em Primavera do Leste, a bela curicaca (Theristicus caudatus) em Água Boa e uma elegante seriema (Cariama cristata) em Canarana.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Os meninos Davi e Jaiane foram no banco de trás, abarrotados de equipamentos, todos necessários aos estudos que a nossa equipe iria precisar (sim, eu me sinto parte dessa pequena grande equipe que partiu para o nordeste mato-grossense estudar o cardeal-do-xingu).
Como eu disse, batizamos a Expedição de Cardeal-do-xingu. Depois ela foi alterada para Expedição Paçoquinha da Sorte. Continue lendo em breve você irá saber o porquê.
Parte do trajeto escolhido pelo Vitor era por estrada não asfaltada, o que foi bem legal, pois nos permitiu ver muitas aves pelo caminho.
Fizemos uma paradinha para almoço na cidade de Paranatinga e depois seguimos em frente, cheios de ansiedade e expectativas.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Nós iríamos nos hospedar na Pousada Alto Xingu, de propriedade do sr. Lídio Coletto, que fica um pouco mais de 8 horas de carro partindo de Cuiabá.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Fomos muito bem recebidos pela gerente Celia e pelo seu Lídio. Ela estava lotada de pescadores, vindo de todos os cantos do Brasil. Ressalte-se a preocupação do Sr. Lídio e família e o trabalho em reflorestar e manter a vegetação existente. Ele usa painéis solares, que não aparecem na foto, que deve ser mais antiga. Sugeri a ele encher os gramados de plantas com flores que atraem beija-flores.
Foto aérea da Pousada Arquivo do site da Pousada |
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Logo que colocamos nossas coisas nos confortáveis quartos, tamanha a expectativa que nos assolava, descemos para o píer em busca de aves, mas não qualquer ave. A gente queria ver quem? quem? quem? O "xinguensis", óbvio né?
Fiz uma lista de aves bem legal (veja link ao final dessa postagem). Um casal de cardeal-do-xingu (Paroaria xinguensis) deu as caras rapidamente, longe, na brenha, quase sem luz e aí não consegui nenhuma foto. A Jaiane ficou empolgadíssima. E eu então!!! Quase pulei de ponta na água atrás deles.
Destaque para a variedade de aves no "quintal" da Pousada: ariramba-de-cauda-ruiva (Galbula ruficauda), caburé (Glaucidium brasilianum), choca-d'água (Sakesphorus luctuosus), choró-boi (Taraba major), ferreirinho-estriado (Todirostrum maculatum), um casal de mutum-de-penacho (Crax fasciolata). Uma saracura-três-potes (Aramides cajaneus), se sentindo a bailarina do pedaço, fazia "plié" no deck.
Havia também um bando alegre e barulhento de tiribas-do-madeira (Pyrrhura pallescens), porém não mais alegres do que eu naquele momento.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
E assim terminou o primeiro dia da nossa expedição
25/09/2022 - domingo
Acordamos cedo, tomamos café e partimos para a beira do rio. Sobre o píer havia muitos utensílios e lixo recolhidos dos barcos de pesca do dia anterior, dificultando nossa movimentação.
Observamos o que havia ao redor e quais aves estavam por perto naquele momento. A Jaiane, de binóculos, lápis e papel na mão, ia fazendo anotações para o seu trabalho e eu fotografando tudo que era apontado pelo Vitor e Davi.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Ganhamos até companhia extra nesse dia, uma pequena amiguinha, toda faceira e curiosa com o nosso trabalho e equipamentos.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Assim que os pescadores começaram a descer, aumentando o tráfego e o barulho no ancoradouro, nós seguimos nosso plano de exploração, indo caminhar até um lago formado pelo rio, perto da pista de pouso. O Vitor e o Davi iam abrindo o caminho indicado pelo seu Lídio com facões, uma vez que a mata recebe pouco movimento e com isso havia se fechado.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Ainda foram destaques do dia o bentevizinho-do-brejo (Philohydor lictor) com seu piozinho esgarniçado, o arapaçu-grande (Dendrocolaptes platyrostris), a sempre escandalosa curicaca (Theristicus caudatus) e o discreto e calado chora-chuva-preto (Monasa nigrifrons).
