sexta-feira, 8 de outubro de 2021

SP - Um depoimento pessoal após dez anos observando aves

Esse mês, a minha amiga Ana Julia Cano, responsável pela comunicação da SAVE - Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil, ONG da qual sou contribuinte (Amigos da SAVE), me convidou para fazer um texto para a coluna do Fauna News - link aqui.

Vou transcrever aqui para que fique guardado no bloguinho e caia no meu esquecimento.

Rolinha-do-planalto – Foto: Silvia Linhares


Dez anos observando e fotografando aves. “Mas tudo isso já?! Você não enjoa?”. Não mesmo! Muita gente compara a atividade ao preenchimento de um interminável álbum de figurinhas. Outros dizem que é uma verdadeira terapia. Há quem diga que é um meio muito gostoso para fazer novos amigos. Eu digo que é tudo isso e mais um pouco. Além de ser um grande desafio pessoal.

Como tudo na vida, observar aves exige uma constante ultrapassagem de barreiras. Nesses dez anos, precisei muitas vezes superar inúmeras dificuldades, tanto físicas como mentais, para atingir os objetivos propostos por mim mesma. Em contraposição, eu recebi uma quantidade infindável de realizações pessoais. O prazer de produzir algo, de participar de algo, de contribuir para a conservação do planeta e de poder fazer a diferença é indescritível, mesmo que seja num percentual ínfimo.

Estou constantemente aprendendo algo. Hoje, posso dizer que o conhecimento que recebi e recebo por parte das pessoas, entidades, sites, redes sociais ou livros me tornou um ser riquíssimo. Transbordante. Tão transbordante que parte desse conhecimento já consigo repassar para os observadores iniciantes e até para alguns mais experientes.

Se eu for discorrer sobre isso, acho que escreveria umas 30 páginas. Então, vou resumir numa simples frase: observar e fotografar aves é um caso de amor. Brota do coração e fim.

Comecei quase por acaso. Acredito que, de alguma forma, o destino se encarregou de me mostrar um caminho em que eu poderia ser mais feliz e encontrar a minha verdadeira essência.


Silvia Linhares – Foto: Raimundo Carvalho


É comum as pessoas me perguntarem qual foi o momento mais marcante nesses dez anos. Difícil escolher apenas um, porque o prazer de observar uma ave e buscar o melhor momento para capturar uma bela imagem dela é sempre único.

Todavia, não resta dúvida de que alguns são mais emocionantes que outros. Você sabe quando isso acontece: as pernas fraquejam, as mãos ficam trêmulas e os olhos vertem lágrimas.

Um desses momentos foi quando avistei a rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis). Sua redescoberta e as ações para sua conservação, levadas à prática pela SAVE Brasil (Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil), parecem filme de ficção. O dia que eu bati meus olhos pela primeira vez naquela minúscula criaturinha, me faltou ar e muito pouco para eu desmaiar de emoção. Eu a chamei de rolinha da esperança. Há um post aqui no bloguinho contando como foi cada minuto desse encontro e o que ele significou na minha vida.

Rolinha-do-planalto – Foto: Silvia Linhares


Eu ficaria aqui descrevendo inúmeros momentos extasiantes como esse. Chegar até aqui com mais de duas mil espécies registradas, muitas delas raras, ameaçadas ou icônicas como a harpia, saíra-apunhalada, soldadinho-do-araripe, pato-mergulhão, jacutinga, choquinha-de-alagoas, entre outros, me faz ver que estou no caminho certo e que ainda há muito por vir.

Mas aproveito o espaço desta coluna para contar um segundo momento que me fez sentir um dos seres mais privilegiados da nação passarinheira. Foi o dia no qual pude ver e fotografar uma ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), que está extinta na natureza desde 2000 – uma das causas de seu desaparecimento foi o tráfico.


Exemplar de ararinha-azul, espécie que inspirou o personagem Blu, da animação Rio – Foto: Silvia Linhares

Em 26 de fevereiro de 2012, estive na Fundação Lymington com colegas do CEO (Centro de Estudos Ornitológicos). Nessa ocasião, conheci o Presley, um dos 73 indivíduos de ararinha que existiam no mundo. Foi um dos últimos da espécie que teve o privilégio de viver parte da sua vida na natureza. Lá na Fundação, ele tinha um viveiro só para ele, onde tive a oportunidade de fazer alguns registros. Após seu resgate, Presley ainda viveu por quase 10 anos, período no qual foram feitas várias tentativas de reprodução em cativeiro – sem sucesso, no entanto. Foi inspirado nele que Carlos Saldanha criou o filme Rio. Estima-se que quando ele faleceu, em junho de 2014, tinha em torno de 40 anos.

Meu maior sonho é um dia poder registrar as ararinhas livres em seu habitat. Torço pelo sucesso dos envolvidos no projeto de reintrodução da espécie na natureza, entre eles a SAVE Brasil.


Tráfico e perda de habitat fizeram a ararinha-azul não existir mais na natureza – Foto: Silvia Linhares

Mesmo que às vezes eu fique descrente, sempre mantenho acesa a esperança de que um dia um milagre vai acontecer e as coisas mudarão. Que não haverá mais tráfico de animais silvestres nem desmatamento. Que um dia o ser humano vai se dar conta que a desvalorização da vida e o descaso com a natureza trará consequências irreparáveis para a sua própria espécie.

Finalizo destacando que tudo que preciso na vida é de uma árvore lotada de passarinhos. Segue um trecho poético do meu amigo pernambucano Nelson Barros:

“Árvore é o ser vivo mais generoso do mundo. Fruta que alimenta, folha e casca que cura doença. Oxigênio. Sombra. Árvore é mãe. Eu penso que matar uma árvore é como matar uma mãe. É matar o sagrado. Matar uma floresta é matar o humano e o divino. É matar o homem e matar Deus.
Pense nisso.”

#nãomatarás
#nãodesmatarás


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