quarta-feira, 19 de maio de 2021

Chile - Um bate-e-volta com muita emoção

Esse post vai ter um pouco da história da minha aventura com a Claudia Brasileiro no Chile no final do ano de 2019. Foi um ano muito intenso no que se refere ao que mais gosto de fazer: viajar e fotografar aves. 

Conheci lugares incríveis e pessoas tão incríveis quanto. Fiz milhares de fotos, muitas super legais, outras nem tanto. kkkkk Ainda não consegui relatar todas as viagens, mas algumas já podem ser lidas aqui no Bloguinho.

Hoje eu me sentei para reviver uma viagem que fiz com uma das minhas melhores amigas, a quem considero a melhor fotógrafa de aves do Brasil. A Claudia é focada, perfeccionista, não mede esforços nem sacrifícios para obter a foto dos seus sonhos. 

Foram dois dias fazendo o que mais gostamos de fazer: observação fotográfica de aves. Se quiser acessar o perfil dela no Instagram clique aqui, eu te garanto que vai ser uma overdose, de tanta foto bonita. 

No final de outubro de 2019, eu estava em Alter do Chão com os queridos amigos Adriane Kassis e Marco Cruz (post ainda em construção) e recebo uma mensagem da Claudia.

- "Bora fazer pelágica no Chile?" Só respondi: bora, que dia mesmo?

Ela me explicou que sairíamos na sexta (06/12/19) e voltaríamos na segunda de madrugada. Nessa viagem iríamos eu, ela e o marido dela, o Rodrigo. Um mês antes a Claudia me informou que Rodrigo não poderia ir mais por causa de mudanças na agenda dele.

Quando retornei do Pará não tive tempo de ver a quantas estava nossa futura pelágica e fui logo cuidar da próxima expedição, desta vez para Itacaré na BA, outra viagem sensacional que ainda espero conseguir postar aqui no blog. 

Enquanto eu estava fora, a Claudia, minuciosa como sempre, cuidou de tudo, reserva de carro, hotel, etc. Avisou o dono da empresa que faz a pelágica, o Fernando Segovia Díaz, da Albatross Birding, que eu iria junto. No dia 5 quando recebeu a confirmação da pelágica, ela me avisou pra preparar as malas. Detalhe: já estavam prontinhas. kkkkkkk

Além da saída pelágica cujo sonho era fotografar o albatroz-das-ilhas-chatham (Thalassarche eremita), a Claudinha tinha um target em terra, melhor dizendo em rio, kkkkkk, que era fazer fotão do torrent duck (Merganetta armata), que eu e ela tínhamos visto no Equador, mas bem de longe. 

Veja, a seguir, "A FOTO", tanto do citado albatroz, como dos patos, feitas pela Claudinha. 

Foto: Claudia Brasileiro

Foto: Claudia Brasileiro

Eu também alimentava um sonho para essa viagem. Tinha esperança de ver um inca tern (Larosterna inca), cuja foto a Claudia me mostrara um dia. Na época eu pirei com o bicho. Ele encabeçava a minha lista dos sonhos. Mas vamos em frente contando dia a dia dessa expedição.

06 de dezembro - sexta-feira


Saí de São Paulo na sexta dia 06 de dezembro às 10:15h, com chegada prevista para 14:25h. Iria ficar aguardando a Claudia no aeroporto, pois ela ia em outro voo e chegaria apenas no começo da noite, caso não conseguisse antecipar. 

As emoções já começaram dentro do avião. A passagem sobre os Andes é fenomenal. Eu fiz muitas fotos pela janela com o celular. Parece outro planeta.

Sobrevoando os Andes
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Optei por aguardar a Cláudia no próprio aeroporto. Fiquei papeando nas redes sociais, lendo e estudando as aves num restaurante perto do portão de desembarque, enquanto tomava uma geladinha, degustava um lanche ou tomava um "expresso" bem quentinho. 

Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Assim que ela chegou, passamos na locadora, retiramos o carro e pegamos estrada. Foram 127 km até Viña del Mar, onde dormiríamos e sairíamos cedinho para o mar. Chegamos bem tarde no hotel, por volta de 23 horas. A sorte que a rede Ibis sempre tem um bar funcionando 24 horas. Ainda deu tempo de tomar uma geladinha com a Claudia antes de dormir. 

Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares


07 de dezembro - sábado


Acordamos cedo e seguimos para o pier, onde o barco aguardava. Após ser apresentada ao Fernando Díaz e fazer a tradicional selfie, eu e Claudia nos posicionamos para aguardar a saída do barco.

Eu, Claudia e Fernando
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Ainda sem uma luz aceitável, eu fiz a minha primeira espécie nova: gaivota-de-franklin
(Leucophaeus pipixcan). No decorrer do dia eu viria a fazer fotos muito mais bonitas que essa, mas a emoção de vê-la pela primeira vez foi impagável. 

Essa "pipixcan", era um desejo antigo. Quando estive na Patagônia toda gaivota que eu via eu pensava ser ela, mas meu guia Alejandro Olmos apenas dizia: no, no, esto es una  "maculipennis", referindo se à gaivota-maria-velha (Chroicocephalus maculipennis)

gaivota-de-franklin (Leucophaeus pipixcan)
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Aliás o que não faltou foram emoções nesse dia. Navegar pela agitada corrente de Humboldt não é algo muito tranquilo. Eu fiquei andando pelo barco, procurando a melhor posição. Ficar nas laterais do barco me proporcionava mais conforto para suportar o constante balanço.

Claudia sentou-se próxima aos motores, onde um rapaz enchia o mar de peixes (chumming") e as aves faziam uma festa maior. Eu tentei ficar ao lado dela, mas o cheiro do diesel e do "chumming" me deixavam enjoada. Eu não vomitei, mas muita gente passou mal. 

Veja um pouco da festa que consegui registrar com o celular.


O Fernando disponibiliza alguns dos guias da empresa para auxiliar os expedicionários a encontrarem as espécies mais importantes, porque, olha, sem brincadeira, como não havia economia de "chumming" para atrai-las, tinha mais de 5 mil aves rodeando o barco. 

Quando um deles avistava algo considerado importante (pense que gaivotões eram milhares e não eram considerados importantes kkkkkkk), ia logo gritando e avisando todo mundo. Eu anotava tudo, inclusive o número da foto, porque sabia que lembrar depois não ia ser moleza. 

Veja abaixo a Claudia fazendo selfie para mostrar o quanto de balde de "chumming" já tinha sido despejado nas águas. 

Foto: arquivo pessoal Claudia Brasileiro

Nesta manhã registramos seis espécies de albatrozes, sendo que cinco eram novidades para mim. Abaixo você poderá ver eles nesta sequência: albatroz-das-ilhas-chatham (Thalassarche eremita), albatroz-de-salvin (Thalassarche salvini) albatroz-de-sobrancelh(Thalassarche melanophris), albatroz-real (Diomedea epomophora), albatroz-real-do-norte (Diomedea sanfordi) e buller's albatross (Thalassarche bulleri). E a última foto é um pouco das aves aguardando por mais petiscos.

O pesquisador Robert Murphy um dia disse: “Agora, eu pertenço a um grupo mais elevado de mortais, pois eu vi um albatroz.” E quem viu seis espécies numa manhã só, o que pode dizer? 

Patrick Pina, meu querido amigo, respondeu assim para mim: "Pode dizer que é uma pessoa abençoada! Porque a visão de um albatroz pairar, trocar de direção e com aquela ousadia, cortar a lâmina d'água com as peninhas das pontas das asas..." Sim, Patrick disse tudo, sou mesmo uma abençoada.

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mas a gente sabia que apenas um bando de albatrozes ziguezagueando não nos contentaria. A gente queria mais. E a lista só aumentava. Havia muitas outras espécies interessantes, dentre elas as duas gaivotas que já citei: gaivotão (Larus dominicanus) e a gaivota-de-franklin (Leucophaeus pipixcan). Vimos um trinta-réis-de-bico-vermelho (Sterna hirundinacea). 

Bandinhos de alma-de-mestre (Oceanites oceanicus) e de falaropo-de-bico-grosso (Phalaropus fulicarius) passaram um pouco longe, mas era muito legal de registrar. Bacana também foi apreciar um bando misto de cormorões - espécie parecida com o nosso biguá - passando pelos nossos olhos, voando juntos. Eram eles o red-legged cormorant (Phalacrocorax gaimardi) e o guanay cormorant (Phalacrocorax bougainvillii). 