Retornamos à sede e enquanto os meninos se ajeitavam para almoçar, eu e Jaiane demos um pulo no píer para ver se tinha algum cardeal dando sopa por lá. Aproveitei pra tomar uma geladinha e dar uma relaxada.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
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Depois tive a oportunidade de observar os detalhes da ave, ganhando uma aula sobre as diferenças de suas congêneres. Foi um momento de emoções e pernas bambas. Hoje eu posso dizer que compreendo melhor o processo de estudos que envolvem a definição de uma espécie.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Enquanto a gente buscava verificar as aves que estavam no entorno, um outro casal de cardeal-do-xingu me deu a alegria de registrá-los, numa pequena várzea a nossa frente.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
E quando fui dormir, num é que tinha um príncipe encantado na porta do meu quarto. Quer dizer, um futuro príncipe, pois ainda estava na versão sapo. Mas meu sono era tanto, que não consegui parar pra bater papo e dar o tal beijo que o transformaria em príncipe. 😂😂😂😂 Tchau, sapo-boi, fui!
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
26/09/2022 - segunda-feira
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Toda vez que eu pensar no que vem a ser um sentimento de paz absoluta vou lembrar dessa manhã navegando pelo rio Culuene.
Seu Ismael era muito hábil em nos posicionar na hora de fotografar as aves. Tem que ter muita paciência. Era um tal de "vai um pouquinho pra frente, um pouquinho pra trás, mais desse lado, mais pra cá"...😆😆😆😆
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Agora a pomba-trocal (Patagioenas speciosa), minha nossa!!! Deu foto de quadro. E o gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis), as andorinhas peitoril (Atticora fasciata) e o socozinho (Butorides striata) não fizeram feio, mas os martins-pescador, verde e pequeno, só me deram dor de cabeça, o duro era lembrar qual era um e qual era outro na hora de postar. 🤣🤣🤣🤣
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Era perto de 11:30h quando aportamos para almoçar. O dia estava bonito, o céu azul com poucas nuvens, embora muito quente.
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Riodina lysippus - iNaturalist Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
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Conseguimos registrar um pouco da avifauna da parte contrária do rio. Um urubu-preto (Coragyps atratus) olhava curioso para um talha-mar (Rynchops niger), enquanto o filhote adolescente deste se exibia numa praia mais à frente.
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O tempo começou a fechar. Decidimos que era hora de voltar. Olhe abaixo a chuva correndo para nos pegar.
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E pegou! A paçoquinha deu sorte, pois conseguimos voltar sem maiores problemas, porém não tivemos como procurar mais os cardeais. A chuva desabou tão forte, mas tão forte, que nos fez ficar parecendo pintos molhados, mesmo com capas.
Sério, o píer da pousada é para os fortes. Não tem em lugar pra se apoiar e usar como alavanca ou uma escadinha que seja. Uma balançadinha e você pode tropeçar, se machucar ou cair na água com o equipamento.
27/09/2022 - terça-feira
Apesar da chuva no dia anterior, o dia acordou esplendidamente lindo.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Tomamos café e nossa equipe se dividiu. Vitor saiu com Davi para explorar as matas às margens do rio a pé e eu e Jaiane ficamos na pousada para vigiar a mata ao redor do píer e dos igarapés.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Haviam três barcos no ancoradouro. Os simpáticos policiais ambientais e fiscais da SEMA que chegaram na noite anterior foram descendo para embarcar em dois deles para sair vistoriar o rio.
Quando deu 6:48h, uma borboletinha distraiu meus pensamentos.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Por volta de 6:52h, pareceu que tinha um casal de cardeal bem longe, cujos olhos atentos da Jaiane viram com o binóculo. Era só um pontinho branco "lá" em Canarana, do outro lado do rio.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
O terceiro barco ficou aguardando os seus pescadores descerem do café da manhã. Os agradáveis e falantes Fernandinho Siqueira e seu irmão, para nossa sorte, (ou seria a sorte vinda da paçoquinha 🤣🤣🤣🤣) se atrasaram nesse dia.
Eram 7:19h, eu e Jaiane, sozinhas no píer, sentadas nas poltronas separadas do barco, buscávamos todo e qualquer movimento ao nosso redor.
Estava eu focada numa linda andorinha-do-rio (Tachycineta albiventer) do meu lado esquerdo, que fazia poses e me olhava com aquele olhão redondo como se quisesse saber qual era o meu propósito ali.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Então, às 7:20h, Jaiane fala bem baixinho: "são eles, são eles" e aponta para o lado direito do barco a nossa frente. Coração nessas alturas foi parar na goela. Não sei como continuei respirando depois que meus olhos mudaram de direção.
"Migos", pensem na cena, a menos de três metros de mim, eu ali, confortavelmente sentada como se estivesse na frente de um comedouro, recebo a visita mais esperada da viagem.
"Sua Alteza", o cardeal-do-xingu e sua digníssima esposa, estavam ali, parados à nossa frente, fazendo reverência.
Abaixo a primeira foto das centenas que fiz naqueles intermináveis dois minutos seguintes.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Focava num, focava no outro e o dedinho nervoso mostrou porque é chamado assim. A duplinha ficou pulando sobre os bancos e artefatos do barco e meus olhos e lente só acompanhando.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Um deles apanhou uma casquinha de pão. Ou seria um pedacinho da paçoquinha da sorte do Davi?
A gente não fazia um movimento, acho que nem respirávamos. Foi foto de quadro cheio e emoção que não acabava mais. Cliquei até o momento em que eles se foram. Exatamente 7:22h. Dois minutos do mais puro prazer ornitológico.Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Dois minutos depois os novos amigos pescadores Fernandinho Siqueira e seu irmão apareceram para zarpar com o barco que servira de palco para as minhas fotos. Agradeci por eles terem se atrasado e os dois ficaram muito felizes pela gente e pediram uma selfie, sendo prontamente atendidos.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
A gente queria contar pros meninos, mas na beira do rio
onde eles estavam não rola sinal. Fui até buscar uma geladinha pra comemorar.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
E andorinha-do-rio voltou pra comemorar comigo. Fiz a foto mais linda do mundo dela ali no píer. Mais um quadro para pendurar na parede.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Eu resolvi subir e caminhar um pouco para respirar melhor. Encontrei seu Lídio e a esposa, sentei com eles, contei sobre o acontecido e como eles moram em Brasília, onde morei e trabalhei por muitos anos, o papo foi longo. Pensa num casal simpático e bom de prosa.
Mas está achando que as emoções acabaram aqui?
Ainda pela manhã dei uma volta pela pousada onde avistei 12 lindos mutuns-cavalo (Pauxi tuberosa) - mais foto de quadro, várias e charmosas rolinhas-fogo-apagou (Columbina squammata), um jovem de saí-andorinha (Tersina viridis) pelo jeito fazendo seu primeiro ninho no barranco e vários urubus-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura), sendo que esse da foto era mau educado e mostrou o dedo médio para mim. (brincadeirinha 🤣🤣🤣🤣)
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Jaiane continuou observando o movimento do ancoradouro e fazendo anotações, mas dessa vez, sentada dentro de um barco que estava na sombra nas margens do pequeno lago.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Depois que retornei ao píer de novo, pude ver o casal de cardeal forragear nas imediações dentro de uma ilhota ali perto. Havia pouca luz e a distância não propiciou bons registros desse momento.
Acho que as aves estavam quase todas em horário de almoço. A ariramba-de-cauda-ruiva (Galbula ruficauda) devorava seu banquete ainda vivo, o socó-boi (Tigrisoma lineatum) se amoitava, talvez esperando os barcos voltarem para ver se ganhava um peixinho.