O engraçado era que estava tudo acinzentado (o tempo, as aves, o frio) e se não fosse o Fernando e sua equipe nos apontando quem era quem, eu teria ficado perdidinha.

gaivotão, gaivota-de-franklin,trinta-réis-de-bico-vermelho, alma-de-mestre,
falaropo-de-bico-grosso, red-legged cormorant e guanay cormorant
Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Sabe aquelas pardelas bonitinhas que geralmente aparecem em pelágicas? Então...

Vimos quatro espécies delas. Às vezes um escurinho na ponta do bico era o que as diferenciava. Juro, se não fosse o pessoal da Albatross Birding ajudando, eu jamais saberia que uma era uma e outra era outra, exceto as de pezinhos rosa, essa eu sempre sabia kkkkkkkk. 

Veja a seguir as quatro espécies e tire suas conclusões: westland petrel (Procellaria westlandica), pardela-preta (Procellaria aequinoctialis), pink-footed shearwater (Ardenna creatopus) e pardela-escura (Ardenna grisea) antigamente chamada no Brasil de bobo-escuro (Puffinus griseus). 

westland petrel, pardela-preta, pink-footed shearwater e pardela-escura 
Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mas de repente o céu se coloriu e pelicanos bicudões "chegaram chegando". Um atobá também passou curioso, mas não se interessou em participar da aglomeração (naquela época podia aglomerar).

E antes que a comida acabasse alguns petréis-gigantes vieram se banquetear. Eles possuem envergadura de aproximadamente 2,10 m. Seu corpo tem cerca de 90 cm. Geralmente são de cor marrom, com a cabeça um pouco mais clara (mas alguns são brancos com manchas pretas no corpo). Alimentam-se de qualquer animal recentemente morto ou já em decomposição, mas também caçam, especialmente pinguins. Eu brinco que são os carcarás do mar. 

Mas espia só as fotos das três espécies abaixo que espetáculo. Na sequência peruvian pelican (Pelecanus thagus), peruvian booby (Sula variegata) e dois petreis-grande (Macronectes giganteus), um de cada cor.

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

No retorno os pelicanos ainda nos seguiram querendo mais comida. Ao chegar no porto, um bando de "pipixcan" - gaivota-de-franklin (Leucophaeus pipixcan), esperava pela gente. E pensar que quando cheguei no Chile eu estava preocupada em ver pelo menos "uminha". kkkkkk

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Enquanto navegávamos de volta ao cais o tempo foi se abrindo da mesma forma que o nosso sorriso. Era muita alegria contida. Foi uma manhã muito agradável e proveitosa. Daquelas que dá saudade e vontade de voltar. Calma! Não acabou não. Só passou metade do primeiro dia. 

o retorno - cansadas, com frio, com fome, mas felizes

o barco que nos levou ao alto mar
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

A Claudia perguntou se podíamos contratar um dos guias do Fernando Díaz para nos levar passarinhar à tarde. Eu topei na hora, óbvio. O Fernando indicou o Nelson Contardo.

Nosso almoço foi uma verdadeira festa, pois a alegria de ter tido uma manhã proveitosa não nos abandonava um minuto. E lógico não faltou uma deliciosa "Austral" para brindar.

Nelson Contardo, Claudia e eu
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

E lá fomos nós passarinhar na encantadora Viña del Mar em Valparaiso, com o Nelson dirigindo nosso carro e parando nos pontos quentes para fotografarmos os penosinhos. 

Foto: arquivo pessoal Claudia Brasileiro

Nas paradas que ele fazia, valia registrar de um tudo, de pombo-doméstico, tico-tico até as mais  difíceis espécies. Veja a seguir dois quadros:

O primeiro quadro contém fotos de aves que não tem registro da espécie no Brasil: peruvian booby (Sula variegata), peruvian pelican (Pelecanus thagus), seaside cinclodes (Cinclodes nigrofumosus), surfbird (Calidris virgata), blackish oystercatcher (Haematopus ater) e austral thrush (Turdus falcklandii)

Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

O segundo quadro mostra fotos cujas espécies podemos encontrar no Brasil (podem acrescer na contagem do nosso perfil na plataforma Wikiaves): gaivota-de-franklin (Leucophaeus pipixcan), gaivota-maria-velha (Chroicocephalus maculipennis), biguá (Phalacrocorax brasilianus), vira-pedras (Arenaria interpres), tico-tico (Zonotrichia capensis), socó-dorminhoco (Nycticorax nycticorax), maçarico-de-bico-torto (Numenius phaeopus hudsonicus), pombo-doméstico (feral) (Columba livia) e gaivotão (Larus dominicanus). 

Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Nesse dia a "pipixcan" deu show de pose e sua amiguinha "maculipennis" também. Fiz um quadro com as duas gaivotas (são jovens ainda) mas dá para perceber que as diferenças são muitas. 

"maculipennis" e "pipixcan"
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares

Mas o melhor estava por vir. Fomos caminhando pelo calçadão. De repente meu sonho estava ali pertinho de mim (não estou falando do crush não kkkkkk), mas de uma das aves que eu considero uma das mais lindas do mundo. Eu a apelidei de Salvador Dali das aves, por causa dos "bigodes". Ou, como diz meu amigo Nelson Barros, a Noviça Voadora das aves (*menção a um antigo seriado de TV).  O que o Nelson, meu amigo não sabe, que este pequenino é conhecido no Chile como Gaviotin Monja. Falo do inca tern (Larosterna inca). De cima no passeio a gente os via na areia abaixo e dava para perceber que havia bastante deles por ali. 

Eu e Claudia fotografando os inca tern de longe, de cima do passeio
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Para chegar mais perto, teríamos que adentrar e descer até o local, mas dependíamos de autorização para tal, pois o local ficava dentro da Faculdade de Ciências Marinhas e Recursos Naturais. Eu disse, o não já temos, vamos lá ver se tem alguém que pode nos dar um sim. 

E ao chegarmos no portão encontramos um senhor também chegando. Perguntamos se podíamos fazer umas fotos lá dentro. Ele era por um acaso e nossa sorte, o reitor da faculdade. Ele autorizou mas pediu que não subíssemos nas pedras, evitando que alguém se machucasse lá dentro. 

Nem precisou dizer duas vezes, no início ele nos acompanhou e até bateu papo com a gente. Ele ainda passou um tempo nos apresentando o lugar e sua história. Adoro isso, mas naquele momento tudo o que eu queria era ouvir o clic, clic, clic da minha câmera na frente de um inca tern. 

Quer saber se consegui chegar perto deles? Espia a próxima foto.

Eu fotografando um inca tern fazendo pose 
Foto by Claudia Brasileiro

Difícil é escolher a foto mais bonita para virar quadro
Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Depois continuamos nosso passeio contornando a orla, vimos uma colônia de Leão-Marinho-da-Patagónia (Otaria byronia), muitas aves, golfinhos, banhistas e mais incas tern, ora voando, ora pousados, mas não tão fotogênicos como os da Faculdade. 

Silvia by Claudia 

Leão-Marinho-da-Patagónia (Otaria byronia)
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Há um golfinho perto dos banhistas no canto inferior direito, repare só.
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

E olha o inca tern de novo, veja como é curioso
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 
 
Claudia by Silvia

Parecia que estávamos ali fazia uma semana. Não dava vontade de parar. Nelson sugeriu a gente dar um pulo no Parque Ecológico La Isla Concon. Partimos pra lá e ficamos até o sol se por. Depois partimos de volta para Santiago onde iríamos dormir. 

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

o Parque era um lugar muito bonito com muitas aves
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

O primeiro quadro contém aves que teoricamente não ocorrem no Brasil. (exceto uma delas, a primeira do quadro, a gray gull (Leucophaeus modestus) talvez seja incluída na próxima lista do CBRO, uma vez que foi registrada em Santa Catarina pela amiga passarinheira Clarisse Odebretch - veja aqui um dos registros que ela fez.

Abaixo nesta ordem: 
gray gull (Leucophaeus modestus)
long-tailed meadowlark (Leistes loyca)
codorniz-da-califórnia (Callipepla californica)
plain-mantled tit-spinetail (Leptasthenura aegithaloides)
chilean mockingbird (Mimus thenca)
austral thrush (Turdus falcklandii)

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Não é sempre que você encontra três espécies de carquejas juntas e ainda faz um novo registro de uma ave que há muito vinha procurando: diuca (Diuca diuca). Veja a seguir a lista do próximo quadro (são aves que também podem ser encontradas em território brasileiro):

carqueja-de-escudo-vermelho (Fulica rufifrons)
carqueja-de-bico-manchado (Fulica armillata)
carqueja-de-bico-amarelo (Fulica leucoptera)
mergulhão-de-orelha-branca (Rollandia rolland)
diuca (Diuca diuca)
talha-mar (Rynchops niger)
pardal (Passer domesticus)
chimango (Milvago chimango)
garça-moura (Ardea cocoi)

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Em seguida pegamos estrada de novo, com Nelson dirigindo pra gente. Eu fui dormindo no banco de trás, porque estava acabada. Foram muitas emoções para um único dia. Mas pera, ainda falta mais um dia.