Já a saracura-três-potes (Aramides cajaneus) como é onívora andava de um lado para o outro da margem, buscando qualquer petisco que desse sopa, ou melhor uma boa refeição. 🤣🤣🤣
Acabamos ficando com fome também. Aí subimos para almoçar e quando chegamos no restaurante, embaixo da mangueira havia um lindo bebê periquito-de-encontro-amarelo (Brotogeris chiriri), caído do ninho. Foi então que instauramos a operação resgate. Seu Lídio pediu para providenciarem uma escada grande e o pobrezinho foi colocado de volta no ninho sob a supervisão da Jaiane. Espero que tenha sobrevivido.Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Quando os meninos voltaram, puderam compartilhar do nosso encantamento e comemorar junto durante o almoço
Marcamos de sair à tarde explorar uma vereda a uns 10km da entrada da Pousada, já pertencente ao município de Canarana.
Nessa vereda havia três espécies de tiranídeos: bem-te-vi-pirata (Legatus leucophaius), suiriri-de-garganta-branca (Tyrannus albogularis), suiriri-de-garganta-rajada (Tyrannopsis sulphurea). Consegui registrar também um andorinhão-do-buriti (Tachornis squamata). Os três últimas eram espécies novas (City-lifer) para Canarana.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
A noite jantamos todos juntos e já obtivemos o compromisso e apoio do Sr. Lidio para retornar e continuarmos a pesquisa em outras estações. E eu prometi enviar um calendário pra ele com as "paroarias" do Brasil, que vou montar em breve.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Após corujar um pouco, sem sucesso, decidimos que era hora de ir dormir.
Embora ele receba o nome de escorpião-vinagre e se pareça com um, na verdade é um aracnídeo. Não é venenoso nem agressivo como um escorpião. Eu não diria totalmente inofensivo, pois ele pode espirrar um líquido até meio metro de distância, com mira precisa, com forte odor de vinagre, que pode causar queimaduras e irritação nos olhos.
Ah! O Vitor também contou a sua saga de ter sido picado por um escorpião verdadeiro quando estava em campo num lugar super remoto. Contou que é uma dor lancinante. Uma verdadeira tortura física e emocional. O que reforça minha teoria de nunca deixar malas, mochilas e sacolas abertas e muito menos vestir botas e roupas, quando no mato, sem verificá-las antes.
Usei as duas fotos abaixo para mostrar como ele tinha um jeito assustador. Na segunda, um pé ao lado para dar noção do tamanho.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Depois de arrumar as malas, dormi o sono dos anjos. No dia seguinte pegaríamos estrada de volta até a Chapada dos Guimarães.
28/09/2022 - quarta-feira
Após o café, arrumamos nossas coisas no carro, nos despedimos do Sr. Lídio e colocamos o carro pra comer um pouco de poeira.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Mas no meio dessa poeira toda tinha passarinho e muitas flores. Até fiz questão de parar para registrar essa bela árvore.
Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Paranatinga Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Primavera do Leste Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Campo Verde Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares © |
Chegamos a casa da Jeanne na Chapada dos Guimarães no meio da tarde. Devido aos compromissos escolares dos três no dia seguinte, o Vitor resolveu voltar para Cuiabá e eu fiquei curtindo a minha amiga. A ideia era o Vitor me apanhar na Salgadeira. Sei lá o que ou quem é isso, mas fica na metade do caminho até Cuiabá. Jeanne me levaria até ela.
Já instalada no meu "bat quarto de costume", rearrumei minhas coisas para fazer a viagem de volta no dia seguinte.
Começou a chover e foi aumentando de intensidade. Fechei as janelas e me aquietei. Depois fui me sentar no sofá ao lado da Jeanne para fofocar um pouco.
29/09/2022 - quinta-feira
Jeanne resolveu descer até Cuiabá resolver algumas coisas e aproveitaria para me deixar no aeroporto. Vitor não precisaria vir me buscar. Só que o carro não pegou, nem com "chupetinha" do vizinho, digo, do carro do Giuliano, o vizinho.
A tempestade os deixou sem carro (queimou o módulo), sem câmera do buraco d'água, sem frigobar e sem notebook. Ficaram sem energia por 24h e sem internet por 65h.