08 de dezembro - domingo


Domingo acordamos cedo, um amigo da Claudia passou nos buscar no hotel em Santiago. Ele ia nos acompanhar na passarinhada. Claudia havia pedido que ele nos levasse num ponto onde havia o torrent duck (Merganetta armata). Ele era uma pessoa muito brincalhona, embora tímida (não quis fazer uma selfie com a gente, logo eu que adoro registrar tudo e todos kkkkkk). 

Pra inaugurar o domingo, um "mimus" logo cedo. Eu explico melhor: um chilean mockingbird (Mimus thenca), bem bonitinho e colaborativo se apresentou para a foto, dando início, assim ao nosso dia fotográfico.

Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Enfim, um dos grandes momentos da viagem chegara. Num rio caudaloso encontramos nosso precioso casal de patinhos. Até fiz um texto para eles (veja o link para ler o poema na íntegra aqui no meu outro bloguinho). Extraí alguns parágrafos e repliquei abaixo.

torrent duck (Merganetta armata) - eis a foto que me inspirou
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Foi um dos momentos mais "tops" do nosso passeio "passarinhístico". Era um casal de patinhos maravilhosos. Eles são pequeninos e seu habitat é sempre um rio com muita correnteza. Os dois possuíam uma força enorme e nadavam pra cima e pra baixo, dominando aquele ambiente de muita turbulência. De vez em quando pousavam numa pedra e se buscavam. Em certo momento nadaram juntos e subiram nas pedras, fazendo um lindo display. Tal foi minha emoção, que sequer prestei atenção no foco da lente e não consegui a foto dos meus sonhos naquele momento.

Na hora eu me vi cheia de lágrimas e me afastei dos amigos. Passei um tempo refletindo sozinha, sentada numa pedra, enquanto observava e fotografava os bichinhos por outro ângulo.

Pensei com meus botões (os da câmera kkkkkkkk): a vida é uma grande correnteza, sempre em movimento, nem sempre ordenados. Nem sempre suaves. Ela nos arrasta por milhares de turbilhões. Somos pequenos como os patinhos, mas somos dotados de força descomunal pra sobreviver neste lindo leito de pedras e águas turbulentas que nos cerca.

Temos muito mais poder do que imaginamos, nadar contra a corrente é um deles. Mas falta-nos um super mega hiper poder: o de controlar o tempo.

Deixamos muitas coisas para depois, um depois que pode nem mesmo existir. Lotamos a agenda de compromissos, traçamos milhares de objetivos, estamos sempre super ocupados. Sempre correndo contra o turbilhão do tempo.

Deixamos de lado as coisas mais simples da vida, como observar o que está ao nosso redor. Deixamos de amar e demonstrar mais o que temos no coração, de aproveitar mais, de se arriscar mais, de sonhar mais.

Hoje, relendo o texto escrito no bloguinho de poemas em dezembro de 2019, não imaginava que ele seria tão perfeito e atual para os dias sombrios que estamos vivendo.

Enfim, aquele domingo só estava começando. 

Os patinhos não paravam, a gente estava no alto das pedras e eles bem longe, em que pese usarmos teles, não era muito fácil capturar seus movimentos.

um dos patinhos está no meio do quadradinho vermelho
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Eu e Claudia enchendo os cartões da câmera
Foto: Arquivo pessoal Claudia Brasileiro

A Claudia acabou descendo as pedras e se posicionando melhor, ficando no nível da água. Você já viu o resultado de uma das fotos dela no início. Foto de quadro! Eu, como tenho medo de altura, preferi ficar por ali mesmo, mas confesso que fiquei bem satisfeita com o resultado. Eu procurava registrar os pezinhos quando fora d'água, foi o que mais me encantou nos patinhos. Eu até brinco que o que mais gostei foi a patinha da patinha kkkkkkkkk 

torrent duck (Merganetta armatafêmea à esquerda, macho à direita
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

torrent duck (Merganetta armata)
Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

E a Claudinha, será que gostou? A expressão dela nessa foto diz tudo. 

Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Além das centenas de fotos dos patinhos, eu ainda fiquei explorando os arredores e achei flores diferentes, super lindas. Merecem um quadrinho só para elas.

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Seguimos para almoçar e conhecer o Condado de San Jose de Maipo, ainda na região metropolitana de Santiago. Passarinhamos pela estrada que vai em direção ao Vulcão de Maipo, margeando o Rio Volcán. O lugar era surreal. Um lugar bastante inóspito, cheio de pedras. O rio, propriamente dito, era um filete naquele ponto, quase seco. Mas havia alguns lugares com vegetação baixa de onde brotavam aves espetaculares. Hoje penso que não exploramos tão bem a região devido ao pouco tempo que tivemos. Mas deu para se encantar. Registrar uma guaracava-de-crista-branca (Elaenia chilensis) no Chile não é pra qualquer um. 

Foi uma tarde bastante divertida, de muitas novidades, muitas paisagens exuberantes, que sequer cabiam na lente grande angular do celular. 

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Por eu não falar espanhol nem inglês, penei um pouco, para variar. Ganhei um noivo pela manhã que suspendeu a festa porque eu não conseguia falar o nome dele em espanhol. Mas paciência. Não se pode saber, ter ou querer tudo na vida. Brincadeirinha. Foi só zuação, que tornou nosso dia bem mais divertido. Até hoje a gente ri muito quando lembra disso.

Vou postar dois quadros com fotos das aves que registramos nesse local. O nome está na ordem da sequência esquerda para direita, de cima para baixo.

Quadro 1

águia-serrana (Geranoaetus melanoleucus)
black-winged ground dove (Metriopelia melanoptera)
canário-andino-negro (Rhopospina fruticeti
chilean flicker (Colaptes pitius)
condor (Vultur gryphus)
crag chilia (Ochetorhynchus melanurus)
diuca (Diuca diuca)
gray-breasted seedsnipe (Thinocorus orbignyianus)
gray-hooded sierra-finch (Phrygilus gayi)

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Quadro 2

greater yellow-finch (Sicalis auriventris)
guaracava-de-crista-branca (Elaenia chilensis)
moustached turca (Pteroptochos megapodius)
plumbeous sierra-finch (Geospizopsis unicolor)
pedreiro-dos-andes (Cinclodes fuscus)
quero-quero (Vanellus chilensis)
scale-throated earthcreeper (Upucerthia dumetaria)
tufted tit-tyrant (Anairetes parulus)
white-browed ground-tyrant (Muscisaxicola albilora)

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Terminamos a nossa tarde num lugar muito bonito, chamado Humedal Batuco, agradável de se estar, todavia as aves não cooperaram muito e já combinamos de voltar, mas pela manhã, que eu acredito ser forrado de penosinhos. O Humedal Batuco parece ser aqueles lugares que as aves aquáticas adoram, principalmente se esconder no meio da vegetação. kkkkkk Assim me pareceu nesse dia. Mas foi um lugar delicioso para encerrar nosso dia e a expedição.

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

*Editando esse dia. 

A Claudia me recordou que chegamos ao Humedal apertadíssimas e pedimos ao nosso amigo para nos dar privacidade. Aliviamos ali mesmo ao lado do carro. Era tanto xixi que quando o amigo dela retornou, zuando com a gente, disse: "Dios mio, el Humidal esta aqui?"😄😄😄😄

Durante o caminho até o pier eu vi umas flores que me encantaram. Parece ser uma planta da Subtribo Carduinae, um Cardo do gênero Cirsium, ainda estou aguardando a identificação dela na plataforma iNaturalist. 

ET: É uma Alcachofra (Cynara cardunculus). Mas veja abaixo que maravilha. 

Alcachofra (Cynara cardunculus)
Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

Quanto às aves, como eu disse haviam muitas, um pouco longe e meia escondidas, além disso, minha câmera e lente estavam apresentando alguns problemas e não estava conseguindo fazer fotos boas (posteriormente levei aqui na autorizada em São Paulo e descobri que precisava trocar o obturador). 

Veja abaixo nessa sequência: garça-branca (Ardea alba), papa-piri (Tachuris rubrigastra) - quase a foto dos sonhos... kkkkkkkk o quase não deixou, havia muitos filhotes de carqueja-de-escudo-vermelho (Fulica rufifrons), bate-bico (Phleocryptes melanops), long-tailed meadowlark (Leistes loyca), a quem apelidei de "louca" por causa do nome científico. Mais uma vez registrei a diuca (Diuca diuca), e vi bandos de maçarico-de-perna-amarela (Tringa flavipes), e no meio deles alguns marrecos. Vi um jovem sargento (Agelasticus thilius) e uma garça-branca-pequena (Egretta thula).

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

A Claudia havia descido do pier e se embrenhado na vegetação. Voltou toda sorridente, e como ela ainda não tratou fotos desse dia, não sei o que a deixou tão feliz, talvez apenas tenha se "aliviado" antes de voltarmos, afinal já eram quase sete da noite. 😄😄😄😄 

Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

O sol ainda baixava no horizonte quando resolvemos ir embora. Passava das 19h quando fiz minha última foto, e adivinha o que foi? 👇

Alcachofra (Cynara cardunculus)
Foto: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares  

A lua já mostrava sua carinha quando saímos, embora o dia estivesse tão hesitante como nós em ir embora, sabíamos que a noite chegaria e tínhamos que voltar pra casa. Levávamos nos cartões milhares de fotos, na mente imagens dos dois dias intensos e no coração diversos e variados sentimentos, que me fariam suspirar de saudades e vontade de voltar. 


Fomos direto para o aeroporto, o voo da Claudia partia antes que o meu. Antes disso nós sentamos pra comemorar nossa breve expedição com uma "Austral" bem geladinha.

Fotos: Arquivo pessoal Silvia Faustino Linhares 

O meu voo estava com embarque previsto para 1:50h, mas não sei porque causa, houve um grande atraso e embarquei perto do amanhecer. Cheguei em São Paulo por volta de 9 horas da manhã. Já cheia de expectativas para que 2020 chegasse logo para eu fazer mais uma das viagens cheias de sonhos. E um pouco antes da pandemia se instalar eu pude realizar esse sonho. Se ainda não leu sobre minha viagem à África do Sul que aconteceu em fevereiro de 2020, clique aqui.

Terminando esse post, eu fiquei aqui pensando. Depois de recordar tantas e boas emoções, creio que chegou a hora de restabelecer os meus sonhos. Tanta coisa pode acontecer quando você os expande. É tão bom quando nada te impede de segui-los em direção ao seu futuro. Eu me pergunto, quanto tempo mais? 

Por enquanto resta trabalhar as sombras que se instalaram com a pandemia, enquanto os novos planos passar a ser desenhados. Por mais expedições tão maravilhosas como essa.

Obrigada Claudinha pelo convite. Que venham mais momentos como este. El loro barranquero nos esperan.


Cyanoliseus patagonus - Patagonian Parrakeet-Maccaw 
by Edward Lear 1812-1888 (Wikipedia)


6 comentários:

  1. Que rigor ao escrever, sem perder a paixão, a emoção. Meus parabéns! Viajei junto rsrs. Senti o cheiro do diesel com peixe, tonteei no meio de tantas gaivotas e vibrei com INCA TERN. Patito de las tormentas!!!!!! Ver ele nadando naqueles rios que eu chamo de liquidificador de gente, kkkkk, é incrível mesmo. Vão pra cima e pra baixo como se não fosse nada. Obrigado pelo relato!

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    1. Obrigada querido Patrick. Sei que você como eu adora aves aquáticas, marítimas e ia curtir muito essa postagem. Grande beijo no seu coração.

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  2. Que viagem bacana. Registros incríveis, relato divertido com gostinho de quero mais. Já acabou? Óhhh! Que pena 🪶 pena mesmo. Obrigada pela lembrança e vamos torcer para que este pequena e corajosa gaivotinha seja logo reconhecida pelo CBRO.

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    1. Obrigada querida amiga, fiquei muito feliz com o seu carinhoso comentário. E com certeza o seu registro irá compor a história da ornitologia brasileira. Grande abraço.

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  3. Magnífico! Silvia, que relato! A gente se sente como se tivesse viajado/viajando junto. Lindas palavras de reflexão, e as fotos... sensacionais.

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    1. Super obrigada meu amigo Lucas, eu fiquei super feliz com seu feedback. Que meus relatos e reflexões continuem inspirando pessoas cada vez mais. Grande abraço.

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