Como a Jeanne mesmo disse, fui testemunha ocular e parceira de susto, mas ainda bem que não passou de um susto. Um grande susto!
Os cardeais sulamericanos são aves da ordem Passeriformes pertencentes à família Thraupidae, gênero Paroaria. <- leia mais aqui.
Pelo que pude pesquisar temos oito espécies que se encaixam no gênero Paroaria, sendo que no Brasil ocorrem sete:
cardeal-do-sul ou cardeal (Paroaria coronata)
cardeal-da-amazônia (Paroaria gularis)
cardeal-do-pantanal ou cavalaria (Paroaria capitata)
cardeal-da-bolívia (Paroaria cervicalis)
cardeal-do-xingu (Paroaria xinguensis)
Entretanto o SACC (South American Classification Committee) considera das nossas sete apenas cinco, rejeitando atualmente as separações do cardeal-da-bolívia e do cardeal-do-xingu propostas com base nas diferenças de plumagem (e dados genéticos preliminares, no caso do boliviano), por considerar que as evidências não são significativas para justificar tal separação.
Embora o CBRO (Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos) considere ambos os táxons (P. cervicalis e P. xinguensis) como espécies plenas, para reforçar as evidências do P. xinguensis a mestranda Jaiane Oliveira está aprofundando os estudos e analisando o material que recolheu durante a nossa expedição com vistas, no futuro, a eliminar as dúvidas se o cardeal-do-xingu deve mesmo ser tratado como espécie distinta do cardeal-do-araguaia.
Dessa forma, de posse de maiores dados sobre a biologia dessa espécie, poderemos atuar mais fortemente para ajudar em sua conservação.
E assim finalizo mais essa história da minha vida. Obrigada a TODOS, que de uma forma ou de outra participaram dela. E que venham mais histórias e emoções como esta.
Listas e-Bird - veja todas acessando esse link: https://ebird.org/tripreport/79424
Amei o relato da viagem. Imagino como deve ter sido diferente e ao mesmo tempo realizador essa expedição com cunho científico. As imagens estão incríveis! Especialmente os registros de sua alteza, o cardeal-do-xingu!
ResponderExcluirObrigada Henrique, espero ter mais tempo e postar a nossa do PERD
ExcluirCom esse relato a vontade de conhecer este pedacinho do BR só aumentou. Parabéns pelo seu belo trabalho🕊🕊🕊
ResponderExcluirpois não deixe de conhecer.
ExcluirComo sempre nos coloca dentro da história !!!! Sensacional............
ResponderExcluirObrigada meu querido amigo Anderson. História boa é para ser compartilhada. Beijo no coração
ExcluirA Aventura sempre é boa, mas as histórias delas, são melhores! Parabéns pela publicação!
ResponderExcluirObrigada querida, espero um dia poder escrever uma história passarinhando com você
ExcluirEita moça que escreve bonito, muito legal a maneira como escreve seis post. Abraço
ResponderExcluirsuper obrigada
ExcluirPor tudo isso sou um fã obstinado da Sívia!!!!1
ResponderExcluirobrigadíssima
ExcluirQue lindo! Apaixonada por essa história! Me fez viajar também! E é emocionante o amor com que vocês fazem esse trabalho! Obrigada por fazer parte desse momento tão importante na vida do Davi(meu filho♥️))
ResponderExcluirObrigada por comentar Noeli. Seu filho é um excelente rapaz. E virou um amigo.
ExcluirQue viagem e relato incrível Silvia, parabéns!! Sei quanto dói o coração a questão da coleta, mas a maioria dos nossos amigos ornitólogos também são apaixonados pelas aves livres e vivas (com raríssimas exceções), e quando realizam coletas é porque realmente foi necessário, muito necessário, inclusive para a própria conservação do táxon em questão! Ciência feita com ética e responsabilidade! Sucesso e forte abraço!!
ResponderExcluirSim, Willian, tudo feito com moderação e pro bem da ciência eu dou valor. Espero que um dia façamos uma expedição dessas juntos.
